Sociedade

Pandemia

A importância do associativismo no pós-pandemia

Com a imposição do confinamento geral pelos vários estados de emergência propostos pelo Presidente da República e aprovados pelo Governo, as condições sociais e económicas de muitos portugueses foram agravadas. Dos salários ao desaparecimento de muitos postos de trabalho, passando pela incapacidade de manter pequenas e médias empresas, o impacte económico e social da pandemia está, hoje, no centro das nossas preocupações, tanto quanto está a questão da saúde. Na saúde, não falamos, apenas, dos efeitos diretos do vírus, das suas consequências na qualidade de vida de quem foi infetado ou da devastadora perda de vidas, mas, também, de saúde mental, de ansiedade, perda de expectativas e desmotivação. Se existe esperança na superação desta realidade e sentimos que a pandemia terá um fim, é importante que consigamos preparar aquilo que será a nossa vida em comunidade depois da pandemia.

À nossa volta, muitos são os pequenos negócios que estão a lutar pela sobrevivência. Muitos anunciaram já o encerramento. Com eles desaparecerão espaços de sociedade que tomáramos por habituais no nosso quotidiano e dos quais nos vimos privados. A habituação à perda da vida social e da fruição do lazer em comunidade pode ter consequências graves na forma como construímos juntos a nossa realidade comum, a forma como nos relacionamos e como criamos laços de cuidado, de fraternidade e de vizinhança.

As vagas deixadas por aqueles que não aguentaram a manutenção dos seus negócios (cafés, bares, restaurantes) correm o risco de ser ocupadas por negócios que não refletem a cultura dos nossos bairros, a sua diversidade e a sua singularidade. De resto, não há novidade no desaparecimeanto gradual desses espaços na última década e na sua substituição por franchisings uniformizados, impessoais e descaracterizados. Essa substituição deve muito ao modelo imobiliário a que as cidades foram sujeitas, que se apropriou daquilo que sempre correspondeu a uma afirmação social das comunidades. É dessa afirmação social que precisamos no momento em que se irá aprofundar o desaparecimento dos lugares com os quais nos podemos identificar, que se adequam à nossa forma de vida e às nossas necessidades de participação e de fruição.

O papel do associativismo é, por isso, determinante. Durante mais de um século, o associativismo foi um elemento de consolidação social que mobilizou comunidades inteiras na prossecução de um interesse comum. Foi através do associativismo que a vida da classe trabalhadora encontrou força e determinação para se organizar e decidir a finalidade que dá às suas formas de organização e de ocupação do espaço público, sem dependência de atividades esporádicas promovidas por quem quer controlar a sua consciência sobre o poder que tem quando se mobiliza. Com o associativismo, as populações não desistem de criar o seu próprio quotidiano e não se deixam influenciar pelo facilitismo do café descaracterizado ou pelo bar das 120 marcas de cerveja que nunca vão beber e cujos horários são incompatíveis com a sua realidade laboral e familiar. É o associativismo, aliás, que faz com que muitos trabalhadores defendam o seu direito ao tempo de lazer, o seu direito a um horário de trabalho que lhes permita participar social e culturalmente na vida da sua cidade, do seu bairro, da sua rua.

A realidade dos últimos anos afastou muitos de nós da vida das nossas associações. O desinteresse pelo associativismo tem origem na sobrecarga do horário do trabalho, no modelo económico que favoreceu a especulação imobiliária e a consequente perda de relações de vizinhança e de pertença, e o consumo individualista, acrescendo a isso o aumento da oferta do entretenimento doméstico. Gerou-se a ideia de que o espaço das associações estava envelhecido, não correspondia a um modo de vida moderno e que a vida associativa roubava tempo ao descanso, quando na verdade é essa vida que retira as pessoas do isolamento social e de um certo sedentarismo.

Mais do que nunca, é preciso inverter essa tendência para o sedentarismo e para o isolamento e devolver às populações espaços de convívio e participação social com os quais se identifiquem. No pós-pandemia, vai ser fundamental recuperar os espaços de sociedade, os cafés e bares das associações, a atividade cultural que o associativismo desenvolve a partir das escolhas e dos horizontes dos seus associados e amigos e recuperar as relações que nos foram negadas no último ano. Este deve ser um objetivo não só das pequenas associações, mas também dos clubes desportivos e de outras formas de organização que têm na classe trabalhadora a sua base social.

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