Trata-se de um lugar de gente humilde, nos confins dos centros políticos de decisão do século XXI. Do outro lado da barricada, osamericanos controlam o discurso e a mundi-vivência do restante planeta. Até que um jovem da força aérea cai nas montanhas, ali perto. Alguma coisa pode ser feita. É esse o pensamento de outro homem que também nos confronta – o negociador (Simon Frankel). O piloto é arremessado para o celeiro do agricultor. Tem uma perna partida, mais-valia para o negociante, que vive do conflito entre a sua nação e as outras, para quem o lucro é a palavra da existência. Tudo circula em torno do dinheiro, e ele dá algumas notas ao agricultor em troca do tecto e da alimentação do refém.
Fica assim estabelecida a situação dramática, que acarreta o dilema ético-moral das personagens de “O Piloto Americano”. A mulher do agricultor, Sara (Andreia Bento), arranja medicação para o americano na aldeia, depois de o marido lhe dar o dinheiro. Tudo é uma troca, e uma troca que envolve esse papel abstracto que gere o mundo. Sara está assustada com aquela presença, mas é hospitaleira. Eva (Joana Calado), a filha, também nos conta que se sente alguém especial, que atravessa esta imanência e vê além do que aqui se passa. A rapariga fica fascinada com o piloto. Dança para ele uma música e coreografia contemporâneas; sabe poucas palavras em inglês, e ambos ficam perdidos na tradução das mesmas.
O celeiro como teste da humanidade
O celeiro torna-se no centro desta aldeia. Aparece o comandante (Américo Silva), arrastado pela notícia de que existe um refém. Este último tenta exprimir-se na sua língua, que, apesar de universalmente hegemónica, só chega a estas populações através de ícones como o Duffy Duck, elo de ligação entre o piloto e o agricultor. Isto não basta para que o agricultor compreenda que tem à sua frente um ser humano, influenciado pela imagem que o comandante transmite dos americanos. São “os inimigos”, e, nesse sentido, é preciso tratar como valor de guerra aquele homem que caiu em território nacional. A violência e a dor são as aliadas deste homem que não vê o que sente o piloto, muito menos se preocupa se este tem sede ou fome. David Greig, autor do texto, numa entrevista dada me 2009 ao Financial Times, refere: “As minhas peças têm sempre em algum lado, a ideia de que é muito, muito difícil ter uma conexão verdadeira e ainda assim tentamos. É aquela pergunta: quando encontras o que é diferente de ti? Acolhe-lo? Tens medo dele? Apaixonas-te? Sobrecarrega-lo? Esse outro sobrecarrega-te?”
Uma vez mais o colectivo Artistas Unidos vai buscar um texto que coloca o dedo na ferida do nosso status quo contemporâneo. Vivemos um choque cultural, mas também a separação de cada um em relação ao ser-se tolerância perante o outro que é diferente, tem outros ideais, e de quem nos falaram de determinada maneira. Vivemos o confronto entre a escassez de uma comunidade representada por alguns aldeãos, e o mundo no auge do seu capitalismo – que tem como símbolo o jovem piloto, que é belo, ouve centenas de músicas no seu ipod, e ameaça constantemente os que lhe estão a estender a mão.
Para que lado pende a justiça? O desfecho é certeiro e esclarecedor de como, muitas vezes, a morte serve para a História ser contada sob um ponto de vista unívoco, distante do que nos une como seres dotados de humanidade, liberdade e igualdade fraterna. Teria sido melhor que o piloto americano não tivesse aparecido entrado na vida destes camponeses? Provavelmente sim.
