Só este ano, prevê-se que as gigantes da IA Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft gastem, em conjunto, mais de um bilião de dólares na expansão das suas capacidades de IA (tendo já gasto cerca de 200 mil milhões de dólares nos primeiros três meses deste ano). Este investimento irá traduzir-se, nos próximos anos, em enormes sobrecargas das redes eléctricas, consumo descomunal de água e um forte aumento de emissões nocivas a nível mundial.
A IA vai consumir cerca de 21% da energia produzida em todo o mundo
Segundo o relatório da Agência Internacional de Energia, a electricidade necessária para alimentar centros de dados de IA deve quadruplicar em apenas 4 anos. De acordo com o Lincoln Laboratory, do MIT, até 2030 os centros de dados podem vir a consumir 21% da energia elétrica gerada a nível mundial. O crescimento desmesurado deste sector é insustentável para a manutenção da vida humana no planeta.
Os impactos ambientais da inteligência artificial não podem ser avaliados apenas pelo gasto de eletricidade. O nível de consumo de água é igualmente alarmante, a que se soma também uma substancial ocupação de solo, poluição sonora e do ar.
A IA irá consumir 9,3 biliões de litros de água por ano
Cada resposta dada pela IA representa a execução de milhares de cálculos – o que gera a produção de enormes quantidades de calor à medida que os efetuam. Para evitar o sobreaquecimento do sistema, os mega centros de dados que suportam a IA requerem um arrefecimento constante, muitas vezes através da utilização de água para transferir o calor para torres de arrefecimento.
Só para termos uma ideia, uma pesquisa na inteligência artificial gasta, em média, uma garrafa de água. Só no ChatGPT são feitos 2,5 mil milhões de pedidos por dia. Segundo um estudo das Nações Unidas, dentro de 4 anos o consumo anual de água necessário para manter os centros de dados seria de 9,3 biliões de litros de água por ano, uma quantidade que satisfaria todas as necessidades básicas de água de 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana durante um ano.
De acordo com o mesmo estudo, a emissão de carbono associada ao aumento do consumo de eletricidade pelos centros de dados vai totalizar 399 milhões de toneladas de CO2 dentro de 4 anos, exigindo 6,7 bilhões de árvores para ser compensada. Já o impacto territorial seria cerca de 14.500 km², uma área 18 vezes maior do que a cidade de Nova Iorque.
A febre dos centros de dados está a chegar a Portugal
O Governo apresentou em março o Plano Nacional de Centros de Dados, que contempla várias ações para “facilitar e atrair” mais data centers para o território nacional. Portugal prepara-se assim para oferecer infraestruturas, recursos naturais e económicos a grandes multinacionais a troco de insignificante criação de postos de trabalho.
Apesar do lobby do sector tentar vender a ideia que os centros de dados vão trazer milhares de postos de trabalho, a realidade é bem diferente. Embora os data centers possam promover grandes investimentos de capital, a criação de empregos diretos é muito baixa. Grande parte dos empregos são gerados na fase de construção. Uma vez que a estrutura física fica pronta, esses postos de trabalho desaparecem.
Um grande centro de dados pode empregar, em média, entre 30 e 50 pessoas, o que é muito pouco em comparação com outros negócios que utilizam menos terreno, energia, infraestrutura e recursos públicos. Por exemplo, na Suécia, a Meta prometeu que 30 mil empregos iriam ser criados por causa do Centro de Dados construído no norte do país. Uma investigação jornalística mostrou que foram empregadas apenas 56 pessoas.
Consumo eléctrico nacional poderá triplicar devido ao consumo dos Centros de Dados
De acordo com o próprio sector, está previsto que Portugal multiplique por 44 a potência dos centros de dados nos próximos cinco anos. Os promotores de centros de dados já solicitaram 26,5 GW de potência à rede elétrica nacional, o que obrigará à criação de novas infraestruturas de transporte de energia. Esses pedidos superam toda a potência de produção de eletricidade instalada no país, que, segundo a REN — Redes Energéticas Nacionais, é de 23,4 GW. O máximo histórico de consumo em Portugal foi, até agora, de 9,88 GW.
Só em Sines, onde a Start Campus está a construir o principal centros de dados do país, está projetada para gastar cerca de 1,2 GW — o equivalente a 15% do consumo nacional.
A instalação de grandes centros de dados por multinacionais tem sido saudada nos meios de comunicação portugueses como sinal de progresso, modernização e competitividade. Os mantras economicistas da “atração de investimentos” e “projeção internacional do país” são repetidos até à exaustão.
No entanto, a realidade é bem diferente, os dados que circulam nesses centros geralmente não permanecem sob controle público ou nacional — são tratados, armazenados e monetizados por empresas transnacionais que operam a partir de outras jurisdições. Assim, o país sofre com a poluição, expropriação da sua água, utilização abusiva do seu solo e electricidade, mas fica sem o valor estratégico da informação. O chamado colonialismo digital acaba de chegar em força a Portugal.
