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Trump usa farsa para assediar a Venezuela

Nenhum relatório sobre drogas das autoridades norte-americanas, da União Europeia ou das Nações Unidas corrobora a versão da Casa Branca. Todos os dados apontam para que o Cartel de los Soles seja uma mentira para justificar uma nova agressão a um país soberano.

Em 1898, uma explosão num navio militar norte-americano estacionado no porto de Havana, em Cuba, matou mais de 260 marinheiros e foi o motivo pelo qual os Estados Unidos entraram em guerra com Espanha, a potência colonial à época. Hoje, é pacífico considerar-se que se tratou de um incidente provocado pelos Estados Unidos e empolado pela comunicação social norte-americana para justificar o ataque às forças espanholas.

No Iraque, o Ocidente inventou o perigo das armas químicas para permitir a invasão daquele país, que acabou por mergulhar numa guerra brutal. Agora, recorre-se à farsa do narcotráfico para justificar uma narrativa que abra portas ao inferno na Venezuela.

Por exemplo, de acordo com o Washington Post, durante o primeiro ataque norte-americano a uma embarcação ao largo da Venezuela, a 2 de Setembro, houve dois sobreviventes que ficaram agarrados aos destroços e Pete Hegseth, secretário norte-americano de Defesa, deu a ordem para um novo ataque e para não haver sobreviventes. Um crime à luz do direito internacional que parece só não ter destaque porque o Ocidente só tem olhos para crimes cometidos contra ucranianos.

A pressão sobre as companhias aéreas para que deixem de voar para Caracas é apenas mais um passo na escalada ingerencista dos Estados Unidos quando na Venezuela a oposição não consegue sequer mobilizar os seus apoiantes para as ruas. Com declarações polémicas a pedir uma intervenção militar contra o seu próprio país, a Nobel da Paz, Maria Corina Machado, não consegue unir as diferentes forças opositoras.

Henrique Capriles, o candidato presidencial da oposição que melhores resultados teve contra Hugo Chávez e Nicolás Maduro, questionou a versão da Casa Branca sobre o envolvimento do presidente venezuelano num esquema de tráfico de drogas. Em setembro, Pino Arlacchi, antigo director da UNODC, o departamento das Nações Unidas para as Drogas e o Crime, num artigo intitulado “O grande engano contra a Venezuela: a geopolítica do petróleo disfarçada de guerra contra as drogas”, explicou porque é que é mentira definir aquele país como um “narco-Estado”.

De acordo com Pino Arlacchi, durante o seu mandato à frente da UNODC, esteve em países como a Colômbia, Bolívia, Peru e Brasil, mas nunca visitou a Venezuela. “Simplesmente porque não havia necessidade”, sublinhou. “A cooperação do governo venezuelano na luta contra o narcotráfico era uma das melhores da América do Sul, só pode ser comparada ao histórico impecável de Cuba”.

No Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 da UNODC, há apenas uma breve menção à Venezuela, indicando que uma fração mínima da produção colombiana de drogas passa por esse país rumo aos Estados Unidos e à Europa. Segundo a ONU, a Venezuela consolidou-se como um território livre do cultivo de folha de coca, marijuana e produtos similares, bem como da presença de cartéis criminosos internacionais. “O documento não fez outra coisa senão confirmar os 30 relatórios anuais anteriores, que não falam do narcotráfico venezuelano porque ele não existe. Apenas 5% das drogas colombianas transitam pela Venezuela”, sublinhou o antigo diretor da UNODC.

Atualmente, a Colômbia e a Guatemala encabeçam a produção e comercialização de cocaína. “No Equador, por exemplo”, explicou Pino Arlacchi, “57% dos contentores de bananas que saem de Guayaquil chegam à Bélgica carregados de cocaína”. As autoridades europeias apreenderam 13 toneladas de cocaína num navio espanhol proveniente de portos equatorianos, controlados por empresas protegidas por funcionários do governo equatoriano, aliado dos Estados Unidos. A União Europeia elaborou um relatório detalhado sobre os portos de Guayaquil: “as máfias colombianas, mexicanas e albanesas operam amplamente no Equador”. A taxa de homicídios no Equador disparou de 7,8 por 100 000 habitantes em 2020 para 45,7 em 2023.

Pino Arlacchi diz que os Estados Unidos usaram o narcotráfico como justificação para o que realmente lhes importa: o petróleo. É por isso que não incomodam minimamente os verdadeiros produtores de drogas. O Relatório Europeu sobre Drogas de 2025, por exemplo, não menciona sequer a Venezuela. Curiosamente, a Colômbia tem a presença de soldados norte-americanos em sete bases militares e uma presença substancial da agência dos Estados Unidos para o combate às drogas (DEA) e o país continua nos primeiros lugares na produção e comercialização de cocaína. Simultaneamente, a produção de ópio cresceu no Afeganistão durante a ocupação do país asiático pelos Estados Unidos.

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