{"id":9873,"date":"2026-03-08T15:23:34","date_gmt":"2026-03-08T15:23:34","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9873"},"modified":"2026-03-08T15:23:35","modified_gmt":"2026-03-08T15:23:35","slug":"o-choque-humano-e-cultural-de-o-piloto-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/03\/08\/o-choque-humano-e-cultural-de-o-piloto-americano\/","title":{"rendered":"O choque humano e cultural de \u201cO Piloto Americano\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Trata-se de um lugar de gente humilde, nos confins dos centros pol\u00edticos de decis\u00e3o do s\u00e9culo XXI. Do outro lado da barricada, osamericanos controlam o discurso e a mundi-viv\u00eancia do restante planeta. At\u00e9 que um jovem da for\u00e7a a\u00e9rea cai nas montanhas, ali perto. Alguma coisa pode ser feita. \u00c9 esse o pensamento de outro homem que tamb\u00e9m nos confronta \u2013 o negociador (Simon Frankel). O piloto \u00e9 arremessado para o celeiro do agricultor. Tem uma perna partida, mais-valia para o negociante, que vive do conflito entre a sua na\u00e7\u00e3o e as outras, para quem o lucro \u00e9 a palavra da exist\u00eancia. Tudo circula em torno do dinheiro, e ele d\u00e1 algumas notas ao agricultor em troca do tecto e da alimenta\u00e7\u00e3o do ref\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica assim estabelecida a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, que acarreta o dilema \u00e9tico-moral das personagens de&nbsp;<em>\u201cO Piloto Americano\u201d<\/em>. A mulher do agricultor, Sara (Andreia Bento), arranja medica\u00e7\u00e3o para o americano na aldeia, depois de o marido lhe dar o dinheiro. Tudo \u00e9 uma troca, e uma troca que envolve esse papel abstracto que gere o mundo. Sara est\u00e1 assustada com aquela presen\u00e7a, mas \u00e9 hospitaleira. Eva (Joana Calado), a filha, tamb\u00e9m nos conta que se sente algu\u00e9m especial, que atravessa esta iman\u00eancia e v\u00ea al\u00e9m do que aqui se passa. A rapariga fica fascinada com o piloto. Dan\u00e7a para ele uma m\u00fasica e coreografia contempor\u00e2neas; sabe poucas palavras em ingl\u00eas, e ambos ficam perdidos na tradu\u00e7\u00e3o das mesmas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O celeiro como teste da humanidade<\/h2>\n\n\n\n<p>O celeiro torna-se no centro desta aldeia. Aparece o comandante (Am\u00e9rico Silva), arrastado pela not\u00edcia de que existe um ref\u00e9m. Este \u00faltimo tenta exprimir-se na sua l\u00edngua, que, apesar de universalmente hegem\u00f3nica, s\u00f3 chega a estas popula\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de \u00edcones como o Duffy Duck, elo de liga\u00e7\u00e3o entre o piloto e o agricultor. Isto n\u00e3o basta para que o agricultor compreenda que tem \u00e0 sua frente um ser humano, influenciado pela imagem que o comandante transmite dos americanos. S\u00e3o \u201cos inimigos\u201d, e, nesse sentido, \u00e9 preciso tratar como valor de guerra aquele homem que caiu em territ\u00f3rio nacional. A viol\u00eancia e a dor s\u00e3o as aliadas deste homem que n\u00e3o v\u00ea o que sente o piloto, muito menos se preocupa se este tem sede ou fome. David Greig, autor do texto, numa entrevista dada me 2009 ao Financial Times, refere:&nbsp;<em>\u201cAs minhas pe\u00e7as t\u00eam sempre em algum lado, a ideia de que \u00e9 muito, muito dif\u00edcil ter uma conex\u00e3o verdadeira e ainda assim tentamos. \u00c9 aquela pergunta: quando encontras o que \u00e9 diferente de ti? Acolhe-lo? Tens medo dele? Apaixonas-te? Sobrecarrega-lo? Esse outro sobrecarrega-te?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez mais o colectivo Artistas Unidos vai buscar um texto que coloca o dedo na ferida do nosso&nbsp;<em>status quo&nbsp;<\/em>contempor\u00e2neo. Vivemos um choque cultural, mas tamb\u00e9m a separa\u00e7\u00e3o de cada um em rela\u00e7\u00e3o ao ser-se toler\u00e2ncia perante o outro que \u00e9 diferente, tem outros ideais, e de quem nos falaram de determinada maneira. Vivemos o confronto entre a escassez de uma comunidade representada por alguns alde\u00e3os, e o mundo no auge do seu capitalismo &#8211; que tem como s\u00edmbolo o jovem piloto, que \u00e9 belo, ouve centenas de m\u00fasicas no seu&nbsp;<em>ipod<\/em>, e amea\u00e7a constantemente os que lhe est\u00e3o a estender a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que lado pende a justi\u00e7a? O desfecho \u00e9 certeiro e esclarecedor de como, muitas vezes, a morte serve para a Hist\u00f3ria ser contada sob um ponto de vista un\u00edvoco, distante do que nos une como seres dotados de humanidade, liberdade e igualdade fraterna. Teria sido melhor que o piloto americano n\u00e3o tivesse aparecido entrado na vida destes camponeses? Provavelmente sim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na escurid\u00e3o, \u00e0 esquerda do palco, as personagens, sentadas, olham-nos. Do outro lado, a plateia silencia. Ent\u00e3o, um homem, o agricultor (R\u00faben Gomes), diz-nos que o piloto americano foi o ser humano mais belo que conheceu. \u201cEra desconcertante. No que me diz respeito, quanto mais cedo se fosse embora da minha cabana, melhor.\u201d Em \u201cO Piloto Americano\u201d, pe\u00e7a de David Greig encenada por Ant\u00f3nio Sim\u00e3o, levada a cena pelos Artistas Unidos no Teatro Variedades, em Lisboa, estamos num pa\u00eds sem nome e em guerra.<\/p>\n","protected":false},"author":155,"featured_media":9875,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9873"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/155"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9873"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9877,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9873\/revisions\/9877"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9873"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}