{"id":9830,"date":"2026-03-08T14:39:08","date_gmt":"2026-03-08T14:39:08","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9830"},"modified":"2026-03-08T14:39:09","modified_gmt":"2026-03-08T14:39:09","slug":"dos-que-ergueram-a-republica-e-a-sede-da-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/03\/08\/dos-que-ergueram-a-republica-e-a-sede-da-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"Dos que ergueram a Rep\u00fablica e a sede d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Chamava-se Porf\u00edrio Augusto. E foi um dos principais respons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o da monumental sede d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, inaugurada no final de 1922.<\/p>\n\n\n\n<p>Preso pol\u00edtico sob o regime da monarquia \u201cliberal\u201d, foi tamb\u00e9m um precursor da revolu\u00e7\u00e3o republicana, de Outubro de 1910.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhador na ind\u00fastria de tabaco, ainda participou na resist\u00eancia sindical face \u00e0 ditadura militar, pouco antes de falecer, em 1929.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Transmontano<\/h2>\n\n\n\n<p>Porf\u00edrio Augusto nasceu a 22 de Abril de 1859, numa aldeia de Tr\u00e1s-os-Montes: Ervedosa, no concelho de Vinhais.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa perspetiva de hist\u00f3ria regional, \u00e9 de notar que ele foi um dos transmontanos que salientaram no antigo movimento sindical portugu\u00eas. Ao lado de figuras como Bento Gon\u00e7alves (que foi secret\u00e1rio-geral do sindicato do Arsenal da Marinha) e Ant\u00f3nio Teixeira Danton (inicialmente dirigente ferrovi\u00e1rio e depois do sindicato da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fortunas do tabaco<\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de ter sido presidente d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Porf\u00edrio Augusto liderou tamb\u00e9m o sindicato do chamado \u201cpessoal extraordin\u00e1rio\u201d da ind\u00fastria tabaqueira em Lisboa. O nome oficial era \u00abAssocia\u00e7\u00e3o de Classe do Pessoal dos Tabacos, admitido depois de 15 de Maio de 1890\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um sindicato legalizado j\u00e1 sob o regime da 1\u00aa Rep\u00fablica, em 1911. E que acabaria dissolvido pela ditadura de Salazar, no final de 1933.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradicionalmente, a ind\u00fastria do tabaco era um exclusivo do estado, mas frequentemente arrendado a empresas privadas. No seu estudo sobre \u201cNeg\u00f3cios e Pol\u00edtica: os tabacos (1800-1890)\u201d, Maria Filomena M\u00f3nica concluiu que esta ind\u00fastria constitu\u00eda \u201cum dos mais seguros meios de acumular fortuna em Portugal\u201d [<em>An\u00e1lise Social<\/em>, 1992, p.462]. Mas os trabalhadores que produziam essa fortuna n\u00e3o beneficiavam dela. Chegaram mesmo a ser dos mais miser\u00e1veis e sobre-explorados\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ter sido nacionalizado, em 1888, a troco de chorudas indemniza\u00e7\u00f5es, o monop\u00f3lio do tabaco foi novamente entregue a privados, em 1890. E dessa vez com um contrato de concess\u00e3o especialmente longo. Duraria at\u00e9 1906, sendo ent\u00e3o renovado por 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A negociata com o final desse contrato ter\u00e1 sido, ali\u00e1s, uma das causas do golpe que instaurou a ditadura militar, em 1926\u2026<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sindicalista<\/h2>\n\n\n\n<p>A entrega do setor a privados, em 1890, foi acompanhada por uma discrimina\u00e7\u00e3o dos trabalhadores contratados a partir dessa data. E foi esta situa\u00e7\u00e3o que Porf\u00edrio Augusto enfrentou. Ele que tamb\u00e9m era casado com uma oper\u00e1ria tabaqueira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a sua a\u00e7\u00e3o como sindicalista n\u00e3o se fechou numa&nbsp;l\u00f3gica corporativa, limitada apenas ao seu setor profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 1911 ocorreu a primeira grande greve de ferrovi\u00e1rios em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas v\u00e9speras do acontecimento, Porf\u00edrio Augusto discursou num com\u00edcio de apoio \u00e0 luta desses trabalhadores. Na altura pela redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho para 8 horas di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve lugar na cooperativa Caixa Econ\u00f3mica Oper\u00e1ria. E Porf\u00edrio Augusto falou do novo regime republicano. Disse que devia \u201cterminar com as injusti\u00e7as do capital contra o trabalho\u201d. Criticou \u201cos poderes p\u00fablicos\u201d que \u201catendem os capitalistas [&#8230;], fazendo-lhes concess\u00f5es vantajosas e negam \u00e0s classes trabalhadoras melhorias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Afirmou que \u201co povo oper\u00e1rio foi o verdadeiro implantador da Rep\u00fablica, e que ser\u00e1 ainda ele amanh\u00e3, no caso de perigo, quem pegar\u00e1 nas armas para a defender\u201d. Mas alvitrou ser \u201cnecess\u00e1rio que o governo tome em considera\u00e7\u00e3o as justas reclama\u00e7\u00f5es das classes trabalhadoras\u201d&#8230; [DN, 09\/01\/1911, p.3].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Republicano<\/h2>\n\n\n\n<p>Na diversidade ideol\u00f3gica do antigo movimento sindical, Porf\u00edrio Augusto exemplifica a import\u00e2ncia do republicanismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1906, foi um dos fundadores do Centro Escolar Republicano Fern\u00e3o Botto Machado, ent\u00e3o sediado numa zona de popula\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria: a rua do Vale de Santo Ant\u00f3nio. E foi depois o seu primeiro presidente da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nota biogr\u00e1fica, da \u00e9poca, descreveu-o como um \u201crepublicano hist\u00f3rico\u201d, que figura \u201cdesde h\u00e1 trinta anos no n\u00fameros dos [&#8230;] correligion\u00e1rios mais dedicados\u201d, a quem o Partido Republicano Portugu\u00eas deve \u201cservi\u00e7os muito assinalados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E contou que tendo ele ido residir para a freguesia de Santa Engr\u00e1cia (hoje englobada na freguesia de S. Vicente), \u201conde o partido estava desorganizado\u201d, Porf\u00edrio Augusto, ali soube \u201cconciliar vontades e reunir homens de valor [&#8230;], merc\u00ea da sua intelig\u00eancia, servida por uma vontade sadia\u201d. E ali \u201cse levantou o partido \u00e0 altura de poder oferecer luta \u00e0s hostes mon\u00e1rquicas, que naquela freguesia disp\u00f5em de caciques cuja influ\u00eancia se julgava invulner\u00e1vel\u201d [<em>Vanguarda<\/em>, 08\/05\/1907, p.1].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Preso pol\u00edtico<\/h2>\n\n\n\n<p>A mesma nota biogr\u00e1fica enalteceu a sua a\u00e7\u00e3o no Gr\u00e9mio Lusitano (afeto \u00e0 ma\u00e7onaria), n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, em sindicatos e associa\u00e7\u00f5es mutualistas. Afirmando que \u201cem todos os redutos associativos se encontra Porf\u00edrio Augusto propugnando pela liberdade, pela fraternidade e pelas melhores reivindica\u00e7\u00f5es das classes trabalhadoras\u201d [<em>ibidem<\/em>].<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sob a monarquia \u201cliberal\u201d, Porf\u00edrio Augusto foi preso pol\u00edtico, sob a acusa\u00e7\u00e3o de pertencer a um movimento revolucion\u00e1rio, clandestino e armado &#8211; a Carbon\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento teria, efetivamente, um papel central na revolu\u00e7\u00e3o que implantou a Rep\u00fablica, em 5 de Outubro de 1910\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem foi Porf\u00edrio Augusto, um dos principais respons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o da sede d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio na Gra\u00e7a?<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":9831,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9830"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9830"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9830\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9833,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9830\/revisions\/9833"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9831"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9830"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9830"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9830"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9830"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}