{"id":9519,"date":"2025-11-04T14:56:30","date_gmt":"2025-11-04T14:56:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9519"},"modified":"2025-12-05T09:23:36","modified_gmt":"2025-12-05T09:23:36","slug":"a-resistente-alda-nogueira-professora-na-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/11\/04\/a-resistente-alda-nogueira-professora-na-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"A resistente Alda Nogueira, professora n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Pouco tempo depois do 25 de Abril, Alda Nogueira contou que tinha sido professora d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu no per\u00edodo a seguir a terminar o curso, na Faculdade de Ci\u00eancias, em 1946. E antes de passar \u00e0 clandestinidade, em 1949.<\/p>\n\n\n\n<p>Disse ela:&nbsp;<em>\u201cLogo a seguir \u00e0 minha formatura ainda exerci a minha profiss\u00e3o como professora legal na Escola Industrial Alfredo da Silva, no Barreiro, na Voz do Oper\u00e1rio,&nbsp;<\/em>[em Lisboa, e noutra escola]<em>, em Olh\u00e3o\u201d<\/em>&nbsp;[Melo (1975), p.178].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Palavras diferentes<\/h2>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, tem sido divulgada uma \u2018informa\u00e7\u00e3o\u2019 da PIDE, de que Alda Nogueira deu aulas num suposto \u201cExternato Comercial da Voz do Oper\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria da resist\u00eancia em Portugal, esta \u00e9 precisamente uma das mais abundantes fontes de equ\u00edvocos: a propens\u00e3o a reproduzir-se, de forma acr\u00edtica, as \u2018informa\u00e7\u00f5es\u2019 da pol\u00edcia pol\u00edtica. Sem o elementar cruzamento com outras fontes. E repetindo a sua terminologia, os seus conceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se a PIDE fosse um modelo historiogr\u00e1fico de rigor cient\u00edfico e de respeito pela verdade\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m dos problemas levantados pela sua fun\u00e7\u00e3o repressiva, por exemplo na manipula\u00e7\u00e3o de interrogat\u00f3rios e respectivas transcri\u00e7\u00f5es, importa ter presente a sua fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, difusora de determinados \u201cvalores\u201d. Essa fun\u00e7\u00e3o que Althusser assinalava estar presente em todos os \u201caparelhos de Estado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que a PIDE chamou de \u201cexternato\u201d era o curso comercial d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>E estas palavras fazem diferen\u00e7a. Porque A Voz do Oper\u00e1rio n\u00e3o \u00e9, nunca foi, uma vulgar escola privada, com fins lucrativos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um projecto colectivo, desde a origem norteado por fins de solidariedade e igualdade social. E com a identidade de classe que o seu nome expressa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Em 1948<\/h2>\n\n\n\n<p>A contrata\u00e7\u00e3o de Alda Nogueira ficou registada na reuni\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio de 17 de Mar\u00e7o de 1948. Foi admitida para substituir outra professora, a meio do ano lectivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma jovem com 25 anos de idade. Mas j\u00e1 era uma assumida opositora \u00e0 ditadura de Salazar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1945, aderiu ao Movimento de Unidade Democr\u00e1tica (MUD) &#8211; que a ditadura ilegalizou em menos de dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1947, proferiu uma confer\u00eancia versando a mulher e a ci\u00eancia, no \u00e2mbito de uma exposi\u00e7\u00e3o sobre livros escritos por mulheres. Um evento que, de tal forma incomodou o regime, que este resolveu encerrar a associa\u00e7\u00e3o promotora &#8211; o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessa, Alda Nogueira estava envolvida na Associa\u00e7\u00e3o Feminina para a Paz. Outra que acabaria encerrada pelas autoridades, 4 anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>E, desde 1942, que era militante do Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP) &#8211; este ilegalizado logo em 1927, nos prim\u00f3rdios da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando deu aulas n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Alda Nogueira era uma das tr\u00eas respons\u00e1veis pelo&nbsp;<em>\u201csetor de mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das mulheres comunistas\u201d<\/em>. Um organismo que&nbsp;<em>\u201ctrabalhava \u00e0 escala nacional\u201d<\/em>, em&nbsp;<em>\u201cmovimentos democr\u00e1ticos associativos, recreativos, desportivos, etc\u201d<\/em>&nbsp;[Melo (1975), p.177].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E depois?<\/h2>\n\n\n\n<p>Um ano depois de dar aulas n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, a professora Alda Nogueira abdicou da sua carreira profissional, para se consagrar \u00e0 resist\u00eancia que o seu partido movia contra a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou a viver na clandestinidade e veio a ser uma das primeiras mulheres no comit\u00e9 central do PCP. Com um papel dirigente que n\u00e3o se limitou a tratar apenas de quest\u00f5es estritamente femininas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 testemunho de que foi respons\u00e1vel pela estrutura do PCP entre os empregados banc\u00e1rios e dos seguros [Samara (2019), p.42].<\/p>\n\n\n\n<p>E pode verificar-se o conjunto de 5 artigos que publicou na revista te\u00f3rica do seu partido, entre 1954 e 1958. Os quais assinou com o pseud\u00f3nimo \u00abL\u00eddia\u00ab [PCP (2023), p.9].<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro versou sobre \u201ca mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das mulheres\u201d. Os dois seguintes abordaram o papel dos intelectuais e dos cat\u00f3licos na luta contra a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>No quarto artigo, sobre o 20\u00ba Congresso do PC da URSS, expressou uma vis\u00e3o cr\u00edtica do stalinismo, ou \u201cculto da personalidade de St\u00e1line\u201d, como ent\u00e3o foi designado. E no \u00faltimo artigo, publicado em Mar\u00e7o de 1958, analisou o \u201cmomento pol\u00edtico nacional\u201d, perante as pseudo-elei\u00e7\u00f5es presidenciais que a ditadura iria encenar, nesse ano.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que, como aconteceu a milhares de pessoas, Alda Nogueira foi presa pela PIDE. Mas poucas mulheres foram sujeitas a t\u00e3o longos anos de c\u00e1rcere em Portugal, por motivos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Em liberdade<\/h2>\n\n\n\n<p>Derrubada a ditadura, voltou-se a ouvir a voz de Alda Nogueira n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Abril de 1976, participou, aqui, num evento do PCP, no qual defendeu a necessidade de serem&nbsp;<em>\u201ccriadas condi\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f3micas e outras, assim como estruturas (creches, jardins de inf\u00e2ncia, cantinas, etc.) que facilitem a vida das mulheres trabalhadoras\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m apelou \u00e0 mem\u00f3ria hist\u00f3rica. Recordou os governos da ditadura, que&nbsp;<em>\u201centoavam loas \u00e0 fam\u00edlia. Mas que fizeram eles na pr\u00e1tica? [&#8230;] toda a sua pol\u00edtica de discrimina\u00e7\u00e3o, obscurantismo, opress\u00e3o e super explora\u00e7\u00e3o mais n\u00e3o fez que agravar a inseguran\u00e7a, a coes\u00e3o e a harmonia da fam\u00edlia e, em especial, das fam\u00edlias trabalhadoras\u201d<\/em>&nbsp;[O Di\u00e1rio, 09\/04\/1976, p.12].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alda Nogueira foi uma das mulheres que mais se destacaram na resist\u00eancia \u00e0 ditadura de Salazar. Por isso esteve presa, durante 9 anos da sua vida, no Forte de Caxias.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":9520,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9519"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9519"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9519\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9660,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9519\/revisions\/9660"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9520"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9519"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}