Sophie (a própria realizadora), Jean-Phi (Philippe Katerine) e Claudine e Ráoul não têm plano. As férias vão-se definindo, no que o improviso possui de dramático. Os pequenos problemas surgem constantemente, e vão sendo vividos de forma descontraída, sem grandes tensões. É preciso aproveitar aqueles dias em que estão os quatro juntos, gerir contrariedades quotidianas, carácteres e gostos individuais.
Sophie vive com as duas crianças em Paris. Jean-Phi é pai de Ráoul. Mãe e filhos vão ao encontro de Jean-Phi algures a meio-caminho. A viagem começa no comboio, entre atrapalhações várias. Ráoul tem a peculiaridade de fazer cocó nos lugares mais inusitados, o que deixa o resto da família constrangida. Ráoul anda sempre com um cobertor e a chucha; a mãe queria que o companheiro não os tivesse trazido para o mais novo da família… Mas esta é a sua imagem: um bebé que começou há pouco tempo a dar os primeiros passos.
Jean-Phi é um homem com um humor subtil. A sua ponderação não o impede de dar as suas opiniões nos sítios por onde vão passando e ficando a pernoitar. Parece apenas querer desfrutar das férias, em bem-estar. O mesmo podemos dizer de toda a família. O eco do filme é clarro: conflitos nas férias acontecem, sobretudo quando passam muito tempo juntos longe das suas rotinas. A intimidade sobressai. O que é extraordinário é que quarteto que compõe esta família nunca leva demasiado a peito o que quer que possa correr menos bem.
A narração une o colectivo
“L’Aventura” não é um filme superficial, mas descontraído. A sua estrutura narrativa está longe de ser linear, uma vez que Claudine tem uma ideia simples e simultaneamente arrojada. A filha mais velha quer ir gravando no telemóvel o que foram fazendo durante aqueles dias. Como as coisas estão sempre a surgir nos dias, e, mesmo num verão descansado, são vividas de forma intensa, nem todos têm a mesma versão do que fizeram e da sucessão dos acontecimentos. Esta construção áudio do puzzle da memória é um interessante artifício que transforma “L’Aventura” num objecto complexo. O aprofundamento da relação entre todos acontece com esta narração oral, ao mesmo tempo que se vão destacando as formas de cada um recordar o passado recente. Sentimo-nos bem com esta família – e desejamos que as eventuais pequenas quezílias das nossas férias sejam resolvidas com tal criatividade, delicadeza e frontalidade.
Depois da viagem a Itália, esperamos um desfecho tranquilo no regresso a Paris. “L’Aventura” deixa-nos na ambiguidade, com um sentimento agridoce. O que aprofunda ainda mais as personalidades de Sophie, Jean-Phi e o relacionamento com os filhos. Independentemente de tudo, eles são felizes e estão bem. É o que todos queremos. Sobretudo na época estival, e em férias. Sophie Letourneur ainda nos diz que tudo isto é a memória de umas outras férias com a sua família. Contra a nostalgia desse ido verão, realizou um filme solar e inteligente, repleto de bons momentos.
