{"id":9599,"date":"2025-12-04T22:37:19","date_gmt":"2025-12-04T22:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9599"},"modified":"2025-12-04T22:37:20","modified_gmt":"2025-12-04T22:37:20","slug":"eleicoes-presidenciais-de-1949-o-preco-que-a-voz-do-operario-pagou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/12\/04\/eleicoes-presidenciais-de-1949-o-preco-que-a-voz-do-operario-pagou\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1949: o pre\u00e7o que A Voz do Oper\u00e1rio pagou"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Presos pol\u00edticos<\/h2>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio sobreviveu a 48 anos de ditadura. Mas n\u00e3o escapou ilesa. Sofreu rudes golpes nesse percurso. Sobretudo a partir de 1933, quando a inicial ditadura militar se transformou numa ditadura de tipo fascista.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde logo, este jornal passou a ser alvo de uma censura mais severa. E viu-se expressamente proibido de exercer o seu papel primordial. Aquele que tinha sido o motivo da sua cria\u00e7\u00e3o, em 1879: ser o porta-voz do sindicato dos oper\u00e1rios da ind\u00fastria tabaqueira de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>O conte\u00fado do ensino nas escolas d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio tamb\u00e9m foi mutilado, sob amea\u00e7a de serem encerradas. Como, ali\u00e1s, aconteceu a duas delas que funcionavam em sindicatos. Em Lisboa e em Almada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, h\u00e1 que n\u00e3o esquecer os dirigentes d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio que foram presos pol\u00edticos. Entre eles, tr\u00eas presidentes em fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1947, a PIDE prendeu o ent\u00e3o presidente da dire\u00e7\u00e3o, Raul Esteves dos Santos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1937, prendeu o presidente do conselho fiscal, Jo\u00e3o Coelho.<\/p>\n\n\n\n<p>E j\u00e1 antes, em 1927, ainda a PIDE n\u00e3o existia, foi a sua antecessora \u201cPol\u00edcia de Informa\u00e7\u00f5es\u201d que entrou pela sede d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio adentro. Interrompeu uma reuni\u00e3o e prendeu o presidente da dire\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Greg\u00f3rio de Almeida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a repress\u00e3o teve outros contornos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Repres\u00e1lias econ\u00f3micas<\/h2>\n\n\n\n<p>Aquando das pseudo-elei\u00e7\u00f5es presidenciais que a ditadura encenou em 1949, ao candidato da oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, Norton de Matos, n\u00e3o foi permitido um \u00fanico com\u00edcio de rua e ao ar livre, na cidade de Lisboa. Pelo que foi no sal\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio que conseguiu realizar as suas maiores iniciativas na capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali se realizaram um total de seis \u201csess\u00f5es\u201d, entre 10 de Janeiro e 10 de Fevereiro de 1949. Havia que aproveitar aquelas semanas em que a censura abrandava.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das \u201csess\u00f5es\u201d foi promovida pela \u201ccomiss\u00e3o feminina de apoio\u201d a Norton de Matos. E era especialmente dirigida a mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das oradoras foi Irene Russel. Ex-presa pol\u00edtica, era mulher e irm\u00e3 de dois antigos prisioneiros no campo de concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal. Mas o seu discurso foi interrompido pela pol\u00edcia, a qual \u201cnotificou que n\u00e3o podiam fazer-se alus\u00f5es a maus tratamentos aos presos pol\u00edticos nem a factos passados no Tarrafal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isabel Aboim Ingl\u00eas, tamb\u00e9m ela ex-presa pol\u00edtica, era uma dirigente da campanha que estava ausente de Lisboa, nesse dia. Mas enviou uma mensagem, que foi lida n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da censura e da pol\u00edcia pol\u00edtica, ela apontou uma outra forma de repress\u00e3o: as \u201crepres\u00e1lias de car\u00e1cter econ\u00f3mico\u201d. Com as quais se sentiam amea\u00e7ados os democratas, \u201cvendo que tantos s\u00e3o privados dos seus empregos pelo simples facto de discordarem da doutrina do Estado Novo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria o caso da pr\u00f3pria Isabel Aboim Ingl\u00eas: professora que, proibida de exercer o seu of\u00edcio, se viu for\u00e7ada a sobreviver como costureira.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cInstituto de Assist\u00eancia \u00e0 Fam\u00edlia\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1948, A Voz do Oper\u00e1rio estava com problemas econ\u00f3micos. Iria terminar o ano com um d\u00e9fice acima dos 6% e um saldo negativo na ordem dos 200 mil escudos. Era muito dinheiro, \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua principal fonte de receita eram as quotas pagas pelos s\u00f3cios (57% do total). Mas o problema \u00e9 que o n\u00famero de s\u00f3cios estava a diminuir de uma forma acentuada, desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930. Uma quebra de 40%!<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outros factores, pesou o impacto da grande crise econ\u00f3mica de 1929 na vida da popula\u00e7\u00e3o mais pobre. Somaram-se depois mais contextos de crise com a 2\u00aa Guerra Mundial e o p\u00f3s-guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante este cen\u00e1rio, no in\u00edcio de 1948, A Voz do Oper\u00e1rio solicitou um apoio financeiro ao Estado. Evocou os altos servi\u00e7os que prestava nas \u00e1reas da instru\u00e7\u00e3o e da assist\u00eancia social.<\/p>\n\n\n\n<p>E conseguiu obter um subs\u00eddio mensal de 5 mil escudos, por via de um organismo que tinha o nome de \u201cInstituto de Assist\u00eancia \u00e0 Fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o resolveu o problema, mas foi um al\u00edvio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O pre\u00e7o<\/h2>\n\n\n\n<p>A \u00faltima sess\u00e3o de apoio a Norton de Matos n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio realizou-se em Fevereiro de 1949. E as repres\u00e1lias n\u00e3o tardaram. No m\u00eas seguinte, o Instituto de Assist\u00eancia \u00e0 Fam\u00edlia cortou o subs\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, ficou bloqueada a aprova\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio para aquele ano. Situa\u00e7\u00e3o que se iria arrastar por meses. No quadro legal da \u00e9poca, colocava esta coletividade numa situa\u00e7\u00e3o de incumprimento. E, portanto, sujeita a mais penaliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ofic\u00edo confidencial, o diretor-geral da Assist\u00eancia informou o governador-civil de Lisboa de que n\u00e3o parecia \u201cl\u00f3gico que o Instituto de Assist\u00eancia \u00e0 Fam\u00edlia continuasse a subsidiar as institui\u00e7\u00f5es que cederam as suas salas para nelas se realizarem sess\u00f5es de propaganda contr\u00e1rias \u00e0 finalidade que o referido instituto se prop\u00f5e\u201d [sic!].<\/p>\n\n\n\n<p>E sugeriu que, se A Voz do Oper\u00e1rio se tinha \u201cdesviado dos seus fins estatut\u00e1rios, um problema se p\u00f5e: pode a dire\u00e7\u00e3o continuar no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es ou dever\u00e1 ser afastada definitivamente?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto do \u201cdesvio\u201d estatutario era o argumento usual para encerrar associa\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O desfecho fica para um pr\u00f3ximo artigo!<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Voz do Oper\u00e1rio foi um ponto central da campanha eleitoral de Norton de Matos. E as repres\u00e1lias n\u00e3o se fizeram esperar. O ano era 1949. E esta coletividade sofreu ent\u00e3o a mais s\u00e9ria amea\u00e7a \u00e0 sua exist\u00eancia, sob a ditadura de Salazar.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":9600,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9599"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9599"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9602,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9599\/revisions\/9602"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9599"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}