{"id":9983,"date":"2026-04-30T21:09:40","date_gmt":"2026-04-30T21:09:40","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9983"},"modified":"2026-04-30T21:09:41","modified_gmt":"2026-04-30T21:09:41","slug":"e-so-mais-um-empurrao-e-o-pacote-vai-ao-chao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/04\/30\/e-so-mais-um-empurrao-e-o-pacote-vai-ao-chao\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 s\u00f3 mais um empurr\u00e3o e o pacote vai ao ch\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Sem luz nem \u00e1gua em casa, a viver no bairro do Talude, em Loures, Marlene Maria \u00e9 cozinheira na Navega\u00e7\u00e3o A\u00e9rea de Portugal (NAV), respons\u00e1vel pelo controlo do tr\u00e1fego a\u00e9reo no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Sabe o dia exato em que chegou a Portugal. No dia 11 de dezembro de 2021, com 40 anos, aterrou na capital portuguesa vinda de S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. Levanta-se religiosamente todas as manh\u00e3s \u00e0s cinco e cinquenta para apanhar o autocarro e sabe de mem\u00f3ria os minutos a que deve chegar cada uma das viaturas que a podem salvar de um eventual atraso.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando sai da zona da antiga Estrada Militar de Loures, Marlene Maria v\u00ea o mesmo cen\u00e1rio em todas as paragens. \u201cSe voc\u00ea vai no autocarro, vai encontrar nos autocarros mais imigrantes do que portugueses. Eu estou a te falar, meu irm\u00e3o, s\u00e3o muitos imigrantes. Passa s\u00f3 por l\u00e1 um dia, s\u00f3 mesmo de passeio\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Ano ap\u00f3s ano, empobrecer a trabalhar \u00e9 uma evid\u00eancia para quem carrega o pesado fardo de sonhos e expectativas que nunca se chegam a concretizar. \u00c9 assim a vida da maioria dos que p\u00f5em o pa\u00eds a funcionar. De acordo com n\u00fameros do pr\u00f3prio governo, nos \u00faltimos anos, entre 20 e 25% dos trabalhadores t\u00eam ganho o sal\u00e1rio m\u00ednimo, como \u00e9 o caso de Marlene Maria. Um estudo divulgado pelo Banco de Portugal mostra que quem recebe menos s\u00e3o as mulheres, os imigrantes e os jovens, sobretudo na hotelaria e na constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, saiu do trabalho uma hora mais tarde a pedido da chefe de cozinha, mas n\u00e3o vai receber mais por isso. \u201cEu j\u00e1 conhe\u00e7o a empresa, n\u00e3o v\u00e3o pagar, eles nem querem saber. Se eu deixasse as coisas por fazer, amanh\u00e3 ia ouvir de tudo. Mas como eu deixei tudo pronto, para eles est\u00e1 na boa, est\u00e1 tudo bem\u201d, explica. \u201cA minha chefe da cozinha poderia muito bem mandar uma colega me ajudar para n\u00f3s duas fazermos isso, que \u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o da carne, e sairmos na hora certa. Mas n\u00e3o, como ela acha que Marlene n\u00e3o tem o que fazer em casa, ent\u00e3o esse \u00e9 o castigo que d\u00e1\u201d. A revolta pela forma como as chefias tratam os trabalhadores estrangeiros \u00e9 muita. \u201cN\u00f3s estamos sujeitos. Enquanto somos imigrantes, vamos passar sempre essa humilha\u00e7\u00e3o. L\u00e1 no meu trabalho, na sua maioria, tem santomense, tem cabo verdiana, tem mo\u00e7ambicana, tem angolana e tem portuguesas tamb\u00e9m. Minha colega cabo-verdiana me disse, \u00abMarlene, isso \u00e9 a vida do imigrante\u00bb\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, esta santomense trabalhava num lar de idosos, em S\u00e3o Juli\u00e3o do Tojal, doze horas por dia e recebia apenas oito. Foi despedida depois de um acidente de trabalho. Sem qualquer apoio ou aconselhamento, denuncia que a fizeram assinar uma carta de despedimento sem saber o que ali estava escrito. J\u00e1 depois na Sidul como oper\u00e1ria, recorda que tamb\u00e9m ali muitos dos trabalhadores eram imigrantes. \u201cO Chega tem que dar gra\u00e7as a Deus por n\u00f3s africanos estarmos c\u00e1 em Portugal porque se eles um dia pegarem em todos os imigrantes e os mandarem para a sua terra, Portugal morre\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A ganhar 825 euros limpos por m\u00eas, vive numa casa humilde num bairro amea\u00e7ado pelos despejos e demoli\u00e7\u00f5es de Ricardo Le\u00e3o, o presidente da C\u00e2mara de Loures, que sendo autarca do PS pouco se distingue das propostas do Chega. Com marido e uma filha de 16 anos e a enviar mensalmente ajuda \u00e0 sua fam\u00edlia em S\u00e3o Tom\u00e9, Marlene Maria tem estado ao lado dos moradores que defendem o direito a uma habita\u00e7\u00e3o digna atrav\u00e9s do movimento Vida Justa.<\/p>\n\n\n\n<p>Longe est\u00e1 a Europa de que ouvia falar em S\u00e3o Tom\u00e9. \u201cPortugal n\u00e3o \u00e9 flor que se cheire\u201d, diziam-lhe os primos a viver em Lisboa. \u201cSe nos facilitassem uma casa para sairmos daqui, eu sairia com todo o orgulho. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil viver sem \u00e1gua nem luz. Eu gostaria que a C\u00e2mara Municipal e o Estado portugu\u00eas reconhecessem que somos trabalhadores. Todos n\u00f3s trabalhamos, todos n\u00f3s estamos a contribuir para o bem de Portugal. N\u00f3s viemos c\u00e1 \u00e0 procura do melhor e n\u00e3o s\u00f3 do melhor para n\u00f3s, tamb\u00e9m do melhor para Portugal\u201d, afirma.&nbsp;\u201cMas ainda assim n\u00f3s somos explorados e eles abusam, sim. N\u00f3s somos humilhados, somos abusados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o longe desta realidade, Izaldina Bragan\u00e7a partiu de S\u00e3o Tom\u00e9 h\u00e1 12 anos com 32 anos. Tamb\u00e9m vive em Loures mas no bairro de Montemor. A trabalhar em Alc\u00e2ntara, na Eurest, \u00e9 cozinheira h\u00e1 dois anos. Todos os dias, faz um longo trajeto de cerca de uma hora entre autocarro, metro e comboio. Por tudo isto, recebe apenas o sal\u00e1rio m\u00ednimo e paga uma renda de 800 euros mensais. \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil\u201d, admite. Vive sozinha com duas filhas, uma ainda crian\u00e7a, raz\u00e3o que a leva a ficar preocupada quando chega mais tarde a casa. \u201cOs imigrantes trabalham muito e fazem os trabalhos mais duros\u201d. Como muitos outros trabalhadores, Izaldina Bragan\u00e7a sente-se injusti\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cCart\u00e3o vermelho ao governo\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Gabriela Costa \u00e9 assistente operacional no Hospital de S\u00e3o Jos\u00e9, em Lisboa, h\u00e1 21 anos. Sabe o dia em que come\u00e7ou a trabalhar: 2 de maio de 2005. Desde ent\u00e3o, ganha apenas mais 150 euros que o sal\u00e1rio m\u00ednimo. Face ao aumento do custo de vida e do esfor\u00e7o realizado n\u00e3o lhe parece justo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o governo a apresentar uma reforma laboral que n\u00e3o estava no programa eleitoral dos vencedores das elei\u00e7\u00f5es, Gabriela Costa considera que se o Pacote Laboral for aprovado pode ter fortes impactos na sua vida. \u201cEles querem imp\u00f4r o banco de horas. Estarmos a fazer mais horas sem receber por elas \u00e9 dar horas ao patr\u00e3o\u201d, denuncia. Simultaneamente, diz que a proposta \u00e9 uma afronta \u00e0 liberdade sindical porque tenta condicionar a interven\u00e7\u00e3o dos sindicatos nos locais de trabalho para defender os trabalhadores. Todos os trabalhadores devem ter consci\u00eancia dos seus direitos. Muitas vezes n\u00e3o t\u00eam e da\u00ed a import\u00e2ncia de dirigentes e delegados sindicais nos locais de trabalho que os possam informar e apoiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo uma sondagem do Bar\u00f3metro Intercampus, realizada em meados de abril, 77,3% dos inquiridos acreditavam que as altera\u00e7\u00f5es \u00e0 lei do trabalho iam beneficiar mais as empresas e 76,6% dos entrevistados defendia que a reforma deveria beneficiar antes os trabalhadores. Outro estudo realizado antes da greve geral de 11 de dezembro para o DN\/Aximage mostrava que 60% dos portugueses apoiavam esta forma de luta contra o Pacote Laboral e que se identificavam mais com os sindicatos do que com o governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Gabriela Costa, a greve geral foi importante porque \u201cconsciencializou as pessoas\u201d, ainda que ache que falta \u201cacordar\u201d mais gente, e considera que \u00e9 importante haver uma nova greve geral para \u201cdar um sinal vermelho a Montenegro\u201d. Numa indireta ao Chega e ao PS, esta trabalhadora defende que h\u00e1 o risco de certos partidos viabilizarem o Pacote Laboral e por isso a mensagem dos locais de trabalho e das ruas tem de ser potente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A import\u00e2ncia da greve geral<\/h2>\n\n\n\n<p>Membro da comiss\u00e3o executiva da CGTP-IN e coordenador da Frente Comum, Sebasti\u00e3o Santana considera que a luta \u201c\u00e9 a \u00fanica forma de impedir o governo de ir mais \u00e0 frente nas suas pretens\u00f5es\u201d. Desde logo, entende que a \u00faltima greve geral come\u00e7ou a ter impacto \u201clogo desde o seu an\u00fancio\u201d. Segundo este dirigente sindical, o governo queria levar \u201cimediatamente\u201d a proposta \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica e foi a convoca\u00e7\u00e3o da greve geral e \u201ca maci\u00e7a ades\u00e3o dos trabalhadores \u00e0 greve que impediu que isso se concretizasse\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase meio ano depois, o momento \u201cn\u00e3o \u00e9 muito diferente\u201d num quadro em que o governo \u201ccontinua a desrespeitar a Constitui\u00e7\u00e3o e a lei da negocia\u00e7\u00e3o, deixando a maior central sindical \u00e0 margem das mesas negociais e preferindo conversas de bastidores \u00e0 sede pr\u00f3pria, que \u00e9 o Conselho Econ\u00f3mico e Social\u201d. Para Sebasti\u00e3o Santana, a quest\u00e3o mais grave \u00e9 o conte\u00fado do Pacote Laboral, \u201cque representa um enorme retrocesso na vida de quem trabalha\u201d. Nesse sentido, aponta que o caminho \u00e9 a \u201cagudiza\u00e7\u00e3o da luta\u201d. Garante que este vai ser um grande 1.\u00ba de Maio, uma vez que o movimento sindical est\u00e1 a trabalhar nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA luta n\u00e3o vai poder ficar por aqui porque o governo aparentemente n\u00e3o quer abdicar de apresentar ao pa\u00eds um pacote dos patr\u00f5es. O pacote serve apenas e s\u00f3 os interesses do grande patronato e, portanto, o que vamos ter de continuar a fazer \u00e9 agudizar a luta para garantir que a proposta n\u00e3o entra em vigor\u201d, sublinha. Concomitantemente, refere a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o de todos os trabalhadores, incluindo os imigrantes. \u201c\u00c9 muito importante que toda a for\u00e7a de trabalho em Portugal e a for\u00e7a de trabalho s\u00e3o trabalhadores, s\u00e3o pessoas, adiram a esta luta. A luta contra o Pacote Laboral \u00e9 uma luta de todos. E, portanto, \u00e9 essencial que a for\u00e7a de trabalho de imigrantes em Portugal, ainda por cima, com problemas agudizados de explora\u00e7\u00e3o mais violenta em muitos setores, como sabemos, se junte \u00e0 luta\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois da massiva participa\u00e7\u00e3o nos diferentes protestos contra o Pacote Laboral, o governo n\u00e3o ouviu os trabalhadores e ir\u00e1 avan\u00e7ar com a proposta de reforma laboral. J\u00e1 neste 1.\u00ba de Maio, o secret\u00e1rio-geral da CGTP-IN anunciar\u00e1 uma importante e elevada forma de luta para junho, decidida pela central sindical para fazer frente \u00e0 ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e contra o aumento do custo de vida.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9985,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9983"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9983"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9983\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9987,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9983\/revisions\/9987"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9985"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9983"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}