{"id":9764,"date":"2026-02-10T12:40:51","date_gmt":"2026-02-10T12:40:51","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9764"},"modified":"2026-02-10T12:40:52","modified_gmt":"2026-02-10T12:40:52","slug":"feminismo-na-voz-do-operario-a-pioneira-angelina-vidal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/02\/10\/feminismo-na-voz-do-operario-a-pioneira-angelina-vidal\/","title":{"rendered":"Feminismo n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio: a pioneira Angelina Vidal"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cMiss\u00e3o natural da mulher\u201d&#8230;<\/h2>\n\n\n\n<p>Hoje ser\u00e1 dif\u00edcil de imaginar, o que era, nos anos 1880, uma mulher atrever-se assim, a ter uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ainda por cima em oposi\u00e7\u00e3o ao poder estabelecido e \u00e0 classe dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma altura em que se tornou redatora d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Angelina Vidal come\u00e7ou a colaborar num outro jornal, o \u00abDistrito de Santar\u00e9m\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi uma colabora\u00e7\u00e3o ef\u00e9mera. No ano seguinte, esse mesmo jornal explicava, com o seguinte palavreado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s acatamos e respeitamos sempre uma senhora, mas [\u2026] sair do lar para subir \u00e0 tribuna, esquecer o governo dom\u00e9stico para discursar sobre administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d, e sobre \u201cos perigos que cercam a nacionalidade portuguesa, pode ser muito patri\u00f3tico, mas sobremaneira pouco feminil, e n\u00f3s confessamos que nos desagrada sobremaneira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E a senten\u00e7a era clara:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA senhora dona Angelina Vidal \u2013 a \u00fanica republicana, cremos, [\u2026] prega a transforma\u00e7\u00e3o geral, deseja a emancipa\u00e7\u00e3o [\u2026] desde o capit\u00f3lio at\u00e9 ao lar, e tudo isso nos parece pouco de acordo com a miss\u00e3o natural da mulher\u201d [Distrito de Santar\u00e9m, 02\/07\/1882, p.1].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Feministas oper\u00e1rias<\/h2>\n\n\n\n<p>Nascida em Lisboa, em 1849, Angelina Vidal era filha de um maestro e casou com um m\u00e9dico (do qual se separou). Era uma senhora que, literalmente, tocava piano e falava franc\u00eas. Tornou-se escritora, jornalista e professora. Publicou poesia, contos e teatro. Quando as futuras dirigentes da \u00abLiga Republicana\u00bb ainda eram crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Angelina Vidal praticou um feminismo socialmente mais avan\u00e7ado do que essas posteriores republicanas. Um feminismo focado nas mulheres oper\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1880, j\u00e1 ela proferia uma confer\u00eancia sobre \u201cA mulher e a atualidade, perante o crit\u00e9rio filos\u00f3fico\u201d, no mesmo sindicato onde nasceu A Voz do Oper\u00e1rio, o dos oper\u00e1rios da ind\u00fastria de tabaco de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1894, noutro evento sindical, Angelina Vidal discursou sobre a educa\u00e7\u00e3o da mulher e apelou \u00e0 sua participa\u00e7\u00e3o no sindicalismo. A seu lado falou Lu\u00edsa Maria, delegada do primeiro sindicato feminino em Portugal, o das \u00abLavadeiras de Lisboa\u00bb \u2013 fundado 15 anos antes da tal \u00abLiga Republicana\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1896, Angelina Vidal discursou, sobre \u201cos direitos sociais e econ\u00f3micos da mulher oper\u00e1ria\u201d, noutro sindicato feminino, o das costureiras de Lisboa. E, no ano seguinte, ali voltou a falar sobre \u201cos direitos da mulher\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio mesmo a ser nomeada s\u00f3cia honor\u00e1ria deste sindicato, pelo seu contributo como \u201cdistinta propagandista da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A biografia de Angelina Vidal \u00e9 insepar\u00e1vel desta sua liga\u00e7\u00e3o a mulheres oper\u00e1rias e do lugar destas na hist\u00f3ria do feminismo em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Feminismo socialista<\/h2>\n\n\n\n<p>Angelina Vidal viria a falecer em 1917, fiel aos seus ideais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 1914, ela denunciava que \u201ca costureira, empregada nos ateliers, chega a trabalhar doze e quatorze horas [ao dia] por um sal\u00e1rio mesquinh\u00edssimo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 falava na desigualdade de g\u00e9nero a n\u00edvel salarial, apontando o caso da \u201cobreira fabril, [que] se n\u00e3o est\u00e1 tantas horas na ro\u00e7a, suporta a injusti\u00e7a de diferencia\u00e7\u00e3o, para menos, do sal\u00e1rio, quando mesmo em igualdade de produ\u00e7\u00e3o com o homem\u201d [Vanguarda, 22\/05\/1914, p.1]<\/p>\n\n\n\n<p>E, longe de ser um caso isolado, Angelina Vidal foi precursora de uma corrente coletiva, um feminismo oper\u00e1rio e socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras intelectuais integraram essa corrente. Como a escritora Maria O\u2019neill, que A Voz do Oper\u00e1rio elegeu, em 1926, para a comiss\u00e3o de apoio \u00e0 dire\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de instru\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o grosso dessa corrente brotou da classe trabalhadora. Com figuras not\u00e1veis como a oper\u00e1ria tabaqueira Virg\u00ednia Silva, cujos discursos empolgaram in\u00fameros encontros sindicais, como um grande plen\u00e1rio que se realizou no sal\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, naquele ano de 1926.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mentalidades e pr\u00e1xis<\/h2>\n\n\n\n<p>O papel pioneiro de Angelina Vidal mais sobressai quando, por outro lado, a sociedade A Voz do Oper\u00e1rio tardou 66 anos at\u00e9 eleger uma mulher para a sua dire\u00e7\u00e3o. O que s\u00f3 aconteceu para o mandato de 1949.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio e do associativismo popular, s\u00f3 bem mais tarde \u00e9 que outras coletividades deram esse passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher presidente da dire\u00e7\u00e3o? Isso, ent\u00e3o, s\u00f3 depois da revolu\u00e7\u00e3o de Abril de 1974.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 de espantar, tal lentid\u00e3o no evoluir de mentalidades e de pr\u00e1xis. N\u00e3o s\u00e3o coisas que se mudem assim, t\u00e3o f\u00e1cil e r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Num estudo sobre a individualidade humana, Lucien S\u00e8ve aponta que a classe trabalhadora \u00e9 feita de pessoas com \u201cpersonalidades produzidas pelo capitalismo e v\u00edtimas das suas contradi\u00e7\u00f5es\u201d [<em>Marxisme et th\u00e9orie de la personnalit\u00e9<\/em>, Paris: \u00c9ditions Sociales (1972), p.449].<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como outros desafios, a desigualdade de g\u00e9nero \u00e9 propiciada por todo um contexto hist\u00f3rico e social. Mesmo entre quem contesta esse contexto, no fito de uma sociedade mais livre e igualit\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A julgar pelas narrativas mais correntes, pode parecer que a hist\u00f3ria do feminismo em Portugal se iniciou em 1908, com a \u00abLiga Republicana das Mulheres Portuguesas\u00bb. Por\u00e9m, um quarto de s\u00e9culo antes disso, j\u00e1 o jornal A Voz do Oper\u00e1rio tinha uma mulher como redatora. Ainda por cima, uma mulher que j\u00e1 naquele tempo se assumia como republicana e breve se tornaria socialista. Seu nome era Angelina Vidal.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9765,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9764"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9764"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9764\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9767,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9764\/revisions\/9767"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9764"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}