{"id":9791,"date":"2026-03-05T16:41:11","date_gmt":"2026-03-05T16:41:11","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9791"},"modified":"2026-04-06T09:14:23","modified_gmt":"2026-04-06T09:14:23","slug":"luta-das-mulheres-para-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/03\/05\/luta-das-mulheres-para-que\/","title":{"rendered":"Luta das mulheres \u2014 para qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos s\u00e9culos, no contexto do capitalismo, estas din\u00e2micas t\u00eam assumido express\u00f5es particularmente violentas, que produzem e reproduzem realidades, concep\u00e7\u00f5es, formas de estar, com as consequ\u00eancias que vemos: sobre-explora\u00e7\u00e3o no mundo laboral (menor sal\u00e1rio, menor possibilidade de progress\u00e3o, menos acesso a lugares de topo\/mais bem remunerados), maior sobrecarga nas din\u00e2micas familiares e dom\u00e9sticas, maior vulnerabilidade a cat\u00e1strofes naturais e guerras.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta das mulheres \u2014 que tem no dia 8 de Mar\u00e7o o seu marco anual internacional \u2014 n\u00e3o \u00e9, em si, consensual. Ignorando concep\u00e7\u00f5es retr\u00f3gradas que se t\u00eam vulgarizado, procurando ridicularizar e invalidar a relev\u00e2ncia desta causa, o que \u00e9 facto \u00e9 que os pr\u00f3prios campos que assumem a sua validade n\u00e3o o fazem com os mesmos significados e sentidos. H\u00e1 uma disputa \u2014 na qual importa cada vez mais ocupar um lugar \u2014 que projecta horizontes de transforma\u00e7\u00e3o muito distintos, muitos deles antag\u00f3nicos. Importa dizer, por exemplo, que qualquer ideia minimamente consequente de&nbsp;progresso&nbsp;precisa de recusar l\u00f3gicas liberais de emancipa\u00e7\u00e3o, onde a \u201cigualdade\u201d da mulher n\u00e3o mais pretende do que significar a liberdade desta para assumir lugares no topo da cadeia da opress\u00e3o, como se a emancipa\u00e7\u00e3o se garantisse ao criar o feminino de todas as categorias sociais (passarmos a ter exploradores e exploradoras). E enquanto este for, no essencial, o quadro que nos serve para perspectivar conquistas, a ideia de liberta\u00e7\u00e3o de todas \u2014 e todos \u2014 estar\u00e1, inevitavelmente, condenada, porque haver\u00e1 sempre necessidade de vulnerabilizar uma parte do colectivo, e toda a opress\u00e3o \u00e9 humanamente inaceit\u00e1vel e fal\u00edvel enquanto parte integrante do projecto de sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>No entretanto, esta \u00e9 a realidade que conhecemos. Uma realidade onde todas as dimens\u00f5es da vida s\u00e3o colocadas n\u00e3o como potencialidades, mas como agress\u00f5es: a pr\u00f3pria juventude \u00e9 transformada em factor de viol\u00eancia quando se imp\u00f5e como \u00fanico modelo atrav\u00e9s do qual se mant\u00e9m o prazo de validade\/valor da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, mat\u00e9rias como os direitos sexuais e reprodutivos ficam envoltas em discuss\u00f5es absolutamente contradit\u00f3rias, onde as respostas dificilmente s\u00e3o clarividentes. Por exemplo, emancipa\u00e7\u00e3o \u00e9 eu poder aceder a tratamentos complexos para prolongar a minha fertilidade at\u00e9 aos limites do corpo, porque as din\u00e2micas impostas pelo mercado de trabalho me fizeram crer que a maternidade podia sempre esperar?<\/p>\n\n\n\n<p>Para muitas que se empenham nesta luta, est\u00e1 claro que ela n\u00e3o gravita em torno de um qualquer desejo de igualdade de natureza, ou onde o progresso t\u00e9cnico-cient\u00edfico d\u00e1 resposta \u00e0 potencializa\u00e7\u00e3o do lucro mascarado de respostas a \u201cnaturais\u201d desejos femininos, mas t\u00e3o s\u00f3 da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade fraterna e solid\u00e1ria, de liberdade para nos desenvolvermos e realizarmos, sem que a biologia continue a ser tratada n\u00e3o como ponto de partida nem como desculpa de determina\u00e7\u00e3o absoluta para os pap\u00e9is estritos que nos cabem, para o que poderemos concretizar ou sequer desejar.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos mat\u00e9ria de contradi\u00e7\u00e3o. Somos indistingu\u00edveis das marcas de s\u00e9culos de opress\u00e3o, desigualdade, menoriza\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia e emancipa\u00e7\u00e3o. Somos este produto espec\u00edfico&nbsp;\u2014&nbsp;os \u00fanicos sujeitos com ag\u00eancia para construir futuro&nbsp;\u2014&nbsp;e \u00e9 sendo isto que somos que, revoltadas e esperan\u00e7adas, teremos de prosseguir a constru\u00e7\u00e3o do lugar onde a igualdade \u00e9 o quotidiano de todas as realiza\u00e7\u00f5es poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 este lugar que estar\u00e1 a ser reclamado no pr\u00f3ximo dia 8 de Mar\u00e7o, nas manifesta\u00e7\u00f5es que o MDM (Movimento Democr\u00e1tico de Mulheres) convocou para todo o pa\u00eds. Em Lisboa, encontramo-nos \u00e0s 14h30, nos Restauradores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da diversidade humana como argumento para a opress\u00e3o tem tanto de aberrante como de ancestral. Mas a resposta dos colectivos humanos a esta tentativa de naturaliza\u00e7\u00e3o caminha em paralelo.<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":9793,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[72],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9791"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9791"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9791\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9926,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9791\/revisions\/9926"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9793"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9791"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9791"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9791"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9791"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}