Desde que a revolução cubana derrubou a ditadura de Fulgencio Batista, os Estados Unidos avançaram com uma invasão fracassada, em 1961, e tentaram assassinar Fidel Castro dezenas de vezes. Ao mesmo tempo, usaram todos os métodos, incluindo a introdução de doenças na ilha, para afetar a população e a produção agrícola.
De forma extraordinária, este pequeno país das Caraíbas ajudou outros povos a libertarem-se do colonialismo. Na luta contra a ocupação francesa, em dezembro de 1961, o navio cubano Bahía de Nipe levou armas à Frente de Libertação Nacional argelina e no regresso transportou 78 combatentes feridos e 20 crianças órfãs para receberem tratamento médico em Cuba. Cuba fez o mesmo com a luta dos povos colonizados por Portugal e foi determinante para a derrota do exército sul-africano em Angola. Também construiu hospitais no Vietname durante a invasão dos Estados Unidos.
Já depois de ser eleito presidente da África do Sul, Nelson Mandela visitou Fidel Castro em Havana e deu-lhe uma reprimenda. Como é que o líder da revolução cubana não tinha ainda visitado a sua pátria sul-africana, perguntou. Mandela recordou que Cuba havia treinado militarmente os combatentes da ANC que lutaram contra o apartheid. Quando Fidel decidiu visitar, finalmente, a África do Sul, passou por vários outros países que o receberam como um herói.
Mas Cuba ficou, sobretudo, conhecida pelo apoio médico que levou a todos os cantos do Sul Global. Tratou milhares de crianças ucranianas afetadas pelo acidente nuclear de Chernobyl e em muitos lugares do planeta os únicos médicos que os mais pobres alguma vez viram eram cubanos. Quando rebentou a epidemia de ébola em Serra Leoa, os médicos cubanos foram os únicos que se atreveram a enfrentar ao lado das populações a doença. Também diante de uma crise sanitária sem precedentes em décadas, quando rebentou a covid-19, Itália viu-se obrigada a pedir ajuda a Cuba.
Vários relatórios do Banco Mundial e da UNESCO indicaram, em diversos momentos, que Cuba possui o sistema educativo de maior desenvolvimento na América Latina e no Caribe. Ao mesmo tempo, o país tem uma das taxas mais elevadas de médicos por habitante no mundo. Apesar do bloqueio de décadas, este país latino-americano sem grandes recursos conseguiu eliminar a transmissão de HIV entre mãe e filho e alcançar taxas de mortalidade infantil e de esperança média de vida ao nível dos países mais ricos. Em 2025, Cuba sobressaía por ser o segundo país do mundo com mais mulheres eleitas no parlamento, apenas atrás do Ruanda.
Nem falida nem falhada: Cuba está firme
Imaginemos: é imposto a Portugal um bloqueio total de combustíveis fósseis. Embora 80% da nossa eletricidade provenha atualmente de fontes renováveis, 70% do total das nossas necessidades energéticas continuam a depender do petróleo e do gás natural. Feitas as contas, 75% de toda a energia consumida em Portugal é importada. Imaginemos, portanto, as filas nas bombas de gasolina com o combustível ao triplo do preço, de que dependem 80% dos nossos automóveis; imaginemos o turismo desativado com um milhão de postos de trabalho perdidos e todos os aviões em terra; imaginemos uma contração do PIB de 20% ao ano, com milhares de empresas a falir e o desemprego a bater nos 25%. Imaginemos a Covid, mas cem vezes pior. Imaginemos o apagão do ano passado, mas todos os dias e sem ser a brincar. Imaginemos a fome, o desespero, a desigualdade e a violência. Quanto tempo aguentaríamos nós, portugueses, da Europa desenvolvida habituada à carne, aos confortos inúteis, às farmácias abastecidas e ao hiper-consumismo?
Cuba enfrenta tudo isto, mas num contexto que, felizmente, os portugueses nunca conheceram: o subdesenvolvimento herdado do colonialismo; a asfixia económica do bloqueio ao longo de 67 anos, o terrorismo patrocinado pela mais poderosa potencia militar do mundo. Não é possível exagerar a gravidade do que Cuba enfrenta: a decisão de proibir toda a entrada de combustível na ilha não é apenas mais uma forma de extorsão, configura um acto de genocídio. À semelhança dos cercos medievais, Trump quer usar a fome das crianças cubanas, o colapso dos hospitais e a falta de medicamentos e para forçar a pequena ilha rebelde a render-se à potência sitiante. Desde o final de Janeiro, o cerco aparentava sustentar-se na ameaça de “tarifas extraordinárias” contra quaisquer países que enviassem crude para Cuba, mas quando o Supremo Tribunal dos EUA derrubou as tarifas, nenhum país retomou a venda de petróleo à maior ilha das Antilhas. O último envio conhecido de petróleo partiu do México no início de Janeiro, quando o Ocean Mariner descarregou 86.000 barris na baía de Havana. Tolhido pelas ameaças dos Estados Unidos, o governo mexicano voltou a enviar combustível. Mas a proibição internacional de vender petróleo a Cuba pelos EUA não depende de leis, até porque ela é, à luz do Direito Internacional e segundo a ONU, ilegal, ela depende da ameaça de violência, como vimos na Venezuela, que parou de exportar petróleo quando o seu país foi agredido e o seu presidente raptado, ou na pirataria praticada pela marinha dos EUA no mar do Caribe, que simplesmente assalta quaisquer petroleiros que tentem chegar a Cuba. Do alto da sua arrogância imperial, Trump arroga-se o direito de poder ameaçar qualquer país do mundo: “passem para cá o vosso país, ou eu mato-vos”.
Não são palavras vãs: o mundo viu o que o magnata pedófilo fez à Venezuela e agora ao Irão. O imperialismo tem a capacidade efectiva de matar qualquer pessoa a qualquer momento, mas não tem a capacidade de colonizar qualquer país quando quiser. Cuba é, de todos os países do mundo, a mais incrível prova de que, mesmo sob as condições mais duras, a resistência é possível quando emana não de um líder, mas um povo, um destino colectivo, uma história.
A estratégia cubana para resistir à estratégia de “zero opções” implementada por Trump é digna de estudo e admiração: o governo encabeçado por Miguel Díaz-Canel, pôs em marcha um plano ousado para diversificar as fontes energéticas, garantir o funcionamento dos serviços vitais à população e aumentar exponencialmente a produção de energias renováveis.
Cerca de 75% da electricidade produzida em Cuba depende de combustíveis fósseis. Os cubanos conseguem extrair actualmente cerca de 40 mil barris diários dos seus próprios jazigos, mas isso corresponde apenas a um terço das necessidades energéticas da ilha. Para dificultar ainda mais a situação, a maior parte das grandes centrais termoeléctricas da ilha estão velhas e, consequência do bloqueio dos EUA, sofrem avarias constantes. O resultado é um défice de produção que, em horário de pico, ronda em média os 1700MW: cerca de metade da procura total. Este défice energético inflige um sofrimento cruel a todos os 10 milhões de cubanos que vivem na ilha: há lixo que acumula nas ruas porque os camiões não têm combustível, há famílias que não conseguem guardar comida no frigorífico por causa dos apagões diários, há trabalhadores que demoram eternidades a voltar para casa depois de um dia de trabalho porque os transportes públicos não funcionam, há pais que não conseguem cozinhar o jantar dos filhos porque não têm gás, há hospitais onde os médicos temem ficar sem electricidade a meio de uma cirurgia.
No entanto, apesar de todas as dificuldades, Cuba não é um Estado falido nem um Estado falhado, como repete Trump para justificar a invasão da ilha. Com um impressionante dinamismo, o governo cubano avançou com um ambicioso plano para racionar a energia de modo a garantir que a agricultura e a produção e alimentos não param e que os sectores chave da economia e os serviços vitais não são interrompidos: os apagões sentidos pela maioria dos cubanos são o preço de evitar a fome e a morte. Simultaneamente, em menos de um ano, Cuba instalou 51 gigantescos parques fotovoltaicos de 21,8MW, totalizando mais de 1000MW, mais de um terço da energia consumida em horário solar. Até ao final de 2026 Cuba espera duplicar estes números, o que a coloca no pelotão da frente do planeta rumo aos objectivos de desenvolvimento sustentável da ONU para 2030.
Em paralelo com a instalação dos grandes parques fotovoltaicos, Cuba tem em marcha uma estratégia de descentralização da sua matriz energética, assente no incremento da chamada “geração distribuída” a partir de pequenos geradores locais e através da acelerada instalação de 5000 sistemas fotovoltaicos domésticos, de 2KW, em casas demasiado isoladas ou onde moram famílias prioritárias, como pessoas doentes, ou com deficiência, por exemplo. Outros 5000 sistemas idênticos estão a ser instalados em serviços vitais, como hospitais, lares de idosos, maternidades, universidades, centros de saúde ou bancos. Ainda no âmbito desta estratégia de descentralização, o governo implementou programas de incentivos fiscais que encorajaram os cubanos a comprar os seus próprios sistemas fotovoltaicos domésticos. E não é tudo: o governo trabalha arduamente na expansão e na recuperação da energia eólica, tem em curso programas importantes para aumentar a produção nacional do seu próprio crude e do seu gás natural e desenvolve experiências para aproveitar outros recursos, como a biomassa dos resíduos sólidos ou do marabu, na geração de electricidade. Cuba dá passos firmes rumo à soberania energética, exibindo níveis de capacidade científica e técnica que não se coadunam com o mito de um “estado falido e falhado”.
Perante o injusto castigo colectivo imposto pelo imperialismo, Cuba decidiu resistir e está a conseguir resistir. Quando, recentemente, mais de uma dezena de mercenários munidos até aos dentes com sofisticadas armas de guerra, partiram da Florida, nos EUA, para tentar invadir a ilha, a guarda-costeira cubana acabou com a intentona em minutos, abatendo quatro terroristas e prendendo os restantes. Em Cuba, como dizia Juan Almeida, “não se rende ninguém”. Cuba ensina todos os povos que amam a sua liberdade, independência e soberania que a única forma de garantir a vida é estar disposto a morrer por ela: pátria ou morte.
Regressemos ao cenário hipotético inicial: como estaria Portugal, se submetido ao bloqueio energético de Trump? Poderíamos gabar-nos da tranquilidade com que Cuba continua, pacificamente, a trabalhar, a viver e a tentar resolver os seus problemas? Teríamos as mesmas prioridades dos cubanos? Ou seja, salvar vidas e proteger os mais frágeis? Seríamos capazes de alavancar semelhantes mil-e-um programas de alta tecnologia para suprir o défice energético? Teríamos a mesma coragem? Mas a grande questão, cuja resposta a história registará para sempre, é como reagirá a humanidade inteira ao lento estrangulamento do povo mais solidário do mundo. Este não é apenas um desafio colocado aos Estados na mira do imperialismo com capacidade de enviar combustível para Cuba, como a Rússia, a China, o Brasil, o México, a Venezuela ou Angola, mas também a todas as mulheres e homens decentes do mundo, que têm a obrigação moral e humana de, com o seu contributo individual, engrossar a onda global de solidariedade, romper o bloqueio e deixar cuba respirar.
