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A paz que demora a chegar

Um acordo de cessar-fogo limitado e mínimo de 30 dias na Ucrânia foi alcançado entre a Rússia e os Estados Unidos contra a vontade de Kiev e de Bruxelas. A paz definitiva está ainda longe, enquanto as tropas de Moscovo avançam no Donbass e em Kursk, mas o respeito pela trégua alcançada pode vir a ser um bom sinal.

Num tom juvenil e ao bom estilo tiktoker, a comissária da União Europeia para a Igualdade e para a Gestão de Crises, Hadja Lahbib, publicou um vídeo nas redes sociais em que descreve o que deve ter um kit de emergência para a guerra. Entre risos, explicou o que cada cidadão deve ter consigo para sobreviver durante 72 horas sem ajuda. De tão inusitado, parecia o começo de um filme distópico. Em conjunto com a campanha pelo rearmamento da União Europeia, justificado pelos líderes políticos como resposta à “ameaça russa”, a estratégia do medo invade a comunicação de cada país para convencer as populações a aderir à histeria armamentista. No fim do mês de março, Luís Montenegro deu luz verde ao envio de uma tranche de 200 milhões de euros dos cofres portugueses para a Ucrânia. Este valor nada tem a ver com os anunciados 800 mil milhões de euros que Ursula Von der Leyen apontou como objetivo para rearmar a União Europeia.

Forçada a aceitar uma negociação de paz por imposição dos Estados Unidos, Bruxelas procura uma solução mais vantajosa para a Ucrânia, num cenário em que está arredada da mesa negocial. Está mais claro do que nunca que quem decide a posição da Ucrânia não é Kiev. É Washington a liderar as negociações com Moscovo. A Ucrânia, com o apoio da União Europeia e do Reino Unido, tinha proposto uma trégua nas hostilidades por ar e mar, precisamente os dois campos onde Kiev está em mais desvantagem. Washington corrigiu essa proposta e acrescentou uma paragem das hostilidades também em terra. Com vantagem no terreno, e em consequência com maior poder negocial, a Rússia prefere fazer arrastar as conversações e conseguiu uma trégua às infraestruturas energéticas e à navegação no Mar Negro.

História negocial com registo negativo

Se queremos analisar globalmente as movimentações diplomáticas devemos ter em conta as negociações anteriores. Em 2015, em Minsk, na Bielorrússia, os representantes da Rússia, Alemanha, França, Ucrânia, incluindo os líderes separatistas de Donetsk e Lugansk, assinaram um acordo de paz para pôr fim à guerra civil. Em 2018, os serviços secretos ucranianos assassinaram o presidente da auto-proclamada República Popular de Donetsk, Alexander Zakharchenko, membro da mesa negocial, e, anos mais tarde, já depois da intervenção russa na Ucrânia, Angela Merkel e François Hollande assumiram em público que só haviam assinado esse acordo para ganhar tempo e reforçar militarmente Kiev. Em 2022, representantes russos e ucranianos sentaram-se a negociar na fronteira bielorrussa poucos dias depois da entrada das tropas da Rússia na Ucrânia. Uma semana depois, um dos representantes ucranianos, Denys Kireyev, aparecia morto, executado por ser suspeito de estar a espiar para Moscovo. Só em meados de Março se vislumbra, finalmente, uma saída da guerra. Na Turquia, segundo Erdogan, a Ucrânia aceita abandonar a pretensão de entrar na NATO, a neutralidade, fazer do russo a segunda língua oficial do país e um período de 15 anos de diálogo sobre o estatuto da Crimeia. Os diálogos começam a encaminhar-se para um acordo. Nesse contexto, as tropas russas reduzem a sua actividade militar nas frentes de Kiev e de Chernigov. No dia 9 de Abril, Boris Johnson chega a Kiev e anuncia que não deve haver qualquer negociação com um “criminoso de guerra” como Putin. Naftali Bennett, então primeiro-ministro de Israel, e um dos principais impulsionadores das negociações, diria mais tarde que as duas partes estavam dispostas a alcançar um cessar-fogo e que o Ocidente empurrou a Ucrânia para a guerra.

Houve posteriormente um acordo mínimo para a exportação de cereais através do Mar Negro. Segundo o diário espanhol El País, as autoridades ucranianas assumiram agora ter sabotado essa trégua. Desde então, Volodymyr Zelensky recusou qualquer negociação fazendo, inclusive, chacota de países do Sul Global que tentaram, sem sucesso, sentar a Ucrânia e a Rússia na mesa das negociações. O presidente ucraniano chegou a assinar uma lei que proibia qualquer conversação com Vladimir Putin. A Rússia sugeriu várias vezes tréguas natalícias que foram sempre recusadas por Kiev sob o pretexto de que Moscovo queria obter algum tipo de vantagem. Putin acabou por ordenar o fim dos ataques de forma unilateral durante o período de natal, algo que nem sempre foi cumprido, mas que reduziu muito a intensidade dos combates e dos bombardeamentos.

Paz definitiva pode demorar

Fazer uma leitura dos próximos passos implica olhar para trás e perceber que, provavelmente, a Rússia fará tudo para não assinar um acordo que não tenha o objetivo de trazer o fim efetivo da guerra. A exigência de que o Ocidente pare de rearmar a Ucrânia durante uma trégua parece uma resposta àquilo que aconteceu durante os acordos de Minsk. Nesse sentido, enquanto os países europeus anunciam que estão dispostos a enviar tropas de manutenção de paz para a Ucrânia, Moscovo já disse que não aceita um único soldado de países da NATO no terreno. Se o Ocidente tem sido parte ativa nesta guerra, parece pouco provável que Vladimir Putin aceda a essa proposta. Militares de países neutrais, sobretudo do Sul Global, poderia ser uma hipótese. Por outro lado, a União Europeia está arredada das negociações. A derrota da estratégia militar e diplomática de Bruxelas e de Washington de Biden deixa pouca margem de manobra. E Zelensky continua a ser o fiel escudeiro dessa linha. Por isso, logo que puder, é provável que Trump se desfaça do até agora presidente da Ucrânia.

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