Voz

Memória

A Voz do Operário sob a ditadura: o editor vetado pela Censura

O dia era 23 de Abril de 1958. O ministro do interior recebeu uma denúncia anónima contra o presidente da direcção d’A Voz do Operário, José Antunes. Anote-se o momento em que isto acontece: 4 dias depois de Humberto Delgado formalizar a sua candidatura presidencial. Essa candidatura vai galvanizar o repúdio popular pela ditadura. Apesar do contexto de umas eleições completamente falseadas, desde o recenseamento até à contagem dos votos.

A delação

Para se analisar o conteúdo da dita denúncia, citemos as suas próprias palavras, mesmo que resumidamente:

O presidente d’A Voz do Operário é desde logo acusado de ser “um socialista (passe o eufemismo), sempre pronto a fazer a propaganda das suas ideias tolas”. E que, ainda por cima, “consegue convencer um número relativamente elevado de ignorantes”.

Mas o motivo da denúncia era que ele, “na última assembleia geral lançou esta interessante ideia: um grande almoço de homenagem a César Nogueira, colaborador de sempre do jornal da Voz do Operário e grande socialista”.

E, como se isto não fosse ‘delito’ suficiente, José Antunes “invocou como título de glória para o Sr. Nogueira, e mais uma razão para a homenagem, o facto de não haver um só dos seus lúcidos artigos que não tivesse sofrido o corte do lápis azul da censura”.

Pior ainda, projeta-se realizar o almoço “num dos primeiros dias de Maio. Talvez no 1º de Maio…”

Segundo a dita denúncia anónima, “tudo isto não passa de um pretexto para o sr. José Antunes reunir à sua volta umas centenas de amigos e admiradores, a quem no final das suas cartas deseja saúde e revolução social…”

Isto são “factos concretos, tendentes ao lançamento e desenvolvimento da má semente, sobretudo em espíritos incautos e incultos, como o de boa parte dos sócios da instituição”. Sem esquecer “as crianças das suas escolas (alguns milhares) que de algum modo hão-de sentir a influência das perniciosas ideias políticas e religiosas que norteiam os membros” da direção.

A denúncia chama a atenção do ministro, “pensando até no momento que se avizinha” – numa alusão às eleições presidenciais. E termina evocando “a égide e inspiração de Salazar”.

Fim de citação.

A demissão

José Antunes era um antigo sindicalista do tempo da 1ª República. Tinha colaborado no jornal A Batalha, órgão da Confederação Geral do Trabalho (CGT).

Ainda viria a ser presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses. E faria parte do grupo que, ao fim de décadas de luta, conseguiu legalizar a Associação Portuguesa de Esperanto, em 1972.

Mas naquela primavera de 1958? José Antunes viu-se forçado a sair da direção d’A Voz do Operário.

O jantar de homenagem a César Nogueira? Esse ficou adiado. Só pôde realizar-se mais de um ano depois, discretamente diluído num aniversário deste jornal. E quando Humberto Delgado já estava exilado no Brasil.

O veto

Antes deste episódio, A Voz do Operário tinha feito outra tentativa para homenagear César Nogueira.

A documentação não consta no ‘dossier’ referente a este jornal, no arquivo da “Direção dos Serviços de Censura”. Mas é possível reconstituir o caso com outras fontes.

Aconteceu em 1956. E José Antunes deixou o seu testemunho.

A direção d’A Voz do Operário quisera, “logo no início da sua gerência, prestar uma justa homenagem” a César Nogueira. E “decidira confiar-lhe o cargo de editor” do seu jornal.

Pelo que “foi levado o respectivo requerimento à aprovação das entidades competentes, tendo merecido deferimento, primeiro, e, mais tarde, sendo indeferido”.

José Antunes descreveu as suas diligências “para se repor o que acabava de ser negado”. Dirigiu-se pessoalmente à Comissão de Censura, “e aí lhe disseram que o sucedido não era da responsabilidade dessa repartição mas de outra instância” [ata da assembleia geral d’A Voz do Operário, 23/10/1956].

Ora, a outra “instância” que intervinha nestes casos era a PIDE, a polícia política. Como se pode verificar compulsando processos semelhantes.

Havia mesmo um formulário próprio para a Censura remeter a identificação das pessoas em causa. Com um espaço para a PIDE acrescentar a sua ‘informação’.

Nas nomeações aprovadas, era uso a PIDE ter carimbado isto:

“Nos registos desta Polícia nada consta”.

O caso “União Operária”

Num processo ‘indeferido’, encontramos esta anotação manuscrita, por parte da PIDE:

“Não oferece garantias de cooperar nos fins superiores do Estado”.

Foi o que sucedeu ao clube desportivo União Operária, de Santarém, quando quis publicar um boletim mensal, a distribuir entre os seus sócios, em 1960.

O nome proposto para diretor e editor até passou. Mas a PIDE pronunciou-se também sobre o presidente da direção, que tinha subscrito o requerimento do clube. E terá sido o bastante para essa publicação ser proibida!

O nome em questão era o do mecânico José Colaço, também presidente da Sociedade Recreativa Operária daquela cidade.

Amplitude da Censura

A estória do editor d’A Voz do Operário vetado pela PIDE é um exemplo de como a repressão da imprensa era mais profunda do que a simples censura prévia, a qual já cortava e apagava tantas notícias e artigos de opinião.

Com a ‘consultoria’ da PIDE, a Direção dos Serviços de Censura condicionava a escolha dos diretores e editores responsáveis pelas redações. E até controlava as gráficas onde os jornais eram impressos.

Memória incómoda?

Em 1956, quando A Voz do Operário escolheu César Nogueira para editor deste jornal, ele já estava com quase 80 anos de idade.

Aderira ao MUD, em 1945. Apoiara Norton de Matos, em 1949. Colaborava também na mais prestigiada imprensa democrática legal, como o jornal República e a revista Seara Nova.

Era um marxista e uma referência da oposição antifascista. Era até irmão de um ex-preso político. Mas expressava-se dentro da ‘legalidade’ permitida pela própria ditadura.

Tinha sido dirigente do antigo Partido Socialista Português, ainda com o líder histórico Azedo Gneco (falecido em 1911). E mantinha-se fiel às suas convicções.

Escrevia sobretudo sobre história. Apesar de limitado pela Censura, deixou um precioso contributo para a memória coletiva e o conhecimento acerca do antigo movimento operário português.

N’A Voz do Operário persistiu ativo nesse labor até falecer, já nonagenário – um ano antes do 25 de Abril.

Pelas provas deste jornal enviadas à Censura na década de 60, verifica-se que o ‘velho’ César Nogueira continuava a ser o colaborador mais cortado pela Censura…

Artigos Relacionados