{"id":9992,"date":"2026-04-30T21:22:20","date_gmt":"2026-04-30T21:22:20","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9992"},"modified":"2026-04-30T21:22:20","modified_gmt":"2026-04-30T21:22:20","slug":"centenario-da-ditadura-militar-uma-transicao-para-o-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/04\/30\/centenario-da-ditadura-militar-uma-transicao-para-o-fascismo\/","title":{"rendered":"Centen\u00e1rio da ditadura militar: uma transi\u00e7\u00e3o para o fascismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Junto \u00e0 mesa do com\u00edcio, pousava um senhor comiss\u00e1rio da pol\u00edcia. Um dos primeiros a discursar foi o advogado de defesa de uma s\u00e9rie de oper\u00e1rios que a \u201cliberal\u201d 1\u00aa Rep\u00fablica tinha deportado para \u00c1frica. A seguir a ele, falou o oper\u00e1rio gr\u00e1fico Ant\u00f3nio Costa. E este atreveu-se a criticar o recente assalto da pol\u00edcia \u00e0 sede da sua federa\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois nesse momento o seu discurso foi interrompido pelo tal senhor comiss\u00e1rio da pol\u00edcia. O qual \u201cpreveniu a mesa de que encerraria o com\u00edcio se o orador continuasse a falar nos termos em que o estava fazendo\u201d. Ali perto, estavam \u201cpelot\u00f5es de cavalaria e for\u00e7as de pol\u00edcia\u201d prontos a \u201cintervir\u201d [<em>O S\u00e9culo<\/em>, 03\/05\/1926].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">M\u00e1rio Castelhano e Jos\u00e9 de Sousa<\/h2>\n\n\n\n<p>Depois de encaixar a amea\u00e7a policial, o com\u00edcio do 1\u00ba de Maio l\u00e1 continuou. Nele ainda discursaram dois futuros prisioneiros do Tarrafal. Esse campo de concentra\u00e7\u00e3o que, dez anos depois, uma ditadura de tipo fascista iria criar em Cabo Verde.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois sindicalistas a n\u00e3o esquecer: M\u00e1rio Castelhano que no Tarrafal morreria com apenas 44 anos de idade; e Jos\u00e9 de Sousa, que no Tarrafal sobreviveria a 9 anos de cativeiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fabrizio Maffi<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1926 j\u00e1 se falava de fascismo na Europa. Mas, segundo Jean M\u00e9rot, ainda era um conceito \u201cvago, flu\u00eddo, incerto\u201d. Era uma palavra que servia \u201cpara designar as formas mais reacion\u00e1rias do poder capitalista, da \u00abditadura burguesa\u00bb\u201d. Mas sem haver ainda uma no\u00e7\u00e3o clara da sua diferen\u00e7a e do perigo que representava para a classe trabalhadora [M\u00e9rot (1972),&nbsp;<em>Dimitrov, un r\u00e9volutionnaire de notre temps<\/em>, pp.95\/6].<\/p>\n\n\n\n<p>Em It\u00e1lia, h\u00e1 4 anos que vigorava um governo fascista. E o ano de 1926, o m\u00e9dico Fabrizio Maffi iria termin\u00e1-lo como preso pol\u00edtico. Mas, no dia 1\u00ba de Maio? Ainda discursou no parlamento de Roma como deputado comunista. E ali criticou abertamente a crescente viol\u00eancia do governo chefiado por Benito Mussolini.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cara do ministro do Interior, Maffi denunciou que j\u00e1 era comum cidad\u00e3os italianos serem presos por terem cart\u00e3o de militante do Partido Comunista. Quando este ainda n\u00e3o tinha sido ilegalizado [<em>Atti del Parlamento Italiano &#8211; Discussioni della Camera dei Deputati<\/em>, 1924 &#8211; 1926, (Vol. VI), p.5506].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Georgi Dimitrov<\/h2>\n\n\n\n<p>As crises do capitalismo e do liberalismo, depois da 1\u00aa Guerra Mundial (1918) e da queda da bolsa de Nova Iorque (1929), foram cen\u00e1rio para uma variedade de regimes fascistas na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da tradi\u00e7\u00e3o marxista, uma an\u00e1lise dessa variedade \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o de Georgi Dimitrov no 4\u00ba congresso da Internacional Sindical Vermelha, em 1928.<\/p>\n\n\n\n<p>Dimitrov considera que, naquele contexto, a burguesia \u201cn\u00e3o consegue conter as massas populares sob a sua hegemonia de classe\u201d, e ao mesmo tempo faz\u00ea-las pagar o custo da \u201cestabiliza\u00e7\u00e3o capitalista\u201d, por meio dos \u201cm\u00e9todos e formas da democracia parlamentar\u201d. Pelo que procura a \u201csubmiss\u00e3o das massas por interm\u00e9dio do fascismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00edvel ideol\u00f3gico, utilizando \u201csobretudo as ideias do nacionalismo e do chauvinismo\u201d mas tamb\u00e9m opondo \u201cos trabalhadores locais aos que v\u00eam de outros pa\u00edses\u201d. Enquanto a n\u00edvel repressivo, a \u201cnecessidade vital\u201d \u00e9 \u201cdestruir o movimento sindical de classe\u201d. Como Salazar faria em Portugal, no final de 1933.<\/p>\n\n\n\n<p>Dimitrov aponta que a passagem de um pa\u00eds ao fascismo pode acontecer \u201cduma ou doutra forma, por golpe de estado ou por via pac\u00edfica, mais brutal ou mais suave\u201d. A seu ver, \u201cos m\u00e9todos de transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o essenciais e dependem das particularidades\u201d do pa\u00eds em quest\u00e3o, da sua \u201cestrutura social\u201d e da \u201crela\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas e de classe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Focando os pa\u00edses balc\u00e2nicos, aponta-lhes caracter\u00edsticas estruturais semelhantes ao Portugal da \u00e9poca, sendo \u201cessencialmente agr\u00edcolas e com uma ind\u00fastria relativamente fraca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dimitrov considera que as \u201ccondi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas\u201d desses pa\u00edses \u201cconferem ao fascismo caracter\u00edsticas particulares\u201d. Em contraste com o caso italiano, ali o fascismo n\u00e3o surge \u201ca partir de baixo, por meio de um movimento de massas, mas ao contr\u00e1rio, a partir de cima\u201d. Apoia-se \u201cno controlo do poder de Estado, nas for\u00e7as militares da burguesia e no poder financeiro do capital banc\u00e1rio\u201d [Dimitrov (1972),&nbsp;<em>Selected Works<\/em>&nbsp;(vol.1), pp. 302-306].<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, a transi\u00e7\u00e3o para um regime fascista passou pela ditadura militar sa\u00edda do 28 de Maio de 1926. No acabar com o parlamentarismo, at\u00e9 foi uma via mais radical do que a italiana. Pois f\u00ea-lo de imediato.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quatro civis<\/h2>\n\n\n\n<p>Celebrado desde 1890, o 1\u00ba de Maio tamb\u00e9m \u00e9 um dia de mem\u00f3ria hist\u00f3rica. Logo de in\u00edcio, presta homenagem aos \u00abm\u00e1rtires de Chicago\u00bb: oito sindicalistas norte-americanos que, em 1886, foram presos quando lutavam pelo hor\u00e1rio de trabalho das 8 horas. E rapidamente condenados \u00e0 morte, sob uma acusa\u00e7\u00e3o falsa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Lisboa, era tradi\u00e7\u00e3o no 1\u00ba Maio homenagear Jos\u00e9 Fontana, fundador (em 1872) do primeiro prot\u00f3tipo de uma central sindical em Portugal &#8211; a \u00abFraternidade Oper\u00e1ria\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Falando-se aqui da ditadura militar, recorde-se o 1\u00ba de Maio lisboeta de 1931. At\u00e9 parecia que iria decorrer \u201csem nenhum incidente\u201d. Mas, pelas 16 horas, a GNR e a PSP atacaram uma pac\u00edfica concentra\u00e7\u00e3o \u201cde muitas centenas de pessoas\u201d na Pra\u00e7a do Rossio [<em>Di\u00e1rio de Lisboa<\/em>, 02\/05\/1931].<\/p>\n\n\n\n<p>E mataram a tiro quatro civis: Armando Gomes, 23 anos, empregado no com\u00e9rcio; Jos\u00e9 Pereira, 30 anos, servente de pedreiro; Lu\u00eds Correia, 34 anos, empregado de escrit\u00f3rio; e Manuel Coelho, 47 anos, comerciante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, no dia 1\u00ba de Maio de 1926. Um m\u00eas depois, Portugal j\u00e1 vai estar sob ditadura militar. E essa vai ser a via de transi\u00e7\u00e3o para o regime de tipo fascista institu\u00eddo no final de 1933. Mas, por agora, \u00e9 a 1\u00aa Rep\u00fablica que ainda vigora. A CGT realiza aquele que ser\u00e1 o seu \u00faltimo com\u00edcio do dia da classe trabalhadora. No local habitual, o Parque Eduardo VII. E uma coisa que salta \u00e0 vista \u00e9 o contexto de repress\u00e3o que j\u00e1 se vivia naquela altura.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":9993,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9992"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9992"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9992\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9995,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9992\/revisions\/9995"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9993"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9992"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9992"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9992"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9992"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}