{"id":9442,"date":"2025-10-14T14:56:46","date_gmt":"2025-10-14T14:56:46","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9442"},"modified":"2025-10-14T14:56:47","modified_gmt":"2025-10-14T14:56:47","slug":"ramada-curto-na-voz-do-operario-um-advogado-sindical-e-antifascista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/10\/14\/ramada-curto-na-voz-do-operario-um-advogado-sindical-e-antifascista\/","title":{"rendered":"Ramada Curto n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio: Um advogado sindical e antifascista"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 10 de Maio de 1931, A Voz do Oper\u00e1rio esteve no epicentro da resist\u00eancia democr\u00e1tica em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a ditadura militar que mandava. E cantava vit\u00f3ria. Apoiada na cumplicidade da marinha de guerra inglesa, vinha de sufocar uma insurrei\u00e7\u00e3o armada na ilha da Madeira. Em Lisboa, tinha esmagado uma onda de contesta\u00e7\u00e3o estudantil.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem todos os ventos sopravam a seu favor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Espanha, ca\u00edra a ditadura do general Primo de Rivera e a pr\u00f3pria monarquia da fam\u00edlia Borb\u00f3n. Na Alemanha, o poder pol\u00edtico e econ\u00f3mico ainda n\u00e3o entregara o governo nas m\u00e3os do nazi Adolf Hitler.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, em Portugal, o regime militar anunciou elei\u00e7\u00f5es. O general Carmona prometeu que \u201cas elei\u00e7\u00f5es ser\u00e3o livres e que nelas poder\u00e3o exprimir a sua vontade todos os cidad\u00e3os\u201d [<em>Di\u00e1rio de Lisboa<\/em>, 23.05.1931, p.7].<\/p>\n\n\n\n<p>Esta perspectiva deu origem a uma primeira frente de unidade da oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Teve o nome de \u00abAlian\u00e7a Republicana-Socialista\u00bb. E suscitou um certo entusiasmo, de norte a sul do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois o impulso para a sua cria\u00e7\u00e3o foi um discurso proferido n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, por Am\u00edlcar Ramada Curto. No dia 10 de Maio, daquele ano de 1931.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ilus\u00e3o ef\u00e9mera<\/h2>\n\n\n\n<p>Rapidamente se percebeu, por\u00e9m, que n\u00e3o haveria elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de Agosto, for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o levantaram-se numa insurrei\u00e7\u00e3o armada, em Lisboa. Numa tentativa para derrubar a ditadura. E s\u00f3 foram derrotadas \u00e0 custa de duros combates, em v\u00e1rios pontos da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfrentaram a repress\u00e3o ditatorial. Al\u00e9m de mortos e feridos, centenas de pessoas foram presas. Um dos encarcerados foi o professor Sim\u00f5es Raposo, que era o secret\u00e1rio-geral da Alian\u00e7a Republicana-Socialista. O qual seria, rapidamente, deportado para a ilha de Timor.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos depois, o poder militar transformou-se num regime de tipo fascista &#8211; o chamado \u201cEstado Novo\u201d, sob a lideran\u00e7a de Salazar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Resistentes antifascistas<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas alguma coisa ficou, daquela Alian\u00e7a de 1931. Alguns dos seus dirigentes estiveram depois, durante d\u00e9cadas, na linha da frente de outros movimentos da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Nomes como M\u00e1rio de Azevedo Gomes, presidente da comiss\u00e3o central do MUD (Movimento de Unidade Democr\u00e1tica), em 1945. Ou Norton de Matos, candidato da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pseudo-elei\u00e7\u00f5es presidenciais que a ditadura encenou, em 1949.<\/p>\n\n\n\n<p>Ramada Curto, j\u00e1 com a sa\u00fade debilitada, ainda veio a fazer parte da comiss\u00e3o nacional da candidatura de Humberto Delgado, em 1958.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela dire\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a Republicana-Socialista passaram tamb\u00e9m algumas figuras marcantes na hist\u00f3ria d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Como o professor Sim\u00f5es Raposo, que, no regresso da deporta\u00e7\u00e3o, aqui assumiu a dire\u00e7\u00e3o escolar. Ou o poeta Alfredo Guisado, que veio a ser presidente da assembleia geral desta coletividade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dirigente socialista<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas, al\u00e9m de opositor \u00e0 ditadura, quem foi Am\u00edlcar Ramada Curto?<\/p>\n\n\n\n<p>No pa\u00eds do seu tempo, salientou-se como um dos mais c\u00e9lebres advogados e autores de teatro. O escritor Urbano Tavares Rodrigues, diria mesmo que, nessas \u00e1reas, Ramada Curto foi \u201cuma das figuras mais brilhantes\u201d do s\u00e9culo XX portugu\u00eas [DL, 19\/10\/1961, p.1].<\/p>\n\n\n\n<p>Mas igualmente se destacou pela sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1907, Ramada Curto foi um dos l\u00edderes da maior vaga de contesta\u00e7\u00e3o estudantil contra o velho regime da monarquia. Na revolu\u00e7\u00e3o de 1910, \u201corganizou o comit\u00e9 acad\u00e9mico e civil, em Coimbra, que tinha a dire\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do centro do pa\u00eds e colaborava com o comit\u00e9 militar\u201d que derrubou a monarquia [Eduardo Lemos (1911), p.34].<\/p>\n\n\n\n<p>Foi deputado e ministro da 1\u00aa Rep\u00fablica. No per\u00edodo da 1\u00aa Guerra Mundial, esteve na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s breves ditaduras do general Pimenta de Castro e do coronel Sid\u00f3nio Pais. Nesta \u00faltima, chegou mesmo a passar \u00e0 clandestinidade e a ser preso pol\u00edtico (no pres\u00eddio militar de Santar\u00e9m).<\/p>\n\n\n\n<p>Ligou-se depois ao movimento oper\u00e1rio, aderindo ao antigo Partido Socialista Portugu\u00eas. De cujo conselho central veio a ser presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Proferiu confer\u00eancias sobre marxismo, na Universidade Popular Portuguesa e na Associa\u00e7\u00e3o Recreativa Oper\u00e1ria Beatense. Foi advogado sindical de v\u00e1rios setores profissionais, como os trabalhadores dos Correios, os estivadores e o pessoal da Carris de Lisboa. E ainda foi advogado d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio &#8211; que fez quest\u00e3o de servir gratuitamente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Teatro<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo Urbano Tavares Rodrigues, o teatro de Ramada Curto era \u201cdial\u00e9ctico, dram\u00e1tico, pol\u00e9mico\u201d. Ressumava de \u201cverve e ironia\u201d. E \u201ctraduzia os conflitos de classes que a era da industrializa\u00e7\u00e3o viu surgir e crescer\u201d [<em>ibidem<\/em>].<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos seus maiores sucessos foi a pe\u00e7a \u201cA Recompensa\u201d. Onde a personagem principal \u00e9 uma antiga oper\u00e1ria t\u00eaxtil que assume a dire\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica. Foi interpretada por duas grandes atrizes: Am\u00e9lia Rey Cola\u00e7o, quando estreou, em 1938, no Teatro Nacional D. Maria II. E por Eunice Munoz, em 1964, quando foi adaptada \u00e0 televis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma pe\u00e7a encenada durante anos, por diversos grupos amadores, em coletividades de diferentes pontos do pa\u00eds. Por exemplo, em 1945, na \u00abSociedade Oper\u00e1ria de Instru\u00e7\u00e3o e Recreio Joaquim Ant\u00f3nio Aguiar\u00bb, de \u00c9vora. Ou, em 1946, no \u00abClube Uni\u00e3o Sporting\u00bb, de Alcanh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi exibida na esplanada d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, em 1939. Numa \u201cfeira art\u00edstica\u201d ao ar livre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No pa\u00eds do seu tempo, salientou-se como um dos mais c\u00e9lebres advogados e autores de teatro. 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