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Memória

A Voz do Operário sob a ditadura: direção forçada a demitir-se (1949)

Na história d’A Voz do Operário, a direção eleita para o ano de 1949 salienta-se, logo à partida, por ter sido a primeira a incluir uma mulher, Maria de Deus Antunes. Outro marco relevante é ter sido forçada a demitir-se, no quadro da repressão que se seguiu às pseudo-eleições presidenciais, naquele ano encenadas pela ditadura.

Legalidade… relativa

No artigo anterior, mencionou-se o papel central que A Voz do Operário teve num importante momento da resistência antifascista: a candidatura presidencial de Norton de Matos.

Mas sublinhe-se que esta coletividade cumpriu estritamente a legalidade estabelecida pela própria ditadura. A Voz do Operário limitou-se a ceder o seu salão para várias sessões de propaganda de Norton de Matos. E só se realizaram as sessões que foram previamente autorizadas pela ditadura, na pessoa do governador-civil de Lisboa.

Além disso, forças da autoridade estiveram presentes em cada sessão. E usaram do seu poder de interromper um discurso ou de decidir se determinado orador podia sequer começar a falar.

Mas, apesar de toda a suposta legalidade, A Voz do Operário deu muito nas vistas: foi o palco das iniciativas de maior relevo da oposição antifascista na capital do país.

Isto quando não tinha sido permitido à candidatura de Norton de Matos que realizasse um único comício de rua e ao ar livre, na cidade de Lisboa…

Resistência

Eram eleições falsificadas de fio a pavio, desde o recenseamento de quem tinha direito a votar, até à contagem dos votos. Porém, durante algumas semanas, havia uma relativa abertura na censura à imprensa. E, apesar de muitas restrições, era permitida a realização de comícios e sessões de propaganda. Isto enquanto durava o período oficial de campanha eleitoral.

Para a resistência antifascista, tais eleições constituíam uma rara oportunidade de expressar ideias e juntar pessoas. De mostrar que muito povo tinha a coragem de dizer que não estava com a ditadura.

Ou seja, apesar de falsas, essas eleições eram uma ocasião de animar e formar consciências, para depois prosseguir e reforçar a resistência.

Repressão

Por sua vez, para a ditadura, para além da fábula de legitimidade, as eleições que falseava eram uma oportunidade de identificar alvos para uma nova vaga repressiva. Na sequência ou mesmo durante o próprio processo eleitoral.

Sendo que a repressão não atingia apenas candidatos e ativistas da oposição. Também incutia medo e passividade ao grosso da população.

A Voz do Operário foi um dos alvos, naquele ano de 1949. E percebeu que, afinal, não tinha liberdade para ceder o seu salão a uma campanha da oposição. Mesmo cumprindo todos os supostos trâmites legais.

E assim, A Voz do Operário recusou depois o seu salão para a campanha presidencial de Arlindo Vicente, em 1958…

Instrumentos repressivos

A repressão política não se faz apenas com os instrumentos mais óbvios, como uma polícia política ou serviços de censura.

No caso em apreço, o instrumento que atingiu A Voz do Operário chamava-se «Instituto de Apoio à Família». E foi manejado diretamente por um membro do governo, o então «subsecretário da assistência». Um sujeito de nome Joaquim Trigo de Negreiros. No ano seguinte ele seria promovido por Salazar a ministro do interior.

O método foi simples: cortou imediatamente um subsídio mensal que tinha sido atribuído à sociedade A Voz do Operário. E deixou de responder à sua correspondência. Numa altura em que esta coletividade já estava fragilizada com dificuldades financeiras.

Mas não ficou por aqui. Também bloqueou a aprovação do orçamento anual d’A Voz do Operário. E com isso colocou-a numa situação de incumprimento de requisitos legais a que estava sujeita, como instituição de solidariedade social que recebia uma comparticipação financeira do Estado.

Além disso, acusou a direção d’A Voz do Operário de se ter desviado dos fins estatutários. E sugeriu que fosse demitida ao governador-civil, que era quem tinha a competência formal para forçar essa demissão, e mesmo para encerrar a sociedade.

Interesse coletivo

Na sequência de uma audiência com o governador-civil, aquela direção d’A Voz do Operário demitiu-se evocando apenas as críticas de que tinha sido alvo por alguns sócios. E organizou a eleição antecipada de uma nova direção.

Assim salvaguardou a continuidade desta instituição coletiva.

Aqui se recordam os seus nomes: Eduardo Ventura Reimão, presidente; Jorge da Cruz Valente, 1º secretário; Maria de Deus Antunes, 2ª secretária; Manuel Simões Ferro, 1º tesoureiro; António Rosado Lopes, 2º tesoureiro; Filipe António dos Santos, 1º vogal; Ilídio de Almeida, 2º vogal.

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