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Greve geral: uma lição de dignidade contra o governo dos patrões

Enquanto o governo empurra o país para o pântano anti-democrático a reboque da extrema-direita, os trabalhadores pararam o país numa demonstração de força contra a proposta de reforma da legislação laboral. De norte a sul, fez-se sentir a indignação com a prepotência e arrogância de Luís Montenegro e a certeza de que a luta não vai ficar por aqui.

Apesar dos dias já saberem a verão, a segunda greve geral contra a proposta de reforma liberal apresentada pelo governo liderado por Luís Montenegro começou numa noite fria. Perto da entrada do estaleiro municipal da Amadora, ouve-se o crepitar da madeira entre a algaravia das duas dezenas de trabalhadores que ali se concentram. Cidália Leitão explica que decidiram aderir, uma vez mais, em peso à paralisação porque estão contra o Pacote Laboral. Hoje, os filhos e netos decidiram acompanhá-la. “Quero mais bem estar familiar porque acabo por não ter horas para estar com os meus. Também os meus filhos trabalham e juntos vamos derrotar o Pacote Laboral”, assegura. De acordo com a CGTP-IN, os trabalhadores conseguiram paralisar completamente a atividade deste local de trabalho no turno noturno.

Depois de acordar no dia anterior uma revisão constitucional com o Chega, com vários especialistas a abrirem a hipótese de ser a moeda de troca para uma eventual viabilização do Pacote Laboral por parte dos deputados de extrema-direita, o governo decidiu uma nova provocação para a manhã da greve geral. Agendou para 18 de junho, através do CDS-PP, com o apoio do Chega na conferência de líderes na Asssembleia da República, a sessão parlamentar sobre o diploma do Pacote Laboral, com um detalhe. Tentou fazê-lo com um debate limitado a 37 minutos, o limite mínimo possível para os debates na Assembleia da República.

Nessa mesma manhã, o governo tratou de tentar massificar a sua versão dos factos. Socorrendo-se a dados apresentados pelos patrões, o objetivo era usar televisões, rádios e jornais ao seu alcance para consolidar a ideia de que a greve estava a ser um fracasso. Entre os discursos dos membros do executivo e dos representantes dos grandes grupos económicos e aquilo que se via nas ruas pareciam duas realidades inconciliáveis.

Ao Público, Gonçalo Lobo Xavier, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, afirmava que “não há nenhuma loja fechada” e que apenas “algumas dezenas de trabalhadores do setor”, dos 150 mil, estavam em greve. Contudo, são muitos os casos de supermercados fechados por todo o país como aconteceu na Amadora, Torres Novas e Alcochete, entre outros concelhos.

Se nas grandes cidades parecia domingo, nos subúrbios também. Estacionamentos que costumavam estar vazios durante o dia, estavam cheios. Por todo o lado, jardins de infância, escolas e tribunais fechados, hospitais apenas com os serviços mínimos, museus encerrados. Grandes empresas tiveram de parar a produção por todo o país. Já a ministra do Trabalho, Palma Ramalho, garantia que a paralisação era “residual” no setor privado. Um repórter da CNN, canal que em conjunto com a TVI tentou contratar ilegalmente três repórteres de imagem para substituir trabalhadores em greve, atravessava a Ponte 25 de Abril em direto e tentava convencer os telespectadores que o trânsito fluído àquela hora da manhã era normal. Tão “normal” como 90% dos repórteres de imagem deste órgão de comunicação social terem decidido fazer greve, assim como todos os jornalistas sem funções de editoria nas secções de economia, política, internacional e sociedade.

Por sua vez, o serviço da agência Lusa, que alimenta a maior parte das redações, parou por completo. Na RTP, as secções de política, cultura e online amanheceram sem jornalistas e apenas um repórter de imagem apareceu em Lisboa, Faro e Coimbra.

Quem andasse de carro pelas ruas, via um país completamente diferente. Não só por haver menos trânsito mas também porque, desde logo, ao sintonizar a Antena 1 ou a Antena 3, percebia que as duas emissoras só passavam música. À Voz do Operário, Luís Peixoto, jornalista da Antena 1, uma das vozes que nos dá as notícias diariamente, referiu que ninguém compareceu ao turno da madrugada e que entre as 11 da manhã e as três da tarde não houve quaisquer noticiários, com programas a terem de ser cancelados. A trabalhar a partir do Porto, este trabalhador denunciou que, uma vez mais, a RTP recorreu a técnicos de empresas de outsourcing para substituir trabalhadores da empresa. A trabalhar na empresa pública desde 2017 considerou que “aquilo que está em cima da mesa é demasiado perigoso” e que “diz respeito a toda a gente independentemente de estarmos a falar do setor público ou privado”. Nesse sentido, recordou que fica em perigo o direito à greve e que, “naturalmente”, não podia aceitar uma situação destas. “É preciso dar uma resposta firme antes das coisas virem a estar em vigor. É preciso perceber isso. É preciso perceber que é preciso agir antes de sofrer na pele para que não se sofra na pele”. Para além de estar solidário com todos os outros trabalhadores que também abdicaram do seu dia de salário, “muitos deles com muita dificuldade e muito custo”, considerou que estas alterações à legislação laboral afetariam a própria democracia portuguesa. “Trata-se de um ataque à democracia, de um ataque ao Estado de Direito, ao Estado social. E, por outro lado, há aqui um elemento que eu penso que é facilmente identificável, que tem a ver com a perseguição que este governo está a fazer aos pobres e aos trabalhadores e isso vê-se, por exemplo, com estas alterações à prestação social única, à questão do trabalho social. Ou seja, nenhuma destas medidas deve ser vista de forma isolada, deve ser encarada como um programa que este governo está a levar a cabo em defesa de quem já tem muito, em defesa dos grandes empresários, contra a maioria da população”.

A tarde em que a Greve Geral desceu à rua

Eram três da tarde e já muitos trabalhadores em greve se concentravam no Rossio. O clima era de luta, mas também de festa. Todos tinham a certeza de que esta greve geral tinha superado a greve geral de dezembro do ano passado, “apesar desta ter sido só convocada pela CGTP”, diz-nos Nuno Joaquim do STAD (Sindicato dos trabalhadores da Limpeza, Vigilância, porteiros e outros serviços). Nuno faz vigilância na Câmara de Lisboa e refere que o seu setor de trabalho é muito afetado com este pacote laboral”. “Bastante”, diz-nos. Sobretudo no que respeita ao banco de horas, “porque a grande maioria dos serviços são trabalho contínuo,” ou seja, se o pacote avançasse os trabalhadores do setor iriam ser “sujeitos ao prolongamento dos horários de trabalho e não seriam remunerados por isso”. Nuno Joaquim garante que se o diploma fosse aprovado, os trabalhadores como recebem os subsídios de alimentação por cada dia efetivo de trabalho, “nos dias em que em que ficarmos em casa por vontade do patrão, não recebemos alimentação”. Isto é, acrescenta, “passam os, trabalhadores a pagar para trabalhar, quando deveria ser o contrário”.

Logo à saída do desfile cruzamo-nos com José Manuel Oliveira, dirigente da Fectrans que nos fez ali, rapidamente o balanço da greve no setor dos transportes. “Nos transportes há uma adesão muito significativa, em alguns casos superior àquilo que foi a adesão na greve geral em dezembro. Temos a CP reduzida àquilo que são os serviços mínimos, as adesões na CP estão na ordem dos 90%, o metro está encerrado, a Carris apenas com serviços mínimos. Nas oficinas a adesão à greve está na ordem dos 85%, na Transtejo circularam 3 barcos durante a manhã, mas há também uma forte adesão. No setor aéreo, em Lisboa, há uma supressão de cerca de 65% dos voos, no transporte rodoviário, há uma forte adesão na parte sul, e na parte norte, temos adesões superiores à greve do dia 11 de dezembro. Ao nível das empresas do interior do país chegamos a adesões desde os 70% até aos 100%, no setor rodoviário e de passageiros, pensamos que efetivamente é uma adesão muito significativa”.

O desfile tinha arrancado e aquela ponta da manifestação já dobrara a rua Garret a caminho do Largo de Camões, quando falamos com Carla Rosado do Sindicato do setor elétrico. Carla trabalha num call-center da EDP. Carla diz-nos que tem razões muito fortes para ali estar: “Não podemos trabalhar mais do que aquelas duas horas que já nos exigem sem serem pagas. E também não podemos deixar que os patrões nos despeçam sem justa causa e sem direito. E, depois, mesmo que tenhamos razão, não podermos voltar ao trabalho”. Mas há uma outra razão que a levou a fazer greve e ali estar no desfile decidida contra o pacote laboral: “Não podemos ter salários baixos”. Qual é a média de salários no callcenter, perguntamos? “A média de salário nesse Callcenter é de 850 e oito horas de trabalho diário”.

E qual foi a adesão à greve no local de trabalho? “Foi muito grande. Pena foi que não viessem todos à manifestação, mas foi maior do que a greve anterior. Fomos mais, muitos mais”, garante.

A manifestação vai engrossando à medida que se aproxima do destino que é a Assembleia da República. Muitas das pessoas que estão nos passeios estão à espera de encontrar camaradas de trabalho, ou o sindicato ao qual pertencem.

Estamos já a descer a Calçada do Combro quando falamos com Mariana. Leva uma bandeira do Sindicato dos Psicólogos. Mariana explica-nos que os psicólogos trabalham em áreas diferentes, nas escolas, na saúde. Mariana trabalha no setor social, concretamente numa casa de acolhimento. “Os psicólogos clínicos, e mesmo noutras áreas, são trabalhadores precários e não queremos que essa situação se perpetue. Não queremos que essa precarização se perpetue e reflita nas pessoas que nós cuidamos”.

Outra das razões que leva os psicólogos a chumbar este pacote laboral tem a ver com “os níveis de exaustão dos psicólogos e a desvalorização que temos sofrido. Este pacote laboral promove a exaustão dos trabalhadores e não somos valorizados, não temos carreiras em lado nenhum, os nossos direitos não são reconhecidos e, portanto queremos poder trabalhar com condições dignas e este pacote laboral faz com que as nossas condições de trabalho que já não são boas andem ainda mais para trás”.

Estamos quase a chegar a S. Bento e a cauda da manifestação ainda não saiu do Chiado. A mancha de manifestantes percorre toda a calçada do combro estende-se pelo Largo Camões e ainda há gente a passar em frente ao Café Brasileira. Sónia Pires é professora no Seixal e vem no grupo do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa. “A minha escola fechou”, diz-nos. Para a Sónia há “várias razões muito fortes para fazer esta greve. Em primeiro lugar nem estamos sequer a lutar por novos direitos, estamos a lutar por manter os poucos que já temos. Seja no acesso à educação, seja no salário, seja na carreira”.

O largo defronte à escadaria da Assembleia da República era já pequeno para tanta gente que ali se ia concentrando. Mas muita mais gente, em todo o país, já havia manifestado de forma ainda mais expressiva do que em Dezembro, o repúdio por este Pacote Laboral da lavra deste Governo mas com o apoio de toda a direita (incluído o Chega e Iniciativa Liberal).

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