{"id":9546,"date":"2025-11-04T15:28:00","date_gmt":"2025-11-04T15:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9546"},"modified":"2025-11-04T15:28:00","modified_gmt":"2025-11-04T15:28:00","slug":"os-lusiadas-antologia-tematica-e-texto-critico-de-antonio-borges-coelho-com-ilustracoes-de-manuel-san-payo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/11\/04\/os-lusiadas-antologia-tematica-e-texto-critico-de-antonio-borges-coelho-com-ilustracoes-de-manuel-san-payo\/","title":{"rendered":"Os Lus\u00edadas \u2013 Antologia, tem\u00e1tica e texto cr\u00edtico, de Ant\u00f3nio Borges Coelho, com ilustra\u00e7\u00f5es de Manuel San Payo"},"content":{"rendered":"\n<p>Ant\u00f3nio Borges Coelho (1928\/2025), nasceu em Mur\u00e7a, Tr\u00e1s-os-Montes: Professor catedr\u00e1tico jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, dedicou-se, durante grande parte da sua vida, longa e prof\u00edcua, ao estudo e divulga\u00e7\u00e3o da nossa hist\u00f3ria e dos seus per\u00edodos mais graves, mas tamb\u00e9m de j\u00fabilo e mudan\u00e7as de paradigma, em t\u00edtulos como\u00a0<em>Portugal nas Espanha \u00c1rabe, Questionar a Hist\u00f3ria \u2013 Ensaios sobre a Hist\u00f3ria de Portugal, Inquisi\u00e7\u00e3o de \u00c9vora, A Revolu\u00e7\u00e3o de 1383,\u00a0<\/em>e tantos outros. Figura maior da nossa cultura, Borges Coelho foi agraciado com a Ordem de Santiago e com a Ordem da Liberdade, a sua vasta bibliografia inclui, para al\u00e9m de estudos acad\u00e9micos sobre a Hist\u00f3ria de Portugal, poesia, teatro, ensaio e fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclu\u00eddo nas comemora\u00e7\u00f5es dos 500 anos do nascimento de Cam\u00f5es, as edi\u00e7\u00f5es Avante!, publicaram no ano em curso, uma nova edi\u00e7\u00e3o, com ilustra\u00e7\u00f5es de Manuel Sampayo, do livro \u00abOs Lus\u00edadas\u00bb &#8211; Antologia tem\u00e1tica e texto cr\u00edtico, que hoje aqui registamos como simb\u00f3lica homenagem ao grande pedagogo, resistente antifascista e escritor, que foi Ant\u00f3nio Borges Coelho<\/p>\n\n\n\n<p>O Cam\u00f5es de Borges Coelho \u00e9 um Cam\u00f5es poeta e pr\u00f3ximo do povo, que brigava contra nobres e burgueses ao lado da plebe, que sofreu inj\u00farias, fome e pris\u00f5es, que denunciou honrarias e faustos da corte enquanto o povo mourejava de sol a sol por uma c\u00f4dea dura, ou se esfor\u00e7ava nas naus da \u00cdndia morrendo de febres, de peste e de escorbuto, submetido e explorado, esse&nbsp;<em>ilustre peito lusitano,<\/em>&nbsp;que percorre os 10 cantos de&nbsp;<em>Os Lus\u00edadas&nbsp;<\/em>e que Ant\u00f3nio Borges Coelho, com a vera sabedoria cr\u00edtica do historiador, neste livro encena como quest\u00e3o central:&nbsp;<em>Que import\u00e2ncia t\u00eam afinal Cam\u00f5es e Os Lus\u00edadas; para que serve a poesia?<\/em>&nbsp;A resposta de Borges Coelho \u00e9 imediata e plena de contund\u00eancia: Para tornar mais forte a nossa \u201cfraca humanidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Que \u201cfraca humanidade\u201d, como povo, ter\u00edamos, que mem\u00f3ria colectiva nos fixaria a este ch\u00e3o solar e madrasto, que identidade, que l\u00edngua falar\u00edamos sem os poetas que cantaram e cantam a nossa rebeldia, os gesto merit\u00f3rios mais fecundos e justos, as andan\u00e7as pelo mundo em busca de p\u00e3o e de cuidados; as pelejas pelas rotas transoce\u00e2nicas, orientes, oce\u00e2nicas, \u00e1fricas, granjeando escassa fortuna e&nbsp;<em>muito sangue derramado<\/em>; as lutas pela independ\u00eancia desde a funda\u00e7\u00e3o at\u00e9 1383, que Fern\u00e3o Lopes descreveu na&nbsp;<em>Cr\u00f3nica de D. Jo\u00e3o I<\/em>, modelar escultor da primeva l\u00edngua, passando pelo lirismo arrebatado de Bernardim Ribeiro, pelas alucinadas viagens de Fern\u00e3o Mendes Pinto; pelo&nbsp;<em>supra-Cam\u00f5es&nbsp;<\/em>que Pessoa quis ser, pela den\u00fancia da barb\u00e1rie fascista que se inscreve na pena corajosa dos nossos poeta neorrealistas, de Manuel da Fonseca a Carlos de Oliveira, de Joaquim Namorado a Armindo Rodrigues e ao pr\u00f3prio Borges Coelho; o 25 de Abril de Ary dos Santos, de Manuel Gusm\u00e3o, de Sophia, de Jorge de Sena.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Borges Coelho d\u00e1-nos a resposta nesta abordagem criteriosa e no di\u00e1logo que ao longo do ensaio estabelece com as mais impressivas passagens da \u00e9pica camoniana, a come\u00e7ar nesse longo e modelar poema, que nos interroga: \u00abQuem pode ser no mundo t\u00e3o quieto\u00bb, constru\u00eddo em oitavas, inscrevendo no poema a fei\u00e7\u00e3o de modernidade discursiva, a agudeza singular, as virtualidades do idioma, na forma como Cam\u00f5es o utiliza para denunciar o alheamento das classes dominantes perante o&nbsp;<em>desconcerto do mundo: Quem pode ser no mundo t\u00e3o quieto,\/ou quem ter\u00e1 t\u00e3o livre o pensamento,\/quem t\u00e3o experimentado e t\u00e3o discreto,\/t\u00e3o fora, enfim, de humano entendimento\/que, ou com p\u00fablico efeito, ou com secreto,\/lhe n\u00e3o revolva e espante o sentimento,\/deixando-lhe o ju\u00edzo quase incerto,\/ver e notar do mundo o desconcerto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Borges Coelho faz, neste livro, uma leitura nova e actuante de&nbsp;<em>Os Lus\u00edadas,<\/em>&nbsp;investindo e sobrelevando as estrofes socialmente comprometidas da nossa obra maior e universal. \u00c9 o Cam\u00f5es humano, defensor do povo mi\u00fado, que tinha esperan\u00e7a que o pa\u00eds inquisidor, beato e miser\u00e1vel mudasse e com ele as vontades,&nbsp;<em>Tomando sempre novas qualidades.&nbsp;<\/em>Um pa\u00eds de todos e poss\u00edvel, que n\u00e3o apenas de um punhado de nobres brutos e desumanos, senhores de latif\u00fandios feudais, vivendo de prebendas da Corte e da explora\u00e7\u00e3o escrava, \u00e0 tripa forra, submetendo sem cuidados o povo mi\u00fado \u00e0 sua ambi\u00e7\u00e3o de poder, \u00e0 gan\u00e2ncia e \u00e0&nbsp;<em>v\u00e3 cobi\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Cam\u00f5es, mesmo acossado pela Inquisi\u00e7\u00e3o, sobrelevando os seus m\u00e9todos com subtil&nbsp;<em>engenho e arte,&nbsp;<\/em>n\u00e3o deixou de criticar, embora de forma velada, alguns dos que privavam na Corte de D. Sebasti\u00e3o:&nbsp;<em>V\u00ea que esses que frequentam os reais\/Pa\u00e7os, por verdadeira e s\u00e3 doutrina\/Vendem adula\u00e7\u00e3o, que mal consente\/Mondar-se o novo trigo florescente,&nbsp;<\/em>e n\u00e3o deixou tamb\u00e9m, nesse inc\u00f3modo Canto IX, que muito boa gente ainda olha de soslaio, de denunciar, nas estrofes 27 e 28, a rela\u00e7\u00e3o c\u00ednica entre nobreza e povo, pendendo as leis sempre para o Rei, deixando o povo \u00e0 m\u00edngua e \u00e0 merc\u00ea de todos os ultrajes:&nbsp;<em>V\u00ea que aqueles que devem \u00e0 pobreza\/Amor divino, e ao povo caridade,\/Amam somente mandos e riqueza,\/Simulando justi\u00e7a e integridade;\/Da feia tirania e de aspereza\/Fazem direito e v\u00e3 severidade;\/Leis em favor do Rei se estabelecem,\/As em favor do povo s\u00f3 perecem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No Texto Cr\u00edtico, que acompanha cada per\u00edodo em an\u00e1lise de&nbsp;<em>Os Lus\u00edadas,&nbsp;<\/em>escreve Ant\u00f3nio Borges Coelho: \u00abO verso camoniano louva e fustiga. Louva a coragem, os chefes que preveem os perigos, os expertos peitos, os que sobem ao mando quase for\u00e7ados. E fustiga: reis, nobres ineptos, filhos-fam\u00edlia, padres ambiciosos e tir\u00e2nicos.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como Cam\u00f5es, tamb\u00e9m Borges Coelho cedo se rebelou contra a perf\u00eddia, a mis\u00e9ria e ignor\u00e2ncia decretada, que era forma intr\u00ednseca do fascismo luso. Essa oposi\u00e7\u00e3o valeu-lhe v\u00e1rias pris\u00f5es nos curros da PIDE: Aljube, Caxias, Rua do Hero\u00edsmo (Porto) e Peniche. Nesta \u00faltima, Borges Coelho casaria com Isabel Coelho, a\u00ed escreveu dois hinos de revolta contra a repress\u00e3o, que cantores como Lu\u00eds C\u00edlia, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire, espalhariam pelo Pa\u00eds:&nbsp;<em>Paisagem&nbsp;<\/em>e&nbsp;<em>Sou Barco.&nbsp;<\/em>No p\u00e1tio de entrada do actual Museu Resist\u00eancia e Liberdade, em Peniche, podemos ler, junto a um monumento que representa a Liberdade conquistada em Abril, uma frase sua: \u201cDisseram n\u00e3o\u2026 para que a \u00e1gua da vida corresse limpa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Que falta ainda nos faz este vigor, esta superior forma de afirma\u00e7\u00e3o da l\u00edngua e da justi\u00e7a, a clareza e a coragem do verbo de Cam\u00f5es. Para os que questionam a import\u00e2ncia de ler hoje&nbsp;<em>Os Lus\u00edadas,&nbsp;<\/em>a interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que dele nos d\u00e1 Ant\u00f3nio Borges Coelho \u00e9 adequada resposta, l\u00facida e actuante.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ant\u00f3nio Borges Coelho \u2013 Os Lus\u00edadas \u2013 Antologia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tem\u00e1tica e Texto Cr\u00edtico \u2013 Edi\u00e7\u00f5es Avante!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Borges Coelho faz, neste livro, uma leitura nova e actuante de\u00a0Os Lus\u00edadas,\u00a0investindo e sobrelevando as estrofes socialmente comprometidas da nossa obra maior e universal. \u00c9 o Cam\u00f5es humano, defensor do povo mi\u00fado, que tinha esperan\u00e7a que o pa\u00eds inquisidor, beato e miser\u00e1vel mudasse e com ele as vontades,\u00a0Tomando sempre novas qualidades.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":9548,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9546"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9546"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9546\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9550,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9546\/revisions\/9550"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9546"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}