{"id":9538,"date":"2025-11-04T15:18:55","date_gmt":"2025-11-04T15:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9538"},"modified":"2025-11-10T16:05:05","modified_gmt":"2025-11-10T16:05:05","slug":"a-transicao-energetica-deve-incluir-os-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/11\/04\/a-transicao-energetica-deve-incluir-os-trabalhadores\/","title":{"rendered":"A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica deve incluir os trabalhadores"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1975, \u00e9 criada a empresa p\u00fablica Transportes Tejo no \u00e2mbito da pol\u00edtica de nacionaliza\u00e7\u00f5es iniciada com a Revolu\u00e7\u00e3o de 25 de Abril, que procurava obter o controlo p\u00fablico sobre setores estrat\u00e9gicos fundamentais para o desenvolvimento social e econ\u00f3mico do pa\u00eds. \u00c0 semelhan\u00e7a de outros processos de nacionaliza\u00e7\u00e3o desenvolvidos na altura, a Transtejo &#8211; como viria a ser referida &#8211; resulta da fus\u00e3o dos operadores privados que exploravam as liga\u00e7\u00f5es fluviais entre Lisboa e a margem sul, nomeadamente: a Sociedade Mar\u00edtima de Transportes, Lda; a Empresa de Transportes Tejo, Lda; a Sociedade Nacional Motonaves, Lda; a Sociedade Jer\u00f3nimo Rodrigues Dur\u00e3o, Herd, Lda e a Sociedade Dam\u00e1sio, Vasques e Santos, Lda.. O Decreto-Lei n.\u00ba 701-D\/75 de 17 de dezembro que concretizou a nacionaliza\u00e7\u00e3o invocava raz\u00f5es de degrada\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e insufici\u00eancia operacional dos transportes, que punham em causa a atividade de transporte fluvial e a oferta ao servi\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o local. A nacionaliza\u00e7\u00e3o era entendida como essencial para assegurar o normal funcionamento de um servi\u00e7o de transportes que se encontrava fortemente em risco.<\/p>\n\n\n\n<p>O atual modelo operacional dos transportes fluviais no Tejo encontra-se fragmentado entre concess\u00f5es, cons\u00f3rcios e intermedi\u00e1rios. Esta estrutura, ou a falta dela, dilui a capacidade de interven\u00e7\u00e3o direta do Estado, reduzindo-o ao papel de mero fiscalizador. Acresce que a aus\u00eancia de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica de longo prazo por parte de sucessivos Governos comprometeu o desenvolvimento articulado de pol\u00edticas de mobilidade e sustentabilidade, essenciais para alavancar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e defender o interesse p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano previsto para a conclus\u00e3o do processo de eletrifica\u00e7\u00e3o da frota, o Plano de Renova\u00e7\u00e3o aprovado por via da Resolu\u00e7\u00e3o de Ministros n.\u00ba11\/2019 e que previa a entrega faseada de 10 navios el\u00e9tricos at\u00e9 2025 ainda est\u00e1 por concretizar. A eletrifica\u00e7\u00e3o da frota foi alvo de um processo tragic\u00f3mico, com um pol\u00e9mico concurso pelo meio, cujo objeto consistia na compra de uma frota el\u00e9trica que n\u00e3o inclu\u00eda as baterias. Um concurso que parece ter atropelado o interesse p\u00fablico pelo caminho para satisfazer os interesses econ\u00f3micos das empresas envolvidas num contexto em que se pretende usar a travessia do rio Tejo como palco de um projeto-piloto que \u201ctransforma os trabalhadores em cobaias\u201d, como alerta Bruno Dias, da CDU e que tem acompanhado o tema de perto. No ecossistema da Uni\u00e3o Europeia, a periferia funciona muitas vezes como um campo de testes \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do capital e nada melhor do que o Estu\u00e1rio do Tejo, onde circulam cerca de 20 milh\u00f5es de passageiros transportados por ano \u2013 de acordo com os Relat\u00f3rios de Gest\u00e3o e Contas da Transtejo Soflusa, S.A. de 2023, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2024, realizaram-se as primeiras viagens experimentais. O que era entendido como um plano essencial para transformar o transporte fluvial e tornar a \u00c1rea Metropolitana de Lisboa numa refer\u00eancia na estrat\u00e9gia de descarboniza\u00e7\u00e3o da mobilidade deu lugar a uma opera\u00e7\u00e3o confusa que desconsiderou os trabalhadores numa experi\u00eancia que, tudo indica, n\u00e3o est\u00e1 a ser incr\u00edvel. Num comunicado de 2024, a Uni\u00e3o dos Sindicatos de Set\u00fabal\/CGTP-IN acusava a Transtejo de transformar o servi\u00e7o p\u00fablico num laborat\u00f3rio mal amanhado, no que identificou como um ataque \u00e0 causa p\u00fablica e \u00e0s vidas das pessoas que diariamente dependem deste transporte p\u00fablico para se deslocarem entre as margens. Os trabalhadores sinalizavam falhas operacionais nos pontos de carregamento das embarca\u00e7\u00f5es, assim como questionavam a capacidade das embarca\u00e7\u00f5es enfrentarem ventos superiores a 22 n\u00f3s, comuns no Inverno. A Uni\u00e3o dos Sindicatos de Set\u00fabal\/CGTP-IN apontava, ainda, a falta de capacidade da Transtejo de gerir a substitui\u00e7\u00e3o da frota de forma eficiente e eficaz, ao avan\u00e7ar com a nova frota sem garantias sobre a operacionalidade das novas embarca\u00e7\u00f5es, pondo em risco a oferta de transporte. Sobraram ainda cr\u00edticas aos exorbitantes valores j\u00e1 despendidos em prol de uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica que deixa muito a desejar. Um ano volvido desde o comunicado, os problemas sinalizados confirmam-se e persistem com embarca\u00e7\u00f5es ainda paradas no cais e pontos de carregamento por concretizar \u2013 com 1258 supress\u00f5es por avaria\/falta de manuten\u00e7\u00e3o e com o gas\u00f3leo a manter-se como principal recurso energ\u00e9tico consumido, de acordo com o Relat\u00f3rio de Gest\u00e3o e Contas da Transtejo Soflusa, S.A., de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Num panorama que relembra os motivos que impulsionaram a nacionaliza\u00e7\u00e3o em 1975, a falta de estrat\u00e9gia econ\u00f3mica e o desinteresse num planeamento eficiente que tenha em considera\u00e7\u00e3o a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores da Transtejo e dos que usam o barco como meio de transporte di\u00e1rio s\u00e3o gritantes. Uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica eficiente, justa e inclusiva n\u00e3o depende apenas de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ou de investimento econ\u00f3mico, mas antes de uma estrat\u00e9gia que promova a integra\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e que valorize o seu conhecimento t\u00e9cnico e pr\u00e1tico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gest\u00e3o absolutamente desastrosa da Transtejo levou \u00e0 compra de barcos el\u00e9tricos sem as baterias necess\u00e1rias e depois de compradas as baterias faltavam os pontos de carregamento.<\/p>\n","protected":false},"author":156,"featured_media":9539,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[50],"tags":[],"coauthors":[251],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9538"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/156"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9538"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9538\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9541,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9538\/revisions\/9541"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9539"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9538"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}