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Celebrar o 8 de Março continua a ser um ato de resistência coletiva

O aviso de António Guterres na 69.ª sessão da Comissão sobre o Estatuto das Mulheres das Nações Unidas, que teve lugar este mês de março, é claro: vivemos tempos de perigosos ataques aos direitos das mulheres.

Enfrentamos o reforço da misoginia que pretende esvaziar, com a conivência dos líderes políticos, os direitos humanos e as liberdades fundamentais das mulheres em várias partes do mundo. A mensagem do Secretário Geral da ONU é uma confirmação a nível das instituições multilaterais das denúncias que as organizações de mulheres têm vindo a fazer nos últimos, perante o progressivo desinvestimento nas políticas de igualdade e a crescente falta de vontade política em aprofundar a agenda dos direitos das mulheres. A igualdade real entre mulheres e homens parece cada vez mais longe de ser alcançada.

Em 2025, celebrámos em Portugal os 50 anos da primeira manifestação do 8 de março, organizada pelo MDM-Movimento Democrático de Mulheres. Desde então, muito caminho foi trilhado para que as mulheres no nosso país pudessem ser reconhecidas como cidadãs de pleno direito. Não obstante, Portugal não é excepção quanto às tentativas de esvaziamento dos direitos e liberdades fundamentais das mulheres e também a nível nacional os direitos das mulheres continuam por se cumprir na vida. A crise da habitação e as condições de exploração económica que afetam uma boa parte das mulheres, sobretudo mães solteiras ou mulheres com percursos migrantes são disso um reflexo.

Perante um crescendo de barreiras e desafios, com a agravante da emergência de forças políticas de tendência fascista em vários países e o escalar dos conflitos armados, é imperativo que as mulheres se organizem e reivindiquem os seus direitos, lutem pela justiça social e pela paz. Esta chamada à ação da força organizada das mulheres vemo-la sempre na Manifestação Nacional de Mulheres, organizada pelo MDM. Este ano, vivemos esta força nas ruas, onde mulheres e homens, jovens e velhos, pessoas nacionais e de origem migrante marcharam lado a lado para exigir um mundo socialmente justo, pugnar pela paz e denunciar todo o tipo de violências e discriminações para com as mulheres.

Gritámos em uníssono que a violência conjugal e nas relações de intimidade é uma vergonha nacional e que falta cumprir os direitos sexuais e reprodutivos; exigimos o aumento dos salários e o fim da precariedade laboral que rouba horas de vida às mulheres; reinvindicámos serviços públicos de qualidade que não abandonem vítimas de violência nem neguem cuidados básicos; denunciámos a normalização da prostituição e da pornografia como “trabalho”, porque não há liberdade na mercantilização da pobreza e da vulnerabilidade.

Celebrar o 8 de Março não é um gesto simbólico — é um ato de resistência coletiva. Este dia, marcado pela luta histórica das mulheres, renova-se todos os anos nas ruas, onde ecoam as vozes de quem recusa retrocessos e exige direitos concretos. A manifestação organizada pelo MDM em mais de 15 cidades do país mostrou que a força do movimento das mulheres está viva, desafiando a exploração capitalista que precariza as trabalhadoras e o domínio patriarcal que as quer submissas.

Participar nesta manifestação não é só marchar — é recusar o silêncio, é exigir mudanças reais num sistema que insiste em explorar. Enquanto houver mulheres exploradas, violentadas ou silenciadas, a luta não será simbólica: será, como sempre foi, uma luta pela liberdade. E é nas ruas, unidas, que a transformamos em força de mudança.

Numa altura em que se multiplicam discursos e políticas que tentam apagar as mulheres enquanto sujeitos de direitos, o 8 de março reafirma-se como um dia de combate e afirmação. Que cada rua ocupada seja um compromisso renovado: não voltaremos atrás, não nos calaremos, e não aceitaremos nada menos do que a plena igualdade e o reconhecimento da dignidade inalienável de todas as mulheres.

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