O icónico Chaimite abriu o desfile, como, na madrugada de 1974 os capitães abriram portas a um sonho que, aos poucos, o povo foi revelando e reivindicando nas ruas. E, como o que o povo conquista é gravado na pedra, a 2 de Abril de 1976, os deputados eleitos por 96% dos portugueses consagraram na Constituição da República Portuguesa os exatos termos desse sonho. Da vontade do povo, nascia um país diferente.
É nesse mesmo país, diferente, que na tarde de 25 de abril de 2026, Vasco, Ahiten e Aquira saltaram para a rua e, para comemorar Abril, verteram em cartolinas improvisadas vontades, para que Abril se cumpra. Ahiten tem apenas dez anos e é o mais velho dos três. Reivindica, no verso do cartaz que empunha, “Liberdade para ser quem sou!”, que é para Ahiten, a maior Liberdade de todas. E é essa mesmo que o faz celebrar Abril. Mas é um cartaz que tem duas faces, na outra escreveu: “O maior bicho papão é o fascismo!”. Maida acompanha-o. É a sua mãe, cozinheira de profissão e tem a sua razão para celebrar: “Enquanto mulher Abril é o poder de sonhar e, sobretudo, ousar”, diz-nos com um sorriso.
Mais à frente, a Sara trouxe a filha, a Maria Rita, para o desfile. E Maria Rita segura de um lado a mãe, do outro um cartaz, por ela desenhado, que junta aos cravos de Abril uma Mafalda (a figura da menina da banda desenhada, criada pelo cartoonista argentino Kino, sempre inquieta com os direitos humanos e a Paz). “É fan da Mafalda”, explica a mãe, “e têm lutas iguais, pelos vistos!”.
Sara segura a filha como quem lhe passa o testemunho. “É muito importante lembrar Abril, sobretudo, numa altura em que a liberdade não é um dado adquirido”. Sara nasceu muito pouco tempo depois do 25 de Abril e vem todos os anos à comemorações do 25 de Abril, acompanhada pelos seus filhos: “Estamos a construir a nossa memória do 25 de Abril, são novas, bem sei, mas são as minhas e a dos meus filhos que vão ter de continuar a vir durante muito mais tempo”.
O Vasco, o Ahiten a Aquira e a Maria Rita, são apontamentos de um desfile marcado pela fusão geracional. Desde logo, a presença, de um mar de gente (muitas crianças e jovens) que com a Voz do Operário desceram a Avenida. Mais de um milhar de manifestantes, numa frente que parecia querer dar o mote, afirmando que A Voz Faz Abil! Tudo era harmoniosamente diluído como bandeiras que dão a côr ao desfile, mas que também dão balas a uma batalha que se trava todos os dias, há 52 anos, quase a idade da Catarina Ribeiro, que nasceu em 1975 e herdou de Catarina Eufémia o nome: “Com muito orgulho”, confessa-nos, também ela disposta a passar o testemunho à filha que leva pela mão.
Como o desfile, também Abril prossegue, renovado, porque segura, todos os dias, a sua mais preciosa herança: a dignidade de um povo talhada numa constituição. E, é por isso que ouvimos os movimentos juvenis, representados no desfile, reclamar da Escola Pública o fim das propinas no Ensino Superior, em contraponto a uma escola classista, ou quando, mais adiante, ouvimos reclamar direitos laborais, contestando um pacote laboral proposto pelo governo, destruidor dos direitos de quem trabalha, ou escutamos o clamor dos movimentos sociais, por uma Saúde geral e universal, em contraponto com o negócio privado da doença. As centenas de milhares de pessoas que desceram de forma compacta, durante três horas, a Avenida da Liberdade, no dia 25 de Abril de 2026, disseram-nos, a todos que, sem os direitos que a Constituição consagra, a democracia será engolida, de novo, pelo “bicho papão” que Ahiten tanto teme.
Abril também nasceu na Paiva Couceiro
Também este Abril, o de 2026, nasceu na madrugada de 24 para 25. A Praça Paiva Couceiro voltou a encher para festejar o despertar da Revolução. Foram milhares de pessoas que ali acorreram e que, em conjunto com dezenas coletividades, celebraram este momento madrugador e de combate que a data evoca. Os lisboetas responderam e encheram a praça para ouvir o Coro Infantil d’A Voz do Operário, o Coro da Achada, o Grupo Musical União, Handala Dabke – Dança Tradicional da Palestina, «Cantos de (para) Liberdade» com Nani Medeiros, João Pita e Fernando Baggio e Hélder Moutinho. E porque no espírito de Abril cabe o desporto popular, a noite ficou ainda marcada pela chegada dos heroicos atletas que retomaram, este ano, a prova clássica de ciclismo Porto-Lisboa, promovida pela Associação Desportiva ‘O Relâmpago’ e ficou a promessa do regresso à Paiva Couceiro, porque o 25 de Abril celebra-se na rua.
