Depois do sequestro pelos Estados Unidos do General Noriega, Presidente do Panamá, em 1990, o dia 3 de janeiro abre mais uma cicatriz na América Latina com o rapto de Nicolás Maduro e da sua mulher, Cília Flores, também dirigente chavista, pelo mesmo corpo das forças especiais norte-americanas. A imagem do casal que se conheceu quando Hugo Chávez estava na prisão nos anos 90, antes de ser eleito Presidente da Venezuela, a ser retirado de um avião em Nova Iorque de mãos e pés acorrentados com sacos na cabeça é o retrato da nova doutrina dos Estados Unidos.
Em plena madrugada de um sábado, quando a maioria dos venezuelanos estava a dormir, Donald Trump ordenou um ataque que atingiu várias bases militares, dispositivos de defesa antiaérea, sistemas de comunicações e conduziu ao sequestro de Nicolás Maduro e de Cília Flores, numa agressão militar que se traduziu em mais de uma centena de mortos entre civis e soldados venezuelanos.
Em 2005, o então presidente Hugo Chávez alertava já para uma possível operação orquestrada pelo Pentágono para o acusar e ao seu governo de narcotráfico, o que justificaria uma agressão à semelhança do Panamá em 1989.
Se a retórica de vários inquilinos da Casa Branca tem sido a de descartar a perseguição de recursos naturais como motivação para invasões e ataques dos Estados Unidos contra outros países, Donald Trump deixou bem claro com a sua intervenção que a sua administração quer o petróleo venezuelano e que as empresas norte-americanas vão ganhar muito com esta agressão. “Vamos fazer com que as nossas grandes companhias petrolíferas, as maiores em qualquer parte do mundo, entrem [na Venezuela], invistam milhares de milhões de dólares, reparem a infraestrutura, que tem graves problemas, e comecem a trazer dinheiro para este país”, afirmou.
Falou de uma operação militar “limpa” mas a verdade é que o ataque dos Estados Unidos destruiu várias residências e viaturas civis, e provocou ferimentos e morte entre a população civil. Entre os civis, registou-se a morte de uma idosa de 80 anos depois das forças norte-americanas terem destruído o apartamento onde vivia. Cuba decretou dois dias de luto nacional. O Presidente Díaz Canel anunciou a morte de 32 cubanos a defender Nicolás Maduro, um episódio que se junta à longa história de apoio de Cuba a países do chamado Sul Global na luta contra o imperialismo e o colonialismo.
Na sua declaração, afirmou que Nicolás Maduro vai enfrentar acusações de narcoterrorismo num tribunal de Nova Iorque, algo que para muitos especialistas é um ato ilegal. Uma vez mais, o Presidente dos Estados Unidos responsabilizou o seu homólogo venezuelano por estar envolvido no tráfico de droga, uma acusação sem qualquer fundamento de acordo com os mais importantes organismos internacionais.
No Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 da UNODC, órgão das Nações Unidas contra o tráfico de drogas, há apenas uma breve menção à Venezuela, indicando que uma fração mínima da produção colombiana de drogas passa por esse país rumo aos Estados Unidos e à Europa. Como já noticiou A Voz do Operário, segundo a ONU, a Venezuela consolidou-se como um território livre do cultivo de folha de coca, marijuana e produtos similares, bem como da presença de cartéis criminosos internacionais. Por sua vez, o Relatório Europeu sobre Drogas de 2025, por exemplo, não menciona sequer a Venezuela. Curiosamente, a Colômbia, tem a presença de soldados norte-americanos em sete bases militares e uma presença substancial da agência dos Estados Unidos para o combate às drogas (DEA) e o país continua nos primeiros lugares na produção e comercialização de cocaína.
Trump quer uma república das bananas
Nessa declaração, Donald Trump disse que os Estados Unidos iam gerir o país e liderar uma transição que não permita a continuação do chavismo à frente da Venezuela. Na prática, o Presidente dos Estados Unidos anunciou que é o seu país que vai decidir os destinos do país sul-americano e até descartou Maria Corina Machado como solução. Para Trump, a Nobel da Paz que se destacou por ser uma apoiante entusiasta de uma agressão militar dos Estados Unidos à Venezuela “não tem o apoio dentro do país nem o respeito”, apesar de ser “mulher muito simpática”.
Por sua vez, Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela, negou qualquer contacto com os Estados Unidos, como avançara Donald Trump, e negou qualquer cedência a Washington. “O único Presidente da Venezuela é Nicolás Maduro”, respondeu. Acusado de sequestrar um empresário norte-americano em 1976, apontado como agente da CIA, o pai de Delcy Rodríguez e do seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, militante de uma organização de esquerda, foi capturado e torturado até à morte. Ironicamente, quem liderava o país na época, Carlos Andrés Pérez, era quem encabeçava o país em 1992 quando um jovem tenente-coronel chamado Hugo Chávez foi detido por comandar uma insurreição militar contra o governo.
“Exigimos a libertação imediata do Presidente Nicolás Maduro e da sua mulher, Cilia Flores, afirmou Delcy Rodríguez, numa declaração ao país, transmitida pela rádio e televisão. A vice-presidente, que liderou uma reunião do conselho de Defesa, descreveu a operação dos Estados Unidos de sequestro de Nicolás Maduro como “uma agressão que viola de forma flagrante” a Carta da Organização das Nações Unidas. Neste contexto, constitucionalmente, o Supremo Tribunal de Justiça procedeu à nomeação de Delcy Rodríguez como presidente interina do país.
Contudo, não só a linha de comando militar se mantém intacta na Venezuela como há outras figuras destacadas dentro do chavismo para assumir funções de Estado como é o caso do capitão Diosdado Cabello, antigo vice-presidente que assumiu a presidência interina quando Hugo Chávez foi detido durante uma tentativa de golpe de Estado em 2002. Simultaneamente, o general Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, assume um papel destacado num país em que as forças armadas são o garante não só da soberania nacional mas também da chamada revolução bolivariana.
Neste contexto, as reações de vários governos europeus, incluindo o português, de apelo a uma transição pacífica e democrática não podiam estar mais desenquadradas daquilo que se passa no terreno. A agressão dos Estados Unidos não produziu qualquer mudança política, não estabeleceu qualquer controlo territorial e não está à vista, até ao momento, qualquer janela que permita vislumbrar essa possibilidade. Ao contrário do governo espanhol que se recusou a reconhecer qualquer solução que parta de uma ingerência de Washington, o primeiro-ministro português foi rápido a aplaudir as declarações do Presidente dos Estados Unidos, referindo que tomara nota “das declarações e garantias do Presidente Donald Trump” e que constatara “o papel dos EUA na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática e inclusiva na Venezuela com a maior brevidade possível”.
No mesmo tom, a União Europeia despiu os habituais argumentos de condenação da violação da integração territorial da Ucrânia focando o seu discurso numa suposta mudança de regime.
Países como a China, a Rússia, o Brasil e o México condenaram a agressão e o sequestro do Presidente da Venezuela denunciando a violação do direito internacional. Pequim exigiu a libertação imediata de Nicolás Maduro e da sua mulher, assim como o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, que instou a liderança norte-americana “a reconsiderar a sua posição e a libertar o presidente legalmente eleito de um país soberano e sua esposa”.
Protestos a favor e contra a agressão
No próprio dia em que Nicolás Maduro e a sua mulher foram sequestrados pelas tropas norte-americanas, milhares de venezuelanos saíram às ruas em Caracas e noutras cidades daquele país para exigir a libertação do casal. Noutras capitais do mundo, houve protestos no mesmo sentido que encheram praças e avenidas, incluindo nos Estados Unidos, onde manifestantes contestaram a agressão do seu país contra a Venezuela. Em vários países, uma parte da comunidade venezuelana emigrada celebrou o rapto de Nicolás Maduro e mostrou-se satisfeita com os ataques militares à Venezuela. Em Portugal, manifestantes saíram à rua em Lisboa, Porto e Braga para contestar a agressão dos Estados Unidos à Venezuela.
