Cultura

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O choque humano e cultural de “O Piloto Americano”

Na escuridão, à esquerda do palco, as personagens, sentadas, olham-nos. Do outro lado, a plateia silencia. Então, um homem, o agricultor (Rúben Gomes), diz-nos que o piloto americano foi o ser humano mais belo que conheceu. “Era desconcertante. No que me diz respeito, quanto mais cedo se fosse embora da minha cabana, melhor.” Em “O Piloto Americano”, peça de David Greig encenada por António Simão, levada a cena pelos Artistas Unidos no Teatro Variedades, em Lisboa, estamos num país sem nome e em guerra.

Trata-se de um lugar de gente humilde, nos confins dos centros políticos de decisão do século XXI. Do outro lado da barricada, osamericanos controlam o discurso e a mundi-vivência do restante planeta. Até que um jovem da força aérea cai nas montanhas, ali perto. Alguma coisa pode ser feita. É esse o pensamento de outro homem que também nos confronta – o negociador (Simon Frankel). O piloto é arremessado para o celeiro do agricultor. Tem uma perna partida, mais-valia para o negociante, que vive do conflito entre a sua nação e as outras, para quem o lucro é a palavra da existência. Tudo circula em torno do dinheiro, e ele dá algumas notas ao agricultor em troca do tecto e da alimentação do refém.

Fica assim estabelecida a situação dramática, que acarreta o dilema ético-moral das personagens de “O Piloto Americano”. A mulher do agricultor, Sara (Andreia Bento), arranja medicação para o americano na aldeia, depois de o marido lhe dar o dinheiro. Tudo é uma troca, e uma troca que envolve esse papel abstracto que gere o mundo. Sara está assustada com aquela presença, mas é hospitaleira. Eva (Joana Calado), a filha, também nos conta que se sente alguém especial, que atravessa esta imanência e vê além do que aqui se passa. A rapariga fica fascinada com o piloto. Dança para ele uma música e coreografia contemporâneas; sabe poucas palavras em inglês, e ambos ficam perdidos na tradução das mesmas.

O celeiro como teste da humanidade

O celeiro torna-se no centro desta aldeia. Aparece o comandante (Américo Silva), arrastado pela notícia de que existe um refém. Este último tenta exprimir-se na sua língua, que, apesar de universalmente hegemónica, só chega a estas populações através de ícones como o Duffy Duck, elo de ligação entre o piloto e o agricultor. Isto não basta para que o agricultor compreenda que tem à sua frente um ser humano, influenciado pela imagem que o comandante transmite dos americanos. São “os inimigos”, e, nesse sentido, é preciso tratar como valor de guerra aquele homem que caiu em território nacional. A violência e a dor são as aliadas deste homem que não vê o que sente o piloto, muito menos se preocupa se este tem sede ou fome. David Greig, autor do texto, numa entrevista dada me 2009 ao Financial Times, refere: “As minhas peças têm sempre em algum lado, a ideia de que é muito, muito difícil ter uma conexão verdadeira e ainda assim tentamos. É aquela pergunta: quando encontras o que é diferente de ti? Acolhe-lo? Tens medo dele? Apaixonas-te? Sobrecarrega-lo? Esse outro sobrecarrega-te?”

Uma vez mais o colectivo Artistas Unidos vai buscar um texto que coloca o dedo na ferida do nosso status quo contemporâneo. Vivemos um choque cultural, mas também a separação de cada um em relação ao ser-se tolerância perante o outro que é diferente, tem outros ideais, e de quem nos falaram de determinada maneira. Vivemos o confronto entre a escassez de uma comunidade representada por alguns aldeãos, e o mundo no auge do seu capitalismo – que tem como símbolo o jovem piloto, que é belo, ouve centenas de músicas no seu ipod, e ameaça constantemente os que lhe estão a estender a mão.

Para que lado pende a justiça? O desfecho é certeiro e esclarecedor de como, muitas vezes, a morte serve para a História ser contada sob um ponto de vista unívoco, distante do que nos une como seres dotados de humanidade, liberdade e igualdade fraterna. Teria sido melhor que o piloto americano não tivesse aparecido entrado na vida destes camponeses? Provavelmente sim.

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