{"id":9868,"date":"2026-03-08T15:20:52","date_gmt":"2026-03-08T15:20:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9868"},"modified":"2026-03-08T15:20:52","modified_gmt":"2026-03-08T15:20:52","slug":"porque-sou-comunista-confissoes-de-um-jornalista-burgues-de-pedro-tadeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/03\/08\/porque-sou-comunista-confissoes-de-um-jornalista-burgues-de-pedro-tadeu\/","title":{"rendered":"Porque Sou Comunista \u2014 Confiss\u00f5es de um jornalista burgu\u00eas, de Pedro Tadeu"},"content":{"rendered":"\n<p>Num tempo assim, de desnorte e do \u201csalve-se quem puder\u201d, ainda \u00e9 licito festejarmos com j\u00fabilo, com genu\u00edno sentimento de orgulho, intuindo que \u201cnem tudo est\u00e1 perdido\u201d, um homem que vem \u00e0 pra\u00e7a, erguendo a face e afirmando, sem tibiezas, ser Comunista e nos diz das raz\u00f5es dessa condi\u00e7\u00e3o, mesmo sabendo que o pa\u00eds mudou, que os ventos que sopram s\u00e3o adversos a essa postura frontal e viril de dizer \u201csou comunista\u201d, em ch\u00e3o minado e onde germina o ran\u00e7o do mais s\u00f3rdido liberalismo e a usura campeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Tadeu teve essa coragem, rompeu os cercos do cinismo, do bolor de antanho que volta a invadir a cidade e a tentar sufocar-nos e veio dizer-nos o porque e o que \u00e9 ser comunista hoje, enumerando passo a passo essa postura cr\u00edtica, as raz\u00f5es de o ser e o compromisso c\u00edvico, humano e intelectual a que esse posicionamento obriga. O Eu que o autor, de modo inteligente e did\u00e1ctico, transforma num N\u00f3s, numa raz\u00e3o colectiva e premente: num conceptual compromisso com o Futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSou comunista\u201d, mesmo que essa frontalidade, esse modo de ser \u00edntegro e solid\u00e1rio, implique engulhos e rombos na fazenda, sabendo que a dignidade \u00e9 mais forte que os sofismas, que a habilidade de tecer paralogismos para enganar incautos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Tadeu, conhecido e respeitado jornalista, comentador pol\u00edtico nas tvs, o que o torna uma figura medi\u00e1tica, pr\u00f3xima do \u201cgrande p\u00fablico\u201d, assumindo nessa fun\u00e7\u00e3o o contradit\u00f3rio do discurso oficial e purulento que a maioria dos seus pares debita, fun\u00e7\u00e3o hoje rara na comunica\u00e7\u00e3o social, num pa\u00eds [ainda] democr\u00e1tico, onde essa pr\u00e1tica deveria ser normal e n\u00e3o, como \u00e9, uma excep\u00e7\u00e3o olhada de rev\u00e9s. Os que nos media burgueses ainda conseguem espa\u00e7o para remar contra a mar\u00e9 dos dias ignaros, est\u00e3o vivos, atentos e escrevem Sol!, ao contr\u00e1rio de outros que andam em busca de pretextos e de armas que lhes adornem os dentes e a bandoleira, aos gritos desesperados de \u201cviva l\u00e1 muerte\u201d, recuperando a frase sinistra do assassino fascista Millan-Astray, com a envolvente ret\u00f3rica dos dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>O subt\u00edtulo desta importante obra de Pedro Tadeu,&nbsp;<em>confiss\u00f5es de um jornalista burgu\u00eas,&nbsp;<\/em>remete-me para um famoso poema de M\u00e1rio Cesariny, no qual o poeta nos diz \u201cburgueses, todos somos burgueses\u201d, desenvolvendo no texto a ideia de que devemos romper com as regras, com toda a ganga que nos atrapalha os dias e inferniza a vida, concluindo que \u201co importante \u00e9 n\u00e3o se ser burgu\u00eas\u201d, apesar das origens.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Tadeu, logo nas primeiras p\u00e1ginas do livro, numa esp\u00e9cie de Pref\u00e1cio, coloca a interroga\u00e7\u00e3o central que desenvolver\u00e1 com l\u00facido detalhe ao longo das mais de 170 p\u00e1ginas: \u201cPorque sou Comunista no s\u00e9culo XXI?, respondendo:&nbsp;<em>\u201co processo come\u00e7ou em crian\u00e7a, \u00e0 medida em que me fui apercebendo que o mundo, da forma como estava contru\u00edda a sociedade humana, era uma m\u00e1quina de produ\u00e7\u00e3o constante de injusti\u00e7as\u201d (<\/em>p.7). S\u00e3o 26 as quest\u00f5es que o autor se coloca e \u00e0s quais ir\u00e1 responder de forma dial\u00e9ctica, pormenorizada e clara ao longo do texto. Em resposta \u00e0 quest\u00e3o, Porque os Comunistas n\u00e3o gostam de culpar indiv\u00edduos, responde:&nbsp;<em>A ideia de culpar indiv\u00edduos do passado por epis\u00f3dios terr\u00edveis da Hist\u00f3ria tende a esconder o problema da quest\u00e3o social que na verdade criou as condi\u00e7\u00f5es para que esses indiv\u00edduos cometessem, no julgamento do nosso tempo, esses actos horrendos, numa an\u00e1lise que branqueia regimes e sistemas pol\u00edticos\u201d,&nbsp;<\/em>o que nos remete, por sua vez, para a passagem do&nbsp;<em>Manifesto do Partido Comunista,&nbsp;<\/em>que encima o cap\u00edtulo:&nbsp;<em>A hist\u00f3ria de toda a sociedade at\u00e9 aqui \u00e9 a hist\u00f3ria de lutas de classes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O processo jornal\u00edstico de colocar quest\u00f5es a que o pr\u00f3prio Pedro Tadeu responde \u00e9 eficaz, fazendo-o numa linguagem directa e envolvente, tornando o discurso acess\u00edvel e de agrad\u00e1vel leitura, ao qual o p\u00fablico menos versado em quest\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas (o ide\u00e1rio marxista \u00e9 complexo para iniciados), aceder\u00e1 com facilidade, dada a forma simples e objectiva do modo narrativo do autor, que n\u00e3o recorre a jarg\u00f5es nem a c\u00f3digos academizantes, aos quais alguns autores do tema em an\u00e1lise recorrem, da\u00ed o \u00eaxito editorial que o livro tem obtido.<\/p>\n\n\n\n<p>Termino este texto com mais uma das pertinentes quest\u00f5es levantadas por Pedro Tadeu: Porque os comunistas s\u00e3o antifascistas, e a resposta do autor \u00e9 precisa e muito actual:&nbsp;<em>Se a sociedade aceitar que o regime do Estado Novo era fascista, est\u00e1 apenas a confirmar a defini\u00e7\u00e3o que lhe deram in\u00fameras pessoas que viveram esses tempos, nomeadamente as v\u00edtimas da ditadura salazarista: os mais de 30 mil presos pol\u00edticos, os cerca de 200 assassinados por motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, , os presos e mortos do campo de concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal, os milhares de torturados em interrogat\u00f3rio, os pol\u00edticos de v\u00e1rios quadrantes que tentaram a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura, os que nas col\u00f3nias lutaram pela independ\u00eancia dos seus pa\u00edses, os soldados que foram fazer a guerra colonial e os in\u00fameros cidad\u00e3os an\u00f3nimos, ainda vivos, que se lembram bem do que aquilo era. (p.121).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Hist\u00f3ria dos \u00faltimos cem anos portugueses passa por este livro, por esta an\u00e1lise arguta e s\u00e9ria, n\u00e3o dogm\u00e1tica, baseada na raz\u00e3o de ser, da ac\u00e7\u00e3o, da luta e do modo de entender os complexos fen\u00f3menos sociais, pol\u00edticos e humanos do nosso tempo, a partir das \u201cconfiss\u00f5es\u201d, do discurso assertivo, fluente e justo de um comunista. Um livro indispens\u00e1vel!<\/p>\n\n\n\n<p><em>Porque sou Comunista \u2013 Confiss\u00f5es de um jornalista burgu\u00eas \u2013 Edi\u00e7\u00e3o Zigurarte\/2025.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num tempo de embustes e disfarces, de m\u00e1scaras e de hipocrisia, da \u201cmoral a juros\u201d, como dizia o Almada Negreiros, da mentira soez como estatuto e modo de ir aguentando a vidinha, o pec\u00falio e a promo\u00e7\u00e3ozinha de cerviz dobrada at\u00e9 que os restos do que foi um homem se metamorfoseei, em processo kafkiano, num r\u00e9ptil, este livro de Pedro Tadeu \u00e9 uma pedra no charco.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":9870,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9868"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9868"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9868\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9872,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9868\/revisions\/9872"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9868"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9868"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9868"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9868"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}