Como começaste o teu percurso na música?
Acho que isso é quase um clichê. Eu não encontrei a música, a música não me encontrou, acabou por ser uma cena bem natural, porque a música é, por excelência, um ótimo veículo para transmitirmos, comunicarmos. Até uma certa idade, eu tive sempre muita dificuldade para comunicar. Conhecendo a música, o primeiro contacto nunca foi pensar num “queres ser isto ou queres ser aquilo”. É um abraço terapêutico. Encontrei na música uma forma onde eu me sentia muito mais à vontade em comunicar-me, expressar as minhas ideias e fazê-las com o sentimento que hoje sinto. O rap para mim foi bem natural, porque foi uma cena que casou com outra. Só muito mais à frente é que ganhou essa dimensão na minha vida, enquanto artista.
Quais foram as tuas maiores referências?
É um conjunto de vários fatores. O meu primeiro contacto com o rap foi enquanto ouvinte. O meu primeiro amor com a música não foi o rap, foi o reggae. Era um fanático do reggae, as paredes do meu quarto eram todas forradas com cenas do Bob Marley. Depois, quando comecei a aprofundar o meu conhecimento sobre o reggae e o movimento Rastafari, percebi que, embora gostasse bué daquilo, não era a minha cena. Depois conheci o rap e pessoas como o Mangá, que me apresentou o funk, o Buts, que foi um dos primeiros rappers com quem trabalhei. O Buts acabou por me ensinar bases que não têm muito a ver com a música, mas com a tua ética, enquanto valores, o respeito que nós devemos ter pelo movimento.
Nunca mais me esqueço de um episódio. Estávamos a gravar um som e eu estava a comer uma sandes enquanto esperava pela minha vez. O Buts parou a gravação e deu-me uma desanca enorme sobre ética, justiça e respeito que nós deveríamos ter para o microfone e para aquilo que queremos dizer às pessoas. Na altura foi uma lição, mas anos mais tarde comecei a perceber o peso que aquilo teve.
O Editox, o Moreno, foram pessoas que fizeram muita diferença na minha caminhada. Depois, claro, o Pac, o Eazy e o pessoal das antigas. Acho que isso tudo veio a dar o Ghoya que eu sou hoje.
Que conselho dás a quem quer começar a fazer rap e não tem recursos?
Hoje temos uma maior independência para produzir a nossa própria música. Mas o maior problema tem sido estrutural. Falta uma estrutura que leve os artistas para os palcos, para os festivais, que trate de uma boa produção, de uma boa comunicação e de um bom marketing.
Hoje há muito talento. As dificuldades para produzir já não são tantas como antigamente. Mas as dificuldades para construir uma estrutura que permita ter uma plataforma de trabalho continuam a ser muito grandes. Eu ouço colegas que felizmente já conseguem viver da música, mas a grande maioria somos apenas produto da nossa própria mão, porque não conseguimos furar essa bolha.
Temos muitos manos cheios de talento que não conseguem ser donos do seu próprio trabalho. O movimento carece muito dessa estrutura profissional, uma estrutura que ajude os nossos artistas a catapultarem-se de forma sólida, para que possam viver da sua arte. A música gera trabalho, gera empregos. Um rapper que consiga crescer cria uma equipa inteira à sua volta. Imagina isso multiplicado pelos muitos jovens talentosos que existem nas comunidades.
As grandes empresas sabem disso e acabam por individualizar um movimento que sempre se regeu pelo coletivo. Conseguem fazer isso pela sede de glória, pela sede da carreira, pelos números. Nós próprios acabamos por nos deixar corromper.
Porque escolheste rimar sempre em crioulo?
Eu sempre rimei em crioulo. Nem é tanto por facilidade, mas sim por naturalidade. Vais só em crioulo, sentes em crioulo.
A minha vida toda teve essa dualidade. Tenho a cultura cabo-verdiana e tenho também a cultura daqui, dos sítios onde cresci. E as duas não têm dese anular. As duas têm de aprender a coexistir.
Ao longo da minha carreira, as críticas mais frequentes vinham dos próprios manos da comunidade: ‘Tu és bom, mas se cantasses em português ias chegar a mais pessoas’. Depois os portugueses diziam: ‘Nós gostamos, mas não percebemos tudo’. Eu perguntava sempre porque é que as duas coisas não podem coexistir.
Eu acredito na mistura de culturas. A cultura não é uma poça parada. É um rio onde a água está sempre a correr e a misturar-se. O crioulo é uma ótima ferramenta para construir pontes, porque a comunicação aproxima as pessoas.
O rap continua a ter obrigação de intervir socialmente?
Sem dúvida. Acho que a arte, a cultura em si, muito para além do rap, sempre esteve ao serviço das causas de libertação, das causas de emancipação. Eu percebo pouco a forma como a arte se está a desligar disso. Pior ainda, como a arte não se importa de se desligar.
Sou um artista do povo. E eu, enquanto artista do povo, acredito que o meu compromisso é com o povo. Eu quero ver o povo e quero que o povo me veja nos olhos, no mesmo nível. Porque eu quero me comunicar contigo. Eu sou igual a ti e quero que tu sintas isso.
Quando nós abraçamos a cultura do endeusamento artístico, isso envenena-nos ao ponto de nós querermos ver o povo que nós representamos de cima para baixo. E eles vêem-nos de baixo para cima, como se nós fôssemos deuses. A arte pode ser amor, pode ser alegria, pode ser muita coisa. Mas essa característica de militância, de luta, tem de estar sempre lá.
O rap tornou-se um grande negócio. Nesse grande negócio há muita gente que está disposta a tudo, até às justificações para legitimar aquilo que não faz. Hoje há mais desculpas para não sermos interventivos do que propriamente razões para o sermos, quando eu acho exatamente o contrário.
O caso de Odair Moniz voltou a colocar em debate a violência policial e o racismo institucional. Que leitura fazes desse caso?
O caso do Odair gerou muitos raps. Assim como outros casos. Mas nós, enquanto rappers, temos uma responsabilidade muito maior do que apenas instrumentalizar essas verdades e refletir isso nas nossas músicas.
A maioria da malta que consome o nosso trabalho, que vai aos nossos concertos e que nós dizemos representar nas nossas músicas, são pessoas como o Odair. São os vizinhos do Odair. São os nossos amigos lá do bairro. Qualquer um deles amanhã pode ser outro Odair.
Não pode ser só uma questão de números. Não pode ser só uma questão de instrumentalização de uma narrativa. É preciso materializar essa indignação em ações que não se afunilem somente nas nossas carreiras enquanto artistas. Os números são importantes, a carreira também é importante, mas é importante termos esse posicionamento, porque não ter posicionamento já é posicionamento.
Muitas vezes é mais fácil vermos o erro de fora para dentro do que de dentro para fora. Existem muitos erros dentro do próprio movimento que nós precisamos melhorar. Não fazer nada é que não dá nada.
O que sentes quando olhas para a resposta da Justiça neste caso?
Nós temos na nossa comunidade o Tribunal de Sintra, que condenou o agente Bruno Pinto a três anos de pena suspensa pelo assassinato do Odair Moniz. É o mesmo tribunal que mais manda os nossos putos para a cadeia. A maioria de nós pisámos naquele tribunal ainda com 16, 17 ou 18 anos e saímos de lá com 30 ou 40.
Esse mesmo tribunal, que é rigoroso a mandar os nossos putos para a cadeia por coisas muito menos graves, normaliza uma situação destas. Estamos a falar da adulteração da cena do crime, da ocultação de provas. Um agente da autoridade, em quem nós depositamos confiança e poder, não pode traduzir essa confiança em adulteração da cena do crime ou falsificação de relatórios.
As comunidades também precisam da polícia. Mas, acima de tudo, precisamos de uma polícia que seja imparcial em questões cívicas e super comprometida com a lei. Só assim as comunidades vão voltar a confiar nas instituições.
Porque todos sabemos que, se o Odair fosse outra pessoa, que não fosse um homem preto das comunidades empobrecidas do nosso país, o desfecho desse caso seria outro.
Manténs esperança de que as coisas possam mudar?
Se eu não tivesse esperança, não fazia nada do que faço. Porque acredito que, para a gente continuar a lutar, tem que haver esperança. Senão é uma luta vazia.
Enquanto a convicção for mais forte do que a minha força física, eu não vou parar. Eu só espero que a malta interiorize, de uma forma profunda, que nós estamos a lutar por uma mudança que muito provavelmente nós não haveremos de ver.
Todas as mudanças que nós conseguirmos testemunhar enquanto estivermos vivos devemos festejá-las com todas as nossas forças. Mas, enquanto a mudança definitiva não acontecer, continuar a lutar. Continuar a prevalecer, ainda que estejamos cansados. Não fazer nada é que não muda absolutamente nada.
