Nos últimos séculos, no contexto do capitalismo, estas dinâmicas têm assumido expressões particularmente violentas, que produzem e reproduzem realidades, concepções, formas de estar, com as consequências que vemos: sobre-exploração no mundo laboral (menor salário, menor possibilidade de progressão, menos acesso a lugares de topo/mais bem remunerados), maior sobrecarga nas dinâmicas familiares e domésticas, maior vulnerabilidade a catástrofes naturais e guerras.
A luta das mulheres — que tem no dia 8 de Março o seu marco anual internacional — não é, em si, consensual. Ignorando concepções retrógradas que se têm vulgarizado, procurando ridicularizar e invalidar a relevância desta causa, o que é facto é que os próprios campos que assumem a sua validade não o fazem com os mesmos significados e sentidos. Há uma disputa — na qual importa cada vez mais ocupar um lugar — que projecta horizontes de transformação muito distintos, muitos deles antagónicos. Importa dizer, por exemplo, que qualquer ideia minimamente consequente de progresso precisa de recusar lógicas liberais de emancipação, onde a “igualdade” da mulher não mais pretende do que significar a liberdade desta para assumir lugares no topo da cadeia da opressão, como se a emancipação se garantisse ao criar o feminino de todas as categorias sociais (passarmos a ter exploradores e exploradoras). E enquanto este for, no essencial, o quadro que nos serve para perspectivar conquistas, a ideia de libertação de todas — e todos — estará, inevitavelmente, condenada, porque haverá sempre necessidade de vulnerabilizar uma parte do colectivo, e toda a opressão é humanamente inaceitável e falível enquanto parte integrante do projecto de sociedade.
No entretanto, esta é a realidade que conhecemos. Uma realidade onde todas as dimensões da vida são colocadas não como potencialidades, mas como agressões: a própria juventude é transformada em factor de violência quando se impõe como único modelo através do qual se mantém o prazo de validade/valor da mulher.
Neste contexto, matérias como os direitos sexuais e reprodutivos ficam envoltas em discussões absolutamente contraditórias, onde as respostas dificilmente são clarividentes. Por exemplo, emancipação é eu poder aceder a tratamentos complexos para prolongar a minha fertilidade até aos limites do corpo, porque as dinâmicas impostas pelo mercado de trabalho me fizeram crer que a maternidade podia sempre esperar?
Para muitas que se empenham nesta luta, está claro que ela não gravita em torno de um qualquer desejo de igualdade de natureza, ou onde o progresso técnico-científico dá resposta à potencialização do lucro mascarado de respostas a “naturais” desejos femininos, mas tão só da construção de uma sociedade fraterna e solidária, de liberdade para nos desenvolvermos e realizarmos, sem que a biologia continue a ser tratada não como ponto de partida nem como desculpa de determinação absoluta para os papéis estritos que nos cabem, para o que poderemos concretizar ou sequer desejar.
Somos matéria de contradição. Somos indistinguíveis das marcas de séculos de opressão, desigualdade, menorização, resistência e emancipação. Somos este produto específico — os únicos sujeitos com agência para construir futuro — e é sendo isto que somos que, revoltadas e esperançadas, teremos de prosseguir a construção do lugar onde a igualdade é o quotidiano de todas as realizações possíveis.
É este lugar que estará a ser reclamado no próximo dia 8 de Março, nas manifestações que o MDM (Movimento Democrático de Mulheres) convocou para todo o país. Em Lisboa, encontramo-nos às 14h30, nos Restauradores.
