{"id":9772,"date":"2026-02-10T12:48:24","date_gmt":"2026-02-10T12:48:24","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9772"},"modified":"2026-03-05T16:41:38","modified_gmt":"2026-03-05T16:41:38","slug":"somos-todos-sns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/02\/10\/somos-todos-sns\/","title":{"rendered":"Somos todos SNS!"},"content":{"rendered":"\n<p>Em abono da verdade, o SNS, desde que foi criado, h\u00e1 46 anos, j\u00e1 acrescentou 14 anos \u00e0 nossa esperan\u00e7a de vida \u00e0 nascen\u00e7a, levando-nos da cauda ao topo da Europa neste \u00edndice. Estamos at\u00e9 acima da m\u00e9dia europeia (dos 68,3 anos no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, passamos para os 82,7 em 2024).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o SNS fez mais: reduziu-nos drasticamente a mortalidade infantil, que em 1974\/75 apresentava dos piores registos europeus (38 a 39 \u00f3bitos por cada 1000 nados vivos) e, neste momento temos das melhores taxas do Mundo (menos de 3 por 1000 nados vivos).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o SNS \u00e9 tamb\u00e9m a vis\u00e3o da sa\u00fade como um bem que se previne, levando a todo o pa\u00eds os cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios, permitindo acautelar, mas tamb\u00e9m rastrear precocemente doen\u00e7as graves, melhorando e inovando nas terapias, nos meios de diagn\u00f3stico e nas cirurgias, uma refer\u00eancia na transplanta\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os, na massifica\u00e7\u00e3o do processo e no alargando do Plano Nacional de Vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O COVID, \u00e9, ali\u00e1s, a grande prova de fogo. Comparem-se as taxas de mortalidade onde vigoram os sistemas privados de sa\u00fade ou mesmo os sistemas mistos, j\u00e1 para n\u00e3o falar dos EUA, e vejamos o SNS. \u00c9, pois, deste SNS que falamos, n\u00e3o de perce\u00e7\u00e3o, mas de n\u00fameros, e, sobretudo, de realidades contadas na primeira pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Hugo Alves (ver texto ao lado) doente oncol\u00f3gico, d\u00e1-nos o seu testemunho: \u201cSe tivesse optado pelo privado, muito provavelmente j\u00e1 n\u00e3o estaria aqui para contar esta hist\u00f3ria\u201d, diz-nos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A crise for\u00e7ada nos Cuidados de Sa\u00fade Prim\u00e1rios<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0s onze da noite da v\u00e9spera do primeiro dia \u00fatil de cada m\u00eas come\u00e7am a chegar \u00e0 Unidade de Cuidados de Sa\u00fade Personalizados de Odivelas os primeiros utentes. A noite \u00e9 sempre longa, mas esta \u00e9 particularmente fria e chuvosa, \u00e9 o segundo dia do ano 2026. Embrulhado numa manta, o primeiro a chegar abre o banco articulado e senta-se, encostado ao muro que separa o largo do centro de sa\u00fade, do passeio. E, pouco a pouco, o muro vai ficando forrado de gente, numa ordem de chegada sacramental e definidora, dez horas mais tarde, da ordem pela qual se ir\u00e1 processar a entrega de senhas aos candidatos a uma consulta de medicina familiar. Mas ainda \u00e9 cedo, para todos os que ali j\u00e1 est\u00e3o, esta vai ser uma noite longa e fria de espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns, este \u00e9 o pre\u00e7o de uma primeira consulta, para outros nem isso, apenas pretendem um n\u00famero de utente, j\u00e1 que equipa de sa\u00fade familiar ningu\u00e9m lhas garante, nem o governo que, sabendo as dificuldades deste centro, com mais de 22 mil utentes nestas condi\u00e7\u00f5es (60% do total de inscritos), n\u00e3o destinou nem uma \u00fanica vaga no concurso para m\u00e9dicos de fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada que n\u00e3o se repita, por estranho que pare\u00e7a, numa grande parte das Unidade de Cuidados de Sa\u00fade Personalizados (UCSP) da \u00c1rea Metropolitana de Lisboa (AML). Para se ter uma ideia, dos mais de 1 milh\u00e3o e 500 mil utentes do pa\u00eds a quem n\u00e3o est\u00e1 atribu\u00edda uma equipa de sa\u00fade familiar, um milh\u00e3o e 100 mil residem na AML.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Odivelas, por exemplo, s\u00e3o mais de 43 mil os utentes que est\u00e3o sem m\u00e9dicos de fam\u00edlia, dados referentes a novembro de 2025 e que representam mais 30% relativamente a 2024. Mas esta realidade repete-se em todas as UCSP do concelho: 6362 utentes (58%) na UCSP de Cane\u00e7as; 22.276 utentes (60%) em Odivelas; 5546 (61%) em Fam\u00f5es; 7259 (82%), na Urmeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de 65% de utentes neste concelho est\u00e3o sem equipa de sa\u00fade familiar, mais 30% relativamente a 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 diferente nos outros concelhos da AML: na Unidade Local de Sa\u00fade da Arr\u00e1bida, s\u00e3o mais de 90 mil os utentes sem m\u00e9dico de fam\u00edlia e foram contemplados com apenas quatro m\u00e9dicos no novo concurso, quando se exigia, pelo menos, a contrata\u00e7\u00e3o de 56 m\u00e9dicos. Na Unidade Local de Sa\u00fade (ULS) da Lez\u00edria a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 melhor. Para os quase 40 mil utentes sem m\u00e9dico de fam\u00edlia, o governo contratou seis, quando eram precisos 25. Na ULS de Almada e Seixal para os cerca de 60 mil utentes sem equipa de sa\u00fade familiar atribu\u00edda, contrataram seis m\u00e9dicos, quando eram precisos pelo menos 37 e, na ULS de Amadora e Sintra s\u00e3o mais de 191 mil utentes sem m\u00e9dico, contrataram 12 m\u00e9dicos, quando as necessidades impunham a contrata\u00e7\u00e3o de 120.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste quadro de car\u00eancia extrema de equipas de sa\u00fade familiar, o governo decidiu abrir para as ULS da \u00c1rea Metropolitana de Lisboa apenas 84 vagas. Deixou, logo \u00e0 partida, fora do quadro, mais de 113 mil doentes sem m\u00e9dico de fam\u00edlia, ignorando um conjunto de Unidades a quem nem uma vaga foi ponderada no concurso, e mantendo as outras com um r\u00e1cio de atendimento que ultrapassa largamente o que \u00e9 humanamente aceit\u00e1vel para aqueles profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o salarial dos m\u00e9dicos, enfermeiros e demais profissionais de sa\u00fade na Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablica tem sido uma evid\u00eancia que se traduz,&nbsp;<em>per si<\/em>, numa perda substancial da atratividade do SNS.<\/p>\n\n\n\n<p>A tabela remunerat\u00f3ria dos m\u00e9dicos revela, entre 2012 e 2025, que o poder salarial foi reduzido entre os 11,9% e os 5,9%. Ainda segundo dados da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos M\u00e9dicos (FNAM) divulgados pelo estudo do economista Eug\u00e9nio Rosa, a remunera\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos portugueses est\u00e1 na cauda da m\u00e9dia das remunera\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses da OCDE, sendo que \u00e9 metade da remunera\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos nos Pa\u00edses Baixos e corresponde a 70% da remunera\u00e7\u00e3o destes profissionais em Espanha. Conclui, por isso, o economista, que a possibilidade de emigra\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos portugueses \u00e9 muito forte.<\/p>\n\n\n\n<p>No que respeita aos enfermeiros, a situa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 mais gritante. Os enfermeiros portugueses ganham 57% do sal\u00e1rio m\u00e9dio praticado nos restantes pa\u00edses da OCDE e 66% relativamente ao que se paga em Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p>Quer m\u00e9dicos quer enfermeiros, segundo dados da Dire\u00e7\u00e3o-Geral da Administra\u00e7\u00e3o do Emprego P\u00fablico, citado no mesmo estudo, compensam a quebra acentuada do seu poder de compra da sua remunera\u00e7\u00e3o base m\u00e9dia aumentando o seu hor\u00e1rio de trabalho e fazendo mais horas extraordin\u00e1rias, mais 17,9 milh\u00f5es de horas extraordin\u00e1rias, segundo o Relat\u00f3rio de 2025 do Conselho das Finan\u00e7as P\u00fablicas. Este \u00e9 um dos fatores da baixa atratividade que, por exemplo, explica que no concurso para Medicina Geral Familiar para a \u00c1rea Metropolitana de Lisboa, das 84 vagas em aberto apenas 24 (70%) foram preenchidas.<\/p>\n\n\n\n<p>O efeito das horas extraordin\u00e1rias destes profissionais n\u00e3o se reflete apenas num fator de atratividade do emprego, reflete-se em termos or\u00e7amentais e no trabalho, com profissionais em&nbsp;<em>burnout<\/em>. Em dezembro de 2025 as horas de espera nos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo chegou a atingir as 17 horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do discurso do Governo contra a contrata\u00e7\u00e3o de Tarefeiros, na realidade, a despesa com a contrata\u00e7\u00e3o destes servi\u00e7os externos ao SNS continua a aumentar. De resto, a pol\u00edtica de externaliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os est\u00e1 plasmada no Or\u00e7amento da Sa\u00fade de 2025. A rubrica no Or\u00e7amento do SNS de 2025 a Fornecedores Externos quase duplicou (de 1.362 milh\u00f5es \u20ac em Dezembro de 2024 passou para 2.547 milh\u00f5es em Outubro de 2025).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o governo anuncia a cria\u00e7\u00e3o das chamadas USF tipo C, at\u00e9 2030, transferindo para os privados Cuidados de Sa\u00fade Prim\u00e1rios e gastando com isso o que se tem recusado a investir com a melhoria de condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos profissionais de sa\u00fade. S\u00f3 em Lisboa, at\u00e9 2030, est\u00e1 previsto gastar milh\u00f5es de euros, com a entrega ao sector privado das USF-C: S\u00e3o Jos\u00e9 (15,5 milh\u00f5es), Amadora-Sintra (10,2 milh\u00f5es), Lisboa Ocidental (6 milh\u00f5es)e Santa Maria (3,1 milh\u00f5es). Juntamente com as PPP, agora, nos cuidados de Sa\u00fade Prim\u00e1rios, as USF-Tipo C parecem ser mais uma pata do Cavalo de Troia dos privados no SNS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando falamos de Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade n\u00e3o o associamos apenas \u00e0 ideia de assist\u00eancia m\u00e9dica, necess\u00e1ria para a sobreviv\u00eancia de toda uma popula\u00e7\u00e3o. Vem-nos tamb\u00e9m \u00e0 ideia a preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e a qualidade de vida. S\u00e3o estas as conota\u00e7\u00f5es. N\u00e3o porque o SNS nos garanta a todos, milagrosamente, 100 anos de vida, mas se os vivermos, ser\u00e1 a ele que recorremos para garantir melhor qualidade de vida.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9773,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[184],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9772"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9772"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9772\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9796,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9772\/revisions\/9796"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9772"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}