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“A nossa paixão não tem divisão”. A luta contra a mercantilização do futebol

Nas bancadas, continuam os cachecóis, as músicas e as ligações construídas durante décadas entre clubes e adeptos, mas, por detrás do jogo, cresce uma realidade diferente, com sociedades anónimas desportivas (SAD), fundos de investimento, grupos empresariais e redes internacionais de clubes que olham para o futebol como um ativo financeiro.

Na época 2025/26, 19 das 33 equipas das duas ligas profissionais portuguesas tinham acionistas estrangeiros nas respetivas sociedades desportivas, em 15 casos, esses investidores detinham a maior parte do capital. O fenómeno, que há pouco mais de uma década ainda era relativamente limitado, estendeu-se entretanto a clubes de diferentes dimensões e regiões.

O investimento não se concentra apenas nos chamados clubes grandes. O Moreirense, por exemplo, vendeu 70% da SAD ao fundo norte-americano Black Knight Football Club, proprietário do Bournemouth. No Rio Ave, 80% da SAD pertence à empresa do grego Evangelos Marinakis, dono também do Olympiacos e do Nottingham Forest. O grupo V Sports, proprietário do Aston Villa, tem uma participação no Vitória de Guimarães e a Qatar Sports Investments, dona do Paris Saint-Germain, detém uma fatia significativa do Sporting de Braga.

Esta é a lógica da multipropriedade, onde um mesmo investidor ou grupo passa a controlar ou participar em vários clubes, criando redes que atravessam fronteiras. Em Portugal, o Grupo Élite Gestión y Administración tornou-se, com a aquisição do Tondela, proprietário de clubes nas ligas profissionais de Portugal e Espanha, uma vez que já detinha parte do Racing Club Ferrol. E a tendência não ficou por aí, em julho de 2026, a Krause Group adquiriu uma participação maioritária no Casa Pia, passando a integrar o clube lisboeta numa plataforma internacional que inclui o Parma, de Itália, e o Des Moines Menace, dos Estados Unidos. Em agosto, um consórcio internacional que inclui antigos campeões do mundo como Thomas Müller, Mats Hummels e Lucas Hernández adquiriu 90% do Estrela da Amadora.

Para Luís Cristóvão, investigador e comentador desportivo, a questão fundamental não está apenas em saber quem coloca dinheiro. Está em perceber quem passa a decidir e em nome de quem.“Eu posso ser adepto de um clube, posso identificar-me com ele, tenho a minha história com ele, mas também tenho que ter noção de que esse clube é uma sociedade desportiva que pertence a um investidor e que toma decisões do ponto de vista dos interesses desse investidor e não do ponto de vista dos interesses da comunidade”, explica.

A transformação é particularmente visível na relação entre adeptos e clubes. O adepto que durante tantos anos foi sócio, participante e parte de uma comunidade passa a ser também consumidor. Bilhetes, camisolas, plataformas de transmissão, patrocínios e experiências VIP transformam a paixão numa sucessão de produtos. “Eu era sócio e adepto de um clube, e hoje em dia sou mais tratado como um cliente. E isso é bastante diferente”, prossegue Luís Cristóvão.

Em Portugal, esta transformação cruza-se ainda com um modelo de futebol profundamente dependente da venda de jogadores. As contas dos grandes demonstram-no já que na época 2024/25, o FC Porto obteve mais de 100 milhões de euros com vendas de jogadores, enquanto os resultados financeiros dos três grandes continuam fortemente ligados ao mercado de transferências.

Já a formação, que durante décadas esteve ligada às comunidades locais, também não escapa à lógica comercial. Para Luís Cristóvão, o que antes era uma porta aberta aos jovens da terra transformou-se progressivamente num negócio. “Historicamente, a formação dos clubes tinha uma forte presença de trabalho voluntário, de sócios do clube, de pessoas da comunidade. Toda essa estrutura de formação desportiva foi também ela monetizada.”

O resultado, diz ainda, é uma inversão de prioridades onde o negócio constante de compra e venda de jogadores “faz com que os jovens jogadores nunca tenham possibilidade de entrar no clube onde estão a ser formados.”

Não foi apenas a propriedade que mudou, mas  o espetáculo também é cada vez mais pensado para quem o consome à distância, tendo em conta que os horários dos jogos são definidos em função das transmissões televisivas, onde adeptos são forçados a deslocações em horas pouco convenientes. 

Até o VAR, apesar de Luís Cristóvão ser favorável à tecnologia, é apresentado como exemplo dessa mudança. “Se eu estiver no estádio, a utilização do VAR passa-me completamente ao lado. Não faço a mínima ideia do que está a ser observado, do que acontece. Só quem está em casa a ver televisão é que tem uma ideia do que está a acontecer.”

A centralidade económica do futebol produz um paradoxo onde o investimento pode trazer melhores jogadores, infraestruturas e capacidade competitiva, já que a própria Liga Portugal apresenta a entrada de capital estrangeiro como uma oportunidade para profissionalizar a gestão, melhorar o scouting e valorizar o talento produzido em Portugal, mas a mesma lógica pode afastar o clube da comunidade que lhe deu origem. “O negócio está dimensionado para a compra e venda de jogadores e não para a subsistência de um representante da tua comunidade de adeptos”, sublinha Luís Cristóvão.

O perigo está no sucesso desportivo passar a justificar tudo. Um clube pode ganhar mais, subir de divisão e chegar às competições europeias, mas, neste processo, tornar-se cada vez menos acessível aos seus próprios adeptos. “Aquilo que vemos é que o aparecimento dos resultados, das vitórias que levam as equipas a jogar numa divisão de elite e a ir a competições europeias, distancia-te completamente da tua vivência nessa equipa.”

Para Luís, porém, o futebol ainda não está totalmente perdido. A resistência pode estar precisamente fora da indústria, nos clubes populares, nas associações locais e nos torneios organizados pelas próprias comunidades. Dá o exemplo de um torneio popular de futsal recuperado este ano em Santa Cruz, depois de cerca de 15 anos sem se realizar, em que, durante uma semana, o recinto se encheu para ver amigos, vizinhos e conhecidos a jogar. “Vais ver pessoas que tu conheces a jogar e estás ali a conviver. Tens essa dimensão de lazer e de festa que, obviamente, no futebol profissional já não existe.” É aí que poderá estar uma das últimas fronteiras de um futebol que ainda não seja apenas negócio. Na possibilidade de jogar, assistir e participar sem que um gesto tenha de ser convertido em receita. Num país onde cada vez mais clubes entram em redes internacionais e onde investidores compram participação em vários emblemas, a pergunta deixa de ser apenas quem ganha o campeonato.

Claques contra as SAD

A perda de influência dos adeptos não acontece apenas quando um investidor passa a controlar a maioria do capital de uma SAD, mas a mudança é também sentida na relação quotidiana com o clube. João Sousa, ex-dirigente da claque Bracara Legion, que acompanha esta transformação no futebol há vários anos, considera que a entrada de acionistas maioritários marcou um ponto de viragem dos clubes. “Enquanto associações, deixam de mandar no futebol profissional e aí, sim, os adeptos perdem real influência e o futebol perde a sua democracia”.

A profissionalização da gestão, que inicialmente poderia ser vista como uma resposta aos problemas financeiros dos clubes, acabou por alterar a sua própria natureza e as suas bases sociais. “A financiarização do futebol e a mercantilização fez com que os clubes perdessem identidade e fez com que os adeptos perdessem o poder”, afirma.

Essa transformação é particularmente visível na forma como o adepto é encarado. De associado e participante nas decisões do clube, passou progressivamente a ser visto como fonte de receita. “O jogador é um ativo financeiro e o adepto é um gerador de receita. É alguém que existe para consumir, para comprar o lugar anual, para pagar a mensalidade, para comprar o merchandising”, resume João Sousa.

Este distanciamento não é apenas económico, também a dimensão humana foi-se perdendo. Treinos que antes eram espaços de contacto direto com jogadores e dirigentes tornaram-se momentos cada vez mais fechados e cada vez mais o futebol passou a ser acompanhado através dos ecrãs e redes sociais, enquanto o jogador se transformou numa figura distante. “Hoje, o jogador é quase uma figura mitológica, a quem só nos aproximamos para pedir uma selfie”, reflete o ex-dirigente.

Para o mesmo, esta mudança ameaça sobretudo os setores populares que historicamente deram vida às bancadas. O aumento dos preços, os custos associados a uma ida ao estádio e a própria forma como os adeptos são tratados contribuem para afastar famílias e comunidades. “A tendência é de um afastamento cada vez maior, que vai fazer com que as camadas populares das cidades se afastem dos estádios, e estes se tornem de clientes e turistas.”

David contra Golias. O caso do Belenenses

A batalha interna no Belenenses foi um dos exemplos mais paradigmáticos da mercantilização do futebol a reboque das SAD e a luta dos sócios derrotou o principal investidor mas atirou o clube para a última divisão do futebol amador. Em 2012, a Codecity, encabeçada por Rui Pedro Soares, adquiriu a maioria do capital social da SAD do clube fundado em 1919, abrindo uma batalha com os adeptos. Sócio do Clube de Futebol Os Belenenses, Edgar Macedo recorda que a abordagem inicial foi a habitual. “Na altura, já existia a figura do investidor e já se começava a falar de investidores no futebol, mas era uma coisa ainda relativamente nova, e a receita que cozinhou a entrada desse investidor foi um modus operandi que se verificou depois e que foi sendo aplicada de forma muito idêntica nos mais diversos emblemas”, descreve. “Há um clube que está vulnerável do ponto de vista financeiro e do ponto de vista competitivo. Surge um investidor com muitas promessas, com um discurso que apesar de muito simples consegue tocar os adeptos, porque refere que se não é sócio vai meter-se sócio no dia seguinte, e que apaixonou-se ou pelo estádio, ou pelo emblema, ou pelo símbolo, ou pela história, e facilmente lhe é estendida uma passadeira vermelha para entrar na sociedade desportiva de um clube”. 

Foi o caso do Belenenses e de tantos outros. Edgar Macedo recorda que houve uma espécie de “lua de mel” até que “inevitavelmente” começaram a surgir os choques com a dimensão associativa do clube. O primeiro caso foi logo em 2014 com a equipa técnica a deixar de fora de um jogo com o Benfica dois dos principais jogadores do Belenenses. O escândalo obrigou a direção do clube a reconhecer que não sabia das decisões tomadas pela SAD e que a figura do administrador do clube na estrutura da SAD não tinha qualquer peso.

Apesar dos êxitos desportivos, com o Belenenses a participar nas competições europeias, a revolta dos sócios crescia com diferentes episódios em que a Codecity virava costas ao clube nas suas escolhas relativas ao futebol profissional. Até que a situação se tornou irreversível. Mandatado pelos sócios, a direção do clube rompeu com a SAD. “Aconteceu aquilo que eu não vou dizer que é único no mundo, porque certamente já poderão ter existido casos iguais, mas é muito pouco comum, que é não existir uma situação de um clube que faliu e vai começar de novo, mas de um clube que está na primeira divisão e os sócios escolhem ir para a última divisão distrital. Preferem ir para a última divisão distrital do que estar na primeira divisão amarrado sob aquela estrutura e dá para perceber quão longe foram os limites da paciência”.

A partir da última divisão, o Belenenses subiu a pulso com o apoio dos sócios naquilo que Edgar Macedo chama “renascimento”. “Quando ouves aquelas ideias de que é preciso investir no marketing, na comunicação, é preciso vir uma empresa, na verdade, o que eu assisti foi verdadeiramente àquela ideia do ‘façamos por nossas mãos o que a nós diz respeito’”. O cântico “a nossa paixão não tem divisão” passou a ecoar por todos os estádios por onde passou o clube. “É uma frase que só consegue ser criada pelos adeptos porque é algo que vem do sentimento dos adeptos. Pessoas que não iam ao Estádio do Restelo há anos voltaram, pessoas que não eram sequer do eolenenses juntaram-se em nome de uma ideia e, no fundo, isto vai tudo desaguar naquela ideia do que é a essência de um clube. O que é de facto um clube? Porque tu podes ter muito dinheiro e teres uma equipa de futebol e a equipa de futebol até ter sucesso e estar na primeira divisão, mas não tens um clube porque não tens os adeptos”, defende. “O que eu vi ali, durante aqueles anos, foi a demonstração cabal de que outro futebol existe, outro futebol é possível e só depende de nós torná-lo uma realidade”.

Edgar Macedo defende o fim da obrigatoriedade de ter de se constituir enquanto sociedade desportiva para competir numa competição profissional. “O que acontece em Portugal é bizarro. Tu podes ser uma associação desportiva sem fins lucrativos, com imenso sucesso, vais desde a última distrital até à Liga 3 a ganhar os jogos todos, com os estádios cheios, só com vitórias, mas depois sobes à Liga 2 e dizem que, mas para competir ali, tens de ser uma sociedade desportiva, tens de ser uma empresa”. Por isso, é um dos muitos adeptos que consideram que esta é uma interferência no livre associativismo. “Porque um clube é uma associação desportiva, vive dos seus sócios, não tem fins lucrativos, tem mérito desportivo, mas não pode competir numa competição profissional. Isto é inaceitável”.

O descrédito da FIFA

Em dezembro de 2025, o mundo olhou com assombro para a criação e atribuição, por parte de Gianni Infantino, presidente da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), do Prémio da Paz entregue em mãos a Donald Trump. A relação do líder da FIFA com o presidente dos Estados Unidos foi novamente contestada durante o Mundial realizado nos países da América do Norte quando o próprio Trump admitiu publicamente ter pressionado a organização a retirar um cartão vermelho ao avançado norte-americano Folarin Balogun, o que a FIFA acabou por fazer. Depois de o maior evento de futebol do mundo ter acabado, descobriu-se que Infantino tentara criar uma empresa subsidiária da federação chamada FIFA Forward Enterprise, com o objetivo de distribuir a organização e os direitos dos grandes campeonatos para as mãos de investidores privados. Entre os potenciais investidores estavam Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump.

Para Irlan Simões, autor do livro “A produção do Clube: Poder, Negócio e Comunidade no Futebol”, o futebol “sempre foi colonizado por interesses”. Contudo, dá-se uma viragem a partir dos anos 70 e 80. O colunista dos meios brasileiros Redação Sportv e GloboEsporte.com explica que vivemos tempos “preocupantes”. Muitos elementos do que se entende por futebol “são descartados e colocados em segundo plano para favorecer interesses económicos”, defende. “Um exemplo muito forte para ilustrar essas transformações é o caso da pausa de hidratação na Copa do Mundo. Acho que é uma ilustração perfeita de como esses interesses económicos podem alterar a própria essência do jogo. Criou-se um intervalo no meio do primeiro tempo e do segundo tempo com um argumento patético, mas com um interesse por trás muito grande: a venda de maiores pacotes publicitários, isso está muito óbvio”. O também adepto do Esporte Clube Vitória explica que apesar de tudo há uma tradição mais democrática em países como Portugal, Argentina e Alemanha, onde há “uma participação muito mais ampla” do que no Brasil. A fraca participação dos sócios no Brasil fez com que a resistência às SAP (sigla alemã para Sistemas, Aplicações e Produtos no Processamento de Dados), as SAD brasileiras, fosse “muito baixa”. Para além disso, critica o facto de haver jogadores com mais dinheiro que alguns clubes porque isso gera “muitas contradições”. “Há jogadores hoje que se acham mais importantes que o próprio futebol”, alerta.

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