{"id":9838,"date":"2026-03-08T14:53:05","date_gmt":"2026-03-08T14:53:05","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9838"},"modified":"2026-04-06T09:13:05","modified_gmt":"2026-04-06T09:13:05","slug":"a-sensacao-de-abandono-no-interior-ajuda-a-minar-a-coesao-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/03\/08\/a-sensacao-de-abandono-no-interior-ajuda-a-minar-a-coesao-nacional\/","title":{"rendered":"\u201cA sensa\u00e7\u00e3o de abandono [no interior] ajuda a minar a coes\u00e3o nacional\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">\u00c9 previs\u00edvel que nos pr\u00f3ximos anos haja mais eventos extremos como aqueles que aconteceram este inverno em Portugal?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que \u00e9 extremamente previs\u00edvel e, at\u00e9 agora, nada do que n\u00f3s vimos nesta sequ\u00eancia de eventos nos indica que seja uma coisa absolutamente inesperada e irrepet\u00edvel. Ou seja, acho que os cientistas t\u00eam vindo a alertar, durante d\u00e9cadas e d\u00e9cadas, para os perigos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e n\u00f3s temos dezenas, centenas, se calhar at\u00e9 milhares de estudos a explicar que os eventos extremos v\u00e3o aumentar de frequ\u00eancia, v\u00e3o atingir intensidades maiores. Estamos a falar de vagas de calor, estamos a falar de cheias com volumes de precipita\u00e7\u00e3o muito grandes, que aconteceu tamb\u00e9m agora aqui em Portugal, estamos a falar de eventos muito fortes e, portanto, tudo isto acaba por ser resultante das leis da f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00f3s continuarmos a queimar combust\u00edveis f\u00f3sseis em quantidades extraordin\u00e1rias, que \u00e9 o que tem acontecido, n\u00f3s sabemos que o planeta vai aquecer em termos m\u00e9dios. O calor, vai para a atmosfera e vai tamb\u00e9m, em grande parte, para os oceanos. Portanto, temos oceanos muito mais quentes, que t\u00eam estado a absorver a maior parte deste calor extra e que, por sua vez, potenciam a ocorr\u00eancia de tempestades muito mais poderosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ciclones formam-se, por exemplo, sobre o oceano e, uma vez que as \u00e1guas do mar est\u00e3o agora muito mais quentes, tamb\u00e9m h\u00e1 mais evapora\u00e7\u00e3o, com estas tempestades a carregarem mais energia. Portanto, quando chegam \u00e0 costa, neste caso a Portugal, trazem muito mais intensidade do que acontecia noutras alturas, com mais velocidade, com ventos mais fortes. Isto leva-nos em duas dire\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 que o territ\u00f3rio nacional n\u00e3o est\u00e1 claramente adaptado para lidar com estes tipos de situa\u00e7\u00f5es. E depois, se n\u00f3s n\u00e3o levarmos a s\u00e9rio a agenda da descarboniza\u00e7\u00e3o a n\u00edvel mundial, a situa\u00e7\u00e3o vai continuar a piorar e a deteriorar-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Num planeta em que cresce a extrema-direita, a par do negacionismo e da desinforma\u00e7\u00e3o, ainda \u00e9 poss\u00edvel evitar o pior? E antecipando as piores previs\u00f5es num contexto de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o que podem esperar as gera\u00e7\u00f5es futuras?<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, pessoalmente, acho que n\u00e3o faz sentido, usar o termo extin\u00e7\u00e3o, por exemplo. Neste momento, somos 8,2 mil milh\u00f5es de seres humanos no planeta e o pior cen\u00e1rio poss\u00edvel da crise clim\u00e1tica seria o fim, por exemplo, do gelo na Ant\u00e1rtida com os n\u00edveis do mar a subir 60 metros ou mais, mas nada disso seria suficiente para causar a extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana. Agora, podemos estar a falar de uma extin\u00e7\u00e3o de 80 a 90% nos pr\u00f3ximos 100 anos. Eu acho que isso depende do que as gera\u00e7\u00f5es presentes fizerem agora neste momento e as decis\u00f5es que tomarem.<\/p>\n\n\n\n<p>Se anteciparmos cen\u00e1rios catastr\u00f3picos e os piores cen\u00e1rios poss\u00edveis, eu diria que eles s\u00e3o incrivelmente maus. Toda a gente j\u00e1 viu os filmes do Mad Max e percebemos at\u00e9 onde \u00e9 que as coisas podem ir. Agora, Donald Trump n\u00e3o era presidente h\u00e1 um ano e meio, por exemplo, e \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o v\u00e1 ser daqui a tr\u00eas anos, quem diz Trump tamb\u00e9m diz outras figuras influentes no mundo e, portanto, acho que n\u00f3s n\u00e3o estamos condenados irreversivelmente ao falhan\u00e7o ou aos piores cen\u00e1rios poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Este n\u00e3o \u00e9 o primeiro evento extremo a que Portugal est\u00e1 sujeito. O pa\u00eds n\u00e3o devia j\u00e1 estar preparado para enfrentar de outra forma este tipo de calamidades? Como \u00e9 que se explica, por exemplo, que n\u00e3o haja uma dota\u00e7\u00e3o de geradores \u00e0s autarquias para prevenir estas situa\u00e7\u00f5es? O que devia ter sido feito?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu diria que n\u00e3o \u00e9 claramente uma prioridade. Muitas vezes, assisti, em reuni\u00f5es cient\u00edficas, em reuni\u00f5es com l\u00edderes locais, a uma certa minimiza\u00e7\u00e3o destes problemas. Mesmo agora, ainda t\u00e3o pr\u00f3ximos do que aconteceu, j\u00e1 come\u00e7a a haver um recuo. At\u00e9 mesmo, enquanto estava a acontecer, como vimos logo da parte do governo numa tentativa de criar uma narrativa de que as coisas tinham corrido bem. Desde o primeiro momento, o Primeiro Ministro tentou passar esta ideia e aquilo que se observa no terreno \u00e9 um bocado diferente. Com os inc\u00eandios, quando chegamos a setembro, parece que j\u00e1 ningu\u00e9m quer saber, como se o tempo mudasse automaticamente, e a sensa\u00e7\u00e3o que me d\u00e1 \u00e9 que o governo, as autoridades municipais, voltam um bocadinho \u00e0 vida do costume. As infraestruturas est\u00e3o sempre subfinanciadas, nunca h\u00e1 dinheiro para as coisas realmente importantes, os territ\u00f3rios n\u00e3o s\u00e3o uma prioridade. Se pensarmos, por exemplo, na quest\u00e3o dos inc\u00eandios que ocorrem em territ\u00f3rios com baixa densidade profissional, n\u00e3o s\u00e3o uma prioridade pol\u00edtica. Portanto, acho que as quest\u00f5es s\u00e3o cronicamente desvalorizadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Falou dos inc\u00eandios e, meio ano depois, mais de metade dos apoios continua por pagar. \u00c9 tamb\u00e9m aqui que o Estado perde a confian\u00e7a dos cidad\u00e3os?<\/p>\n\n\n\n<p>Concordo que isso cria imensa desconfian\u00e7a e tamb\u00e9m tem, se calhar, aberto caminho para esta cavalgada das for\u00e7as populistas e de extrema direita. Vimos agora, por exemplo, tamb\u00e9m, na regi\u00e3o de Leiria, as pessoas a dizer que se sentiam abandonadas. Os rep\u00f3rteres iam l\u00e1 e as pessoas diziam que eram os primeiros a ir ali. Portanto, h\u00e1 esta sensa\u00e7\u00e3o de abandono nestes territ\u00f3rios. E isto \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que ajuda a minar a coes\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">H\u00e1 uma tend\u00eancia cada vez maior para o Estado entregar servi\u00e7os essenciais aos privados, seja na preven\u00e7\u00e3o como na resposta a esses eventos extremos: recordo o Siresp, a REN, as seguradoras, avia\u00e7\u00e3o privada no combate aos fogos. Isto n\u00e3o constitui um problema na medida em que o Estado abdica de ferramentas estrat\u00e9gicas para a seguran\u00e7a do pa\u00eds?<\/p>\n\n\n\n<p>Claramente, sim. Pessoalmente, acho que isto nem sequer devia ser uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica. Muitas vezes h\u00e1 este debate entre partidos ou economistas mais de direita que defendem a privatiza\u00e7\u00e3o, que defendem a economia privada e partidos e for\u00e7as \u00e0 esquerda que defendem uma perspetiva mais coletiva. Contudo, penso que \u00e9 preciso encontrar aqui consensos no sentido de que estruturas absolutamente fundamentais para a vida das pessoas, para a exist\u00eancia do Estado portugu\u00eas, para a seguran\u00e7a do territ\u00f3rio, n\u00e3o podem ser deixadas aos privados. Isto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica porque n\u00f3s n\u00e3o conseguimos compatibilizar a procura do lucro a todo custo, que \u00e9 no fundo esse o objetivo de uma empresa privada, com a garantia de servi\u00e7os m\u00ednimos e com a garantia de bons servi\u00e7os \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Do outro lado da moeda, vemos um pa\u00eds mobilizado para ajudar as regi\u00f5es afectadas. Acha que h\u00e1 uma maior compreens\u00e3o destes fen\u00f3menos e consequentemente tamb\u00e9m uma maior solidariedade?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, sim. \u00c9 poss\u00edvel que as pessoas estejam um bocadinho mais despertas para essas possibilidades, mas eu penso que, essencialmente, tamb\u00e9m reflete uma carater\u00edstica muito humana de querer ajudar. Acho que \u00e9 uma quest\u00e3o de solidariedade, de voluntarismo, e que \u00e9 muito importante. Acho que, em muitos casos, numa primeira fase pode ter feito uma grande diferen\u00e7a, mas depois temos que lembrar que da maneira como a sociedade est\u00e1 organizada hoje em dia, de uma forma extremamente complexa, e que depende de imensa tecnologia, seja da eletricidade, seja das telecomunica\u00e7\u00f5es, etc, este voluntarismo das pessoas, que \u00e9 absolutamente louv\u00e1vel e que \u00e9 muito, muito importante, n\u00e3o pode substituir as autarquias e n\u00e3o pode substituir o Estado central, como tamb\u00e9m n\u00e3o pode substituir as grandes empresas nestes setores. E, portanto, acho que isto n\u00e3o pode ser usado como desculpa para o Estado n\u00e3o precisar de fazer assim tanto porque as pessoas se chegam \u00e0 frente e tomam conta umas das outras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 absolutamente fundamental que as pessoas se ajudem, mas precisamos de infraestruturas e precisamos de servi\u00e7os, n\u00e3o \u00e9? Vou dar um exemplo. Se uma parte da A1 cai devido \u00e0s cheias eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que tenha os conhecimentos para ir l\u00e1 individualmente, com os amigos, reparar aquilo. N\u00f3s temos toda uma s\u00e9rie de institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam de estar a funcionar muito bem, t\u00eam de priorizar estes acontecimentos, t\u00eam de perceber que isto vai acontecer mais vezes e t\u00eam que preparar os territ\u00f3rios com planos de conting\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 para o tipo de cen\u00e1rios que aconteceram, mas para cen\u00e1rios ainda piores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Falava na quest\u00e3o do territ\u00f3rio e a minha pergunta vai no sentido do ordenamento territorial, se acha que vivemos num pa\u00eds que tem tudo para correr mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez mais, acho que houve m\u00e1s pol\u00edticas p\u00fablicas nas \u00faltimas quatro ou cinco d\u00e9cadas. Acho que se permitiu que houvesse uma excessiva liberaliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Houve um esvaziamento do interior e agora a maior parte da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 toda concentrada numa faixa muito curta junto ao mar. Acho que em termos de planeamento urbano, por exemplo, permitiu-se que os sub\u00farbios crescessem de forma descontrolada. Se calhar o mais dif\u00edcil agora \u00e9 mesmo pensar como \u00e9 que revertemos essa situa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 que arranjar forma de tornar o interior atrativo e pensar numa forma de entender as nossas florestas e o nosso territ\u00f3rio mais acess\u00edveis, utilizados e visitados. Temos de falar tamb\u00e9m, por exemplo, na quest\u00e3o da agricultura e tamb\u00e9m das grandes monoculturas, da agricultura intensiva de escala industrial e das pequenas e m\u00e9dias explora\u00e7\u00f5es e de como podem sobreviver neste contexto. Como \u00e9 que se pode produzir e vender, por exemplo, alimentos de forma mais local e ter uma manta de culturas muito mais diversa para evitar o risco de pragas, tamb\u00e9m potenciadas pelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 f\u00edsico de forma\u00e7\u00e3o, doutorado em Altera\u00e7\u00f5es Clim\u00e1ticas e Pol\u00edticas de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel pela Universidade Nova de Lisboa, com especialidade em Sistemas Energ\u00e9ticos Sustent\u00e1veis. Lu\u00eds Fazendeiro \u00e9 ainda co-autor de cerca de duas dezenas de artigos cient\u00edficos, em v\u00e1rias \u00e1reas, incluindo ci\u00eancias computacionais, fus\u00e3o nuclear e modela\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, tendo publicado em 2023 o livro \u201cSobre a Mudan\u00e7a: Justi\u00e7a Clim\u00e1tica e Transi\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica no S\u00e9culo XXI\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9840,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9838"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9838"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9923,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9838\/revisions\/9923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9838"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}