Palestina: a história repetida das injustiças
“Habibi Hussein” (“Querido Hussein”, na tradução literal) traça o percurso do último projeccionista do cinema Jenin, na Palestina. Hussein trabalhou durante 43 anos, e sonha voltar ao seu ofício. Uma ONG alemã consegue fundos para a reconstrução da sala. Aproveita-se dos conhecimentos únicos de Hussein ao nível da projecção de filmes em película. Essas “generosas pessoas” facilmente o descartam, quando já não precisam dos seus préstimos. A ironia é que os tempos foram mudando, e aquilo que foi reconstruído também desaparece.
O foco na Palestina esteve também num conjunto de obras raramente vistas, que colocam o dedo na ferida intolerável que continua aberta naquela região, sob o olhar cego de organizações e comunidade internacional. “Tall el Zaatar” é o único filme realizado sobre o massacre que aconteceu em Agosto de 1976 num campo de refugiados administrado pela ONU a nordeste de Beirute. Com imagens filmadas antes e depois do cerco, o documentário dá voz aos sobreviventes, escrevendo uma história de resistência popular.
A realizadora Monica Maurer, que descobriu e restaurou “Tall el Zaatar”, veio ainda apresentar uma trilogia de curtas-metragens que realizou nos anos 70. “Children of Palestina” retrata as consequências da guerra e da ocupação territorial no crescimento das crianças. É evidente o ataque perpetrado aos direitos fundamentais dos mais pequenos ao nível da nacionalidade, saúde, higiene, educação e do direito a brincar. Os dois outros filmes focam-se no esforço de um povo para sobreviver a um conflito bárbaro. A Sociedade do Crescente Vermelho tem um papel fundamental nesse reerguer constante, através da construção de hospitais e do apoio necessário e possível à população civil. As crianças continuam a ser a prioridade, já que até elas sofrem ferimentos irreversíveis.
Estas narrativas atrozes repetem-se diariamente na Palestina.
Os corajosos do cinema
Um festival serve para nos lembrar de artistas que podem estar esquecidos, neste caso na arte cinematográfica. Orson Welles, um colosso na sua juventude, sobretudo após a realização, em 1941, de “Citizen Kane” (em Portugal, “O mundo a seus pés”), teve uma carreira descendente. O documentário “Orson Welles: The One-Man Band” centra-se nos projectos inacabados do homem acusado de megalomania, e que foi muito mais que realizador. Welles era um narrador inigualável. Reinventava-se nas mais banais e emblemáticas personagens. Filmou-se no universo de Melville, Shakespeare, Cervantes. Além do cinema, dedicou-se à magia: um mestre da ilusão, num duplo sentido. Orson Welles percorreu com bravura um horizonte, que, como diz no filme, só alguns conseguem perscrutar. Morreu em 1985.
O cinema nunca mais foi o mesmo depois de Vittorio De Sica realizar, em 1948, “Ladrões de Bicicleta”. De repente, víamos uma Itália que não escondia a crueza com que a sociedade tratava os que buscam o sustento diário. O documentário “Vittorio De Sica – La vita in scena” traça o percurso daquele que começou como ator, e percebeu que tinha de passar para o outro lado da câmara, se queria contar as histórias dos desfavorecidos. De Sica era um diretor de atores genial, um homem com uma vida familiar dupla, um cineasta atento à humanidade de cada indivíduo. Descreveu como ninguém a solidão dos mais velhos, no estrondoso “Umberto D” (1952) e o desamparo dos que estão a entrar na vida, em “As crianças olham para nós” (1943).
Vale a pena descobrir ou rever os filmes destes dois cineastas.
