A colectânea de contos de MF sobre Lisboa e a sua estrutura social, constitui-se exercício propício à análise sociopolítica da cidade e da sua componente humana, sobre a população migrante, ou seja, aqueles que, vindos do país das leiras magras, da sardinha para três, da malga de couves, ou da açorda de alhos, sonhavam encontrar na urbe o improvável Eldorado, tal como Manuel da Bouça, personagem de Emigrantes, de Ferreira de Castro.
Saído do Alentejo, espaço mítico e referencial da sua escrita – de Cerromaior, Aldeia Nova, O Fogo e as Cinzas – Manuel da Fonseca parte à aventura pelo corpo complexo da cidade grande, descobrindo-lhe e desnudando os seus subterrâneos húmus, como acontece na crónica O Vagabundo na Cidade, de Fevereiro de 1968, publicada no República, que a Censura amputou:
«Falar sozinho. Ir pela rua falando com ninguém e com todos. Fazer parte do mundo, chamar o mundo para a vida. Dizer-lhe as palavras próprias. As palavras precisas. Certas, esclarecedoras. Únicas.», dizer-lhe, afirmo eu, as suas leis rapaces de sobrevivência, sua usura, sua sinistra forma de nos tornar mais pequenos.
É da opressão percepcionável na cidade, a par da urgência de resistir, de dizer as palavras precisas, esclarecedoras, que Fonseca nos fala. É de esse deambular pela cidade, perscrutando seus abismos e feridas, que o autor descreve em 7 contos sinfónicos (e digo sinfónicos porque esta escrita alarga os territórios da língua; inaugura uma outra forma de dizer; é fala polifónica, de cambiantes metafóricos e metonímicos múltiplos, onde o riso e a dor, a sátira e a argúcia crítica se interpenetram em expressiva simbiose), neste livro pícaro e cruel, belo e raro que é Um Anjo No Trapézio.
Nesta série de contos, Manuel da Fonseca renova a sua «arte de contar» e deixa, pelo espaço de um livro, «o largo, que era o centro do mundo», os ambientes das feiras, das tabernas onde a voz dos homens cantava o desespero mordido de uma vida à míngua mas temperada pela dignidade de a viver de pé, de navalhas em riste dominando ventos agrestes, das suas memórias de infância, ardentes e sofridas, para penetrar a mãos ambas, calejadas pelas tempestades da sorte e do azar, o lodo que percorre as margens de Lisboa, desejando que o rio grande (as multidões tornadas rio), libertem a cidade da ignomínia que a oprime: «Tejo que levas as águas/correndo de par em par/lava a cidade de mágoas/leva as mágoas para o mar».
Com esse olhar atento e inquiridor de sombras, viajamos a cidade, sabendo-o ora magoado, ora descobrindo-lhe o pícaro por onde subtis traços de tragédia oculta se insinuam, num universo de corpos que se vendem por uma côdea de vida: «Pelo menos, agora vai com quem lhe apetece, e o dinheiro é para ela. Anda bem vestida, tem casa e mesa certa. Pode até ser que encontre um homem que a estime» e, noutra passagem do conto que dá título à colectânea, diz Lídia, um dos “anjos no trapézio”; «O Luís, esse lá vem trazendo a féria, a feriazita, ao sábado. Coitado, está de aprendiz numa oficina de automóveis. […] Encontrei-o numa aldeia, perto de Bragança. Andámos por aí com o circo. O Luís fazia-nos recados e, depois, a mãe deixou-o vir connosco. Ao menos sempre come todos os dias». Vidas pequenas, o dinheiro contado para a renda de um pequeno apartamento na Morais Soares, para a comida, um vestido, um uísque barato para entreter “os clientes”, entre fotos de jovens raparigas. Acontece o vazio, este abandono existencial, onde as penumbras estuam, esses labirintos brumosos da casa de Lídia e Noémia.
No final do conto, ou novela curta, Vasco, ao sair de madrugada da casa de Lídia, ou de Miss Bela, nome de combate, depara-se espantado, ele que habita nos casulos de prebendas espalhados pela cidade, na Lapa, no Restelo, nas Avenidas Novas, com o estranho mundo da cidade que desperta para o trabalho a tão matinal hora, descobrindo a fauna lúgubre de uma outra cidade, que ele ignorava: «Fazia escuro, os candeeiros ainda estavam acesos, e os passeios cheios de homens, de mulheres e de crianças. Todos transportavam lancheiras ou pastas, com o almoço dentro, e uma maioria envergava casacos sobre os fatos de ganga. Vasco deu por ele a tentar adivinhar-lhes a vida. A fábrica, o escritório, a loja onde trabalhavam, a casa onde residiam, a família que tinham. Era como se os visse pela primeira vez. Na praça do Chile, atulhada de eléctricos e de autocarros, que a multidão assaltava, decidiu continuar a pé. Pensava em vidas incertas, desamparadas.»
No conto O Meu Amigo Espinha, a fala de Manuel da Fonseca exibe um registo mais solto, eivado de subtil humor que o autor utiliza para penetrar os subterrâneos da sobrevivência de uma cidade onde «morremos de uma lepra confusa e desigual», vigiada e de esperança minguada como era a Lisboa dos anos 1960.
A Luva, segue o mesmo registo irónico sobre o real, estua na linguagem poética, de que fala Todorov, transportando-nos pelos territórios do discurso intimista do cronista deambulando pela cidade salazarenta, refletindo sobre as cicatrizes que ela esconde, entre a dor dos que têm sonos sem esperança e o ressonado dos fartos: «Perdi-me por ruas, praças, e dei por mim, perto do Saldanha, a acender o último cigarro. Fantasmagóricos, os candeeiros surgiam com a alta auréola difusa, baça, sumiam-se. Pressentia-se no negrume o latejar silencioso da dor e da vigília, a inquietação do sono sem esperança, o grande abandono ressonado dos fartos. Sobre eles, sobre mim, um perigo iminente crescia. A vida e a morte jogavam às escondidas dentro do nevoeiro e da noite, pelas ruas da cidade.»
Lisboa e as margens que a habitam, os cafés, os lupanares, os engates esquivos, a noite inquieta da cidade, seduzem o olhar do poeta de Rosa dos Ventos. Essa argamassa que urde as palavras urgentes, passa indemne para as páginas deste livro com o qual, o autor, redefine os arquétipos para nos contar, não já a exploração dos trabalhadores nos campos alentejanos, ou a humilhação nas praças de jorna, mas as vidas agrilhoadas, a angústia e o medo, os silêncios mordidos que pulsam, entre as paredes dos prédios da cidade.
Grande parte dos que ainda hoje habitam a cidade, continuam a ter vidas assim.
Um Anjo no Trapézio, de Manuel da Fonseca – Editora Caminho.
