{"id":9671,"date":"2026-01-06T11:06:17","date_gmt":"2026-01-06T11:06:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9671"},"modified":"2026-03-08T15:30:28","modified_gmt":"2026-03-08T15:30:28","slug":"a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-direcao-forcada-a-demitir-se-1949","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/01\/06\/a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-direcao-forcada-a-demitir-se-1949\/","title":{"rendered":"A Voz do Oper\u00e1rio sob a ditadura: dire\u00e7\u00e3o for\u00e7ada a demitir-se (1949)"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Legalidade\u2026 relativa<\/h2>\n\n\n\n<p>No artigo anterior, mencionou-se o papel central que A Voz do Oper\u00e1rio teve num importante momento da resist\u00eancia antifascista: a candidatura presidencial de Norton de Matos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas sublinhe-se que esta coletividade cumpriu estritamente a legalidade estabelecida pela pr\u00f3pria ditadura. A Voz do Oper\u00e1rio limitou-se a ceder o seu sal\u00e3o para v\u00e1rias sess\u00f5es de propaganda de Norton de Matos. E s\u00f3 se realizaram as sess\u00f5es que foram previamente autorizadas pela ditadura, na pessoa do governador-civil de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, for\u00e7as da autoridade estiveram presentes em cada sess\u00e3o. E usaram do seu poder de interromper um discurso ou de decidir se determinado orador podia sequer come\u00e7ar a falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar de toda a suposta legalidade, A Voz do Oper\u00e1rio deu muito nas vistas: foi o palco das iniciativas de maior relevo da oposi\u00e7\u00e3o antifascista na capital do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto quando n\u00e3o tinha sido permitido \u00e0 candidatura de Norton de Matos que realizasse um \u00fanico com\u00edcio de rua e ao ar livre, na cidade de Lisboa\u2026<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Resist\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>Eram elei\u00e7\u00f5es falsificadas de fio a pavio, desde o recenseamento de quem tinha direito a votar, at\u00e9 \u00e0 contagem dos votos. Por\u00e9m, durante algumas semanas, havia uma relativa abertura na censura \u00e0 imprensa. E, apesar de muitas restri\u00e7\u00f5es, era permitida a realiza\u00e7\u00e3o de com\u00edcios e sess\u00f5es de propaganda. Isto enquanto durava o per\u00edodo oficial de campanha eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a resist\u00eancia antifascista, tais elei\u00e7\u00f5es constitu\u00edam uma rara oportunidade de expressar ideias e juntar pessoas. De mostrar que muito povo tinha a coragem de dizer que n\u00e3o estava com a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, apesar de falsas, essas elei\u00e7\u00f5es eram uma ocasi\u00e3o de animar e formar consci\u00eancias, para depois prosseguir e refor\u00e7ar a resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Repress\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Por sua vez, para a ditadura, para al\u00e9m da f\u00e1bula de legitimidade, as elei\u00e7\u00f5es que falseava eram uma oportunidade de identificar alvos para uma nova vaga repressiva. Na sequ\u00eancia ou mesmo durante o pr\u00f3prio processo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo que a repress\u00e3o n\u00e3o atingia apenas candidatos e ativistas da oposi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m incutia medo e passividade ao grosso da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio foi um dos alvos, naquele ano de 1949. E percebeu que, afinal, n\u00e3o tinha liberdade para ceder o seu sal\u00e3o a uma campanha da oposi\u00e7\u00e3o. Mesmo cumprindo todos os supostos tr\u00e2mites legais.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, A Voz do Oper\u00e1rio recusou depois o seu sal\u00e3o para a campanha presidencial de Arlindo Vicente, em 1958\u2026<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Instrumentos repressivos<\/h2>\n\n\n\n<p>A repress\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o se faz apenas com os instrumentos mais \u00f3bvios, como uma pol\u00edcia pol\u00edtica ou servi\u00e7os de censura.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso em apre\u00e7o, o instrumento que atingiu A Voz do Oper\u00e1rio chamava-se \u00abInstituto de Apoio \u00e0 Fam\u00edlia\u00bb. E foi manejado diretamente por um membro do governo, o ent\u00e3o \u00absubsecret\u00e1rio da assist\u00eancia\u00bb. Um sujeito de nome Joaquim Trigo de Negreiros. No ano seguinte ele seria promovido por Salazar a ministro do interior.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9todo foi simples: cortou imediatamente um subs\u00eddio mensal que tinha sido atribu\u00eddo \u00e0 sociedade A Voz do Oper\u00e1rio. E deixou de responder \u00e0 sua correspond\u00eancia. Numa altura em que esta coletividade j\u00e1 estava fragilizada com dificuldades financeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o ficou por aqui. Tamb\u00e9m bloqueou a aprova\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento anual d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. E com isso colocou-a numa situa\u00e7\u00e3o de incumprimento de requisitos legais a que estava sujeita, como institui\u00e7\u00e3o de solidariedade social que recebia uma comparticipa\u00e7\u00e3o financeira do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, acusou a dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio de se ter desviado dos fins estatut\u00e1rios. E sugeriu que fosse demitida ao governador-civil, que era quem tinha a compet\u00eancia formal para for\u00e7ar essa demiss\u00e3o, e mesmo para encerrar a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Interesse coletivo<\/h2>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia de uma audi\u00eancia com o governador-civil, aquela dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio demitiu-se evocando apenas as cr\u00edticas de que tinha sido alvo por alguns s\u00f3cios. E organizou a elei\u00e7\u00e3o antecipada de uma nova dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim salvaguardou a continuidade desta institui\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui se recordam os seus nomes: Eduardo Ventura Reim\u00e3o, presidente; Jorge da Cruz Valente, 1\u00ba secret\u00e1rio; Maria de Deus Antunes, 2\u00aa secret\u00e1ria; Manuel Sim\u00f5es Ferro, 1\u00ba tesoureiro; Ant\u00f3nio Rosado Lopes, 2\u00ba tesoureiro; Filipe Ant\u00f3nio dos Santos, 1\u00ba vogal; Il\u00eddio de Almeida, 2\u00ba vogal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na hist\u00f3ria d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, a dire\u00e7\u00e3o eleita para o ano de 1949 salienta-se, logo \u00e0 partida, por ter sido a primeira a incluir uma mulher, Maria de Deus Antunes. Outro marco relevante \u00e9 ter sido for\u00e7ada a demitir-se, no quadro da repress\u00e3o que se seguiu \u00e0s pseudo-elei\u00e7\u00f5es presidenciais, naquele ano encenadas pela ditadura.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":9672,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9671"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9671"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9671\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9884,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9671\/revisions\/9884"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9672"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9671"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}