{"id":9911,"date":"2026-04-06T09:03:53","date_gmt":"2026-04-06T09:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9911"},"modified":"2026-04-06T09:05:44","modified_gmt":"2026-04-06T09:05:44","slug":"policia-invade-a-voz-do-operario-e-prende-presidente-da-direcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/04\/06\/policia-invade-a-voz-do-operario-e-prende-presidente-da-direcao\/","title":{"rendered":"Pol\u00edcia invade A Voz do Oper\u00e1rio e prende presidente da dire\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reuni\u00e3o \u201csubversiva\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Em hor\u00e1rio p\u00f3s-laboral, decorria na sede d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio uma reuni\u00e3o sobre a vida interna da coletividade. Em quest\u00e3o estavam dificuldades na recolha de quotas. Era um trabalho que assentava nos cobradores que percorriam os bairros, indo ao encontro dos s\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa metodologia era generalizada. Na hist\u00f3ria do associativismo em Portugal, importa, ali\u00e1s, valorizar o papel desses cobradores, cujo trabalho era por regra remunerado com uma percentagem das quotas que recolhiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de assegurar o que era, ami\u00fade, a principal fonte de receita, o cobrador tamb\u00e9m era muitas vezes o principal contacto de s\u00f3cios dispersos com a coletividade. E numa associa\u00e7\u00e3o mais pequena havia apenas um cobrador. Imagine-se o papel central que ele tinha na vida dessa associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi, inclusive, um papel assumido por alguns destacados militantes da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A \u201cPI\u201d antes da PIDE<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Naquele dia, decorria a dita reuni\u00e3o com cerca de trinta participantes. Representavam v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os e comiss\u00f5es internas d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A dado momento, a reuni\u00e3o \u00e9 interrompida pela chamada \u201cPol\u00edcia de Informa\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio do Interior\u201d &#8211; uma esp\u00e9cie de \u201cPIDE antes da PIDE\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um agente comunica que houve uma den\u00fancia de que, \u00e0quela hora, se realizaria n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio uma reuni\u00e3o \u201csubversiva\u201d. E v\u00e1 de \u201cinformar\u201d que todos os presentes estavam detidos. E de os levar para o governo-civil, ent\u00e3o centro da autoridade policial na cidade de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o foi \u00e0 pancada. H\u00e1 at\u00e9 relato de que aconteceu de uma forma algo surreal, \u201cna melhor ordem e com todas as aten\u00e7\u00f5es\u201d, por parte dos agentes da tal \u201cPI\u201d que ainda n\u00e3o era \u201cPIDE\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos presos foi o ent\u00e3o presidente da dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Jos\u00e9 Greg\u00f3rio de Almeida. Sindicalista, era tamb\u00e9m secret\u00e1rio-geral da Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa dos Empregados no Com\u00e9rcio. Ao fim de algum tempo, ele foi chamado \u00e0 presen\u00e7a do diretor da Pol\u00edcia de Informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201csenhor diretor\u201d da \u201cPI\u201d ter\u00e1 dito que tinha pel\u2019A Voz do Oper\u00e1rio \u201ca maior das considera\u00e7\u00f5es\u201d. At\u00e9 pedia desculpa e \u201creconhecia que nenhum fundamento assistia para manter as deten\u00e7\u00f5es\u201d. Mas, com uma grande lata, alegou que este \u201cprocedimento\u201d se devia a uma den\u00fancia an\u00f3nima, assinada por um \u201cVidente\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, cerca da meia-noite, todos os presos em quest\u00e3o foram soltos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A caminho do fascismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Estudando o fen\u00f3meno numa perspectiva marxista, Rajani Palme Dutt concluiu que o principal objectivo do fascismo \u00e9 derrotar a classe trabalhadora e esmagar as suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Focando sobretudo as experi\u00eancias ocorridas em It\u00e1lia e na Alemanha, nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, Dutt apontou que \u201ca transi\u00e7\u00e3o para uma ditadura fascista n\u00e3o foi uma ruptura abrupta da pol\u00edtica burguesa\u201d, mas um processo gradual, numa \u201ccontinua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica burguesa por outras formas\u201d. E afirmou que \u201co Fascismo foi preparado e fomentado nas condi\u00e7\u00f5es da democracia burguesa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Utilizando esta refer\u00eancia te\u00f3rica, a pris\u00e3o do presidente (e quase trinta s\u00f3cios) d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, em Maio de 1927, \u00e9 um epis\u00f3dio que se situa num ponto interm\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Vigorava uma ditadura militar que j\u00e1 n\u00e3o era uma \u201cdemocracia burguesa\u201d. Mas ainda n\u00e3o era um regime de tipo fascista. O qual se tornaria realidade no final de 1933, com o chamado \u00abEstado Novo\u00bb. E quando este imp\u00f4s a dissolu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos antigos sindicatos livres. E atingiu o objetivo de \u201cesmagar\u201d as organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Experi\u00eancia portuguesa<\/h2>\n\n\n\n<p>Se recuarmos um pouco mais atr\u00e1s, ao tempo da \u201cliberal\u201d 1\u00aa Rep\u00fablica (1910-1926), j\u00e1 era frequente um certo n\u00edvel de repress\u00e3o contra as lutas e organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Sobretudo contra o movimento sindical.<\/p>\n\n\n\n<p>Jornais apreendidos; militantes presos e at\u00e9 deportados para \u00c1frica; sindicatos temporariamente encerrados. Sem esquecer a censura pr\u00e9via \u00e0 imprensa, durante a 1\u00aa Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>De tudo isto aconteceu na 1\u00aa Rep\u00fablica, enquanto forma de \u201cdemocracia burguesa\u201d. Ou seja, tamb\u00e9m no caso de Portugal a an\u00e1lise tra\u00e7ada por Palme Dutt encontra fundamento. Tamb\u00e9m por c\u00e1, \u201ca transi\u00e7\u00e3o para uma ditadura fascista n\u00e3o foi uma ruptura abrupta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A ditadura militar agravou a repress\u00e3o. Mas ainda n\u00e3o era um regime de tipo fascista. Ali\u00e1s, o seu primeiro presidente at\u00e9 seria depois um destacado resistente antifascista (o comandante Mendes Cabe\u00e7adas).<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele ano de 1927, j\u00e1 n\u00e3o foi poss\u00edvel comemorar o 1\u00ba de Maio em Lisboa com o habitual com\u00edcio da CGT no Parque Eduardo VII. Mas alguns sindicatos conseguiram permiss\u00e3o para um com\u00edcio em recinto fechado, o qual se realizou no sal\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo m\u00eas, por\u00e9m, a \u201cPol\u00edcia de Informa\u00e7\u00f5es\u201d p\u00f4s fim a um pilar do movimento sindical: o jornal di\u00e1rio&nbsp;<em>A Batalha<\/em>. E aproveitou para prender v\u00e1rios sindicalistas, entre eles dois antigos secret\u00e1rios-gerais da CGT (Jos\u00e9 Santos Arranha e Manuel da Silva Campos).<\/p>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio queria resolver um problema interno, com a cobran\u00e7a de quotas. Mas apanhou por tabela, no contexto desse novo patamar de repress\u00e3o anti-sindical\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu no dia 30 de Maio de 1927. Era o tempo da ditadura militar. E foi mais um passo na evolu\u00e7\u00e3o gradual do liberalismo para o fascismo.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":9914,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9911"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9911"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9911\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9913,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9911\/revisions\/9913"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9914"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9911"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}