{"id":9555,"date":"2025-11-04T15:33:57","date_gmt":"2025-11-04T15:33:57","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9555"},"modified":"2025-11-10T16:23:31","modified_gmt":"2025-11-10T16:23:31","slug":"cornucopia-memorias-de-um-teatro-de-resistencia-e-intervencao-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/11\/04\/cornucopia-memorias-de-um-teatro-de-resistencia-e-intervencao-cultural\/","title":{"rendered":"Cornuc\u00f3pia: mem\u00f3rias de um teatro de resist\u00eancia e interven\u00e7\u00e3o cultural\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>O grupo, criado em 1973 por Lu\u00eds Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, surgiu como uma lufada de ar fresco no sombrio panorama fascista, apesar da censura e das limita\u00e7\u00f5es or\u00e7amentais. A miss\u00e3o interventiva continuou depois da revolu\u00e7\u00e3o de Abril, com obras e encena\u00e7\u00f5es inovadoras, que pretendiam o questionamento, por parte do espectador, do seu lugar individual e colectivo na sociedade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O filme tem como base fundamental as imagens que o Teatro da Cornuc\u00f3pia registou ao longo de 43 anos de actividade. A realizadora sueca naturalizada portuguesa fez parte da companhia, e sabia da exist\u00eancia deste manancial hist\u00f3rico valioso. Passou muito tempo a ver todo o esp\u00f3lio, guardado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para fazer uma escolha criteriosa do material f\u00edlmico, e assim contar a hist\u00f3ria mais ou menos cronol\u00f3gica desta institui\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o sediada nas instala\u00e7\u00f5es do actual Teatro do Bairro Alto, em Lisboa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mentor Lu\u00eds Miguel Cintra<\/h2>\n\n\n\n<p>O fio condutor de \u201cMem\u00f3rias do Teatro da Cornuc\u00f3pia\u201d \u00e9 o actor e encenador Lu\u00eds Miguel Cintra, sobretudo atrav\u00e9s de uma narra\u00e7\u00e3o que tra\u00e7a esse percurso de resist\u00eancia e milit\u00e2ncia cultural e pol\u00edtica. Os objectivos eram claros desde a sua cria\u00e7\u00e3o. Como o <em>\u201cteatro \u00e9 o tempo fora da vida. Na minha cabe\u00e7a, fazer um espect\u00e1culo era estar a inventar uma brincadeira entre n\u00f3s. Fazer a Cornuc\u00f3pia n\u00e3o foi apenas por raz\u00f5es profissionais. Era a busca da felicidade.<\/em>, ouvimos logo no in\u00edcio do filme.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos perto do 25 de Abril de 1974. Na altura, as companhias mais activas eram universit\u00e1rias; mas tamb\u00e9m os seus textos e encena\u00e7\u00f5es eram controlados pela PIDE\/DGS. A Cornuc\u00f3pia foi a tentativa de rasgar ainda mais com a opress\u00e3o vivida pelos elementos destes grupos. <em>Quer\u00edamos estarmos juntos, e para isso n\u00e3o havia limites. As nossas cabe\u00e7as eram muito mais livres.<\/em>, destaca Cintra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deu-se a revolu\u00e7\u00e3o. Em liberdade, era priorit\u00e1rio prosseguir com os objectivos progressistas e de vanguarda. Era urgente representar Bertold Brecht, por exemplo. <em>\u201cO Terror e a Mis\u00e9ria do III Reich\u201d<\/em> foi, por isso, a primeira pe\u00e7a que a companhia levou \u00e0 cena ap\u00f3s a conquista da liberdade. <em>\u201cInteressava-nos fazer pe\u00e7as que eram o pensamento da pequena burguesia.\u201d \u201cOs pequenos burgueses\u201d<\/em> e <em>\u201cTambores na Noite\u201d<\/em>, tamb\u00e9m do dramaturgo alem\u00e3o, foram representadas nos dois anos seguintes. Textos de autores como Heiner Muller, Jean Genet, Federico Garcia Lorca, Pier Paolo Pasolini, Arthur Schnitzler, Heinrich von Kleist e Edward Bond, nunca ou raramente apresentados em Portugal, fizeram parte do repert\u00f3rio da companhia. A miss\u00e3o da Cornuc\u00f3pia era clara. \u201c<em>Ter um repert\u00f3rio pertinente que tinha a ver com o que as pessoas estavam a viver.\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar dos anos, os h\u00e1bitos foram mudando, <em>\u201cas pessoas fecharam-se em casa.\u201d <\/em>Era preciso remar contra a mar\u00e9. <em>\u201cIsso era uma quest\u00e3o fundamental. A grande pris\u00e3o \u00e9 a vida em que a gente est\u00e1 metido. Eu era completamente leal em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico. Mas nem sempre o p\u00fablico compreendia a escolha do report\u00f3rio.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;<\/em>Jorge Silva Melo saiu. Cristina Reis tornou-se um elemento pilar para a organiza\u00e7\u00e3o desta estrutura teatral, sobretudo na concep\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica e cenogr\u00e1fica de cada espect\u00e1culo. Como sucede com muitos teatros e associa\u00e7\u00f5es de cariz cultural nacionais, o percurso da Cornuc\u00f3pia foi de altos e baixos. Isto \u00e9 ainda mais relevante num grupo que primava pela experimenta\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o e ousadia criativa. Uma quest\u00e3o mantinha-se: Como \u00e9 que se que relacionavam o palco e uma pe\u00e7a com o p\u00fablico? Ouvimo-la numa das conversas entre actores e t\u00e9cnicos que o filme mostra. <em>\u201c\u00c9 importante que uma companhia funcione como um ser vivo, e que funcione assim com o p\u00fablico.<\/em>, lembra o criador Cintra. E acrescenta: <em>Eu queria muito experimentar o espa\u00e7o. O importante era o trabalho do espa\u00e7o. Um espa\u00e7o que recebe, acolhe e \u00e9 trabalhado como se deseja. O teatro independente torna-se resist\u00eancia f\u00edsica e emocional.\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O fim de uma era. Mas&#8230; o teatro continua.<\/h2>\n\n\n\n<p>Passaram centenas de actores pelo Teatro da Cornuc\u00f3pia ao longos das suas mais de quatro d\u00e9cadas, ainda que fosse importante a exist\u00eancia de um n\u00facleo fixo de profissionais. A Cornuc\u00f3pia provou que \u00e9 poss\u00edvel juntar pessoas de gera\u00e7\u00f5es<em> <\/em>diferentes. <em>\u201cNisso fomos diferentes da maior parte dos grupos.\u201d<\/em>, sublinha o encenador e actor sobre os primeiros tempos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sem condi\u00e7\u00f5es de \u00edndole or\u00e7amental que permitissem prosseguir com a sua miss\u00e3o, a Cornuc\u00f3pia representa pela \u00faltima vez na sua \u201ccasa\u201d em 2016. Lu\u00eds Miguel Cintra escolhe o emblem\u00e1tico \u201cHamlet\u201d, de William Shakespeare. <em>\u201cSer actor \u00e9 ser um artista criador. \u00c9 t\u00e3o criativo como ser escritor ou ser pintor. <\/em>&nbsp;<em>Acima de tudo, o teatro \u00e9 um acto de sedu\u00e7\u00e3o.\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um ano depois, o Teatro da Cornuc\u00f3pia fechou definitivamente as portas. Vazio de adere\u00e7os, guarda-roupa e mob\u00edlia. <em>\u201cFoi como um funeral. Eu tinha a no\u00e7\u00e3o que tinha perdido toda a minha vida naquele s\u00edtio.\u201d <\/em>Ficaram os testemunhos de Lu\u00eds Miguel Cintra e Cristina Reis, e as imagens multifacetadas atentamente escolhidas por Solveig Nordlung das pe\u00e7as representadas pela companhia, de reuni\u00f5es de trabalho entre actores, e registos de momentos de experimenta\u00e7\u00e3o e concep\u00e7\u00e3o dos espect\u00e1culos. O Teatro da Cornuc\u00f3pia representou 127 cria\u00e7\u00f5es, dando destaque a textos portugueses e a uma vis\u00e3o revolucion\u00e1ria n\u00e3o institucionalizada no tratamento da dramaturgia, do lugar do teatro e da arte. Ficamos \u00e0 espera da estreia nacional em todas as salas do pa\u00eds deste filme homenagem de Nordlung \u00e0s <em>\u201cMem\u00f3rias do Teatro da Cornuc\u00f3pia\u201d<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 26\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Doclisboa, Festival Internacional de Cinema, deu a conhecer \u201cMem\u00f3rias do Teatro da Cornuc\u00f3pia\u201d, novo document\u00e1rio de Solveig Nordlung sobre uma das mais importantes e emblem\u00e1ticas companhias teatrais dos \u00faltimos anos do nosso pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9556,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9555"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9555"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9555\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9577,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9555\/revisions\/9577"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9556"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9555"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9555"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9555"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9555"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}