{"id":9412,"date":"2025-09-02T09:08:05","date_gmt":"2025-09-02T09:08:05","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9412"},"modified":"2025-09-09T21:29:57","modified_gmt":"2025-09-09T21:29:57","slug":"o-porque-de-portugal-ser-o-pais-que-mais-arde-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/09\/02\/o-porque-de-portugal-ser-o-pais-que-mais-arde-na-europa\/","title":{"rendered":"O porqu\u00ea de Portugal ser o pa\u00eds que mais arde na Europa"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00e1 ardeu mais de um milh\u00e3o de hectares este ano na Uni\u00e3o Europeia por causa dos inc\u00eandios florestais, o que representa o valor mais elevado desde que os registos oficiais come\u00e7aram em 2006, segundo dados da UE. Cerca de um quarto da \u00e1rea ardida, (quase 300 mil hectares) registou-se em Portugal, de acordo com dados do Sistema Europeu de Informa\u00e7\u00e3o sobre Inc\u00eandios Florestais da UE (EFFIS).<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rea ardida total em Portugal chega j\u00e1 a<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/26\/azul\/noticia\/portugal-ardeu-quarto-milhao-hectares-consumido-fogo-ue-ano-2145037\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;3,04% do territ\u00f3rio<\/a>. Em m\u00e9dia, nos \u00faltimos 18 anos, a percentagem foi de 1,05%, tr\u00eas vezes mais do que a da Gr\u00e9cia, que ocupa o segundo lugar. No Estado espanhol, que est\u00e1 a viver uma das piores vagas de inc\u00eandios da sua hist\u00f3ria, j\u00e1 ardeu 0,81% do seu territ\u00f3rio &#8211; 413.992 hectares.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal \u00e9 o pa\u00eds que mais arde na Europa em termos absolutos desde h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas. Este ano tivemos o maior inc\u00eandio da hist\u00f3ria do pa\u00eds &#8211; em Pi\u00f3d\u00e3o o fogo consumiu cerca de 64 mil hectares.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conjunto, Espanha e Portugal representaram cerca de dois ter\u00e7os da \u00e1rea ardida da UE. Os dados do EFFIS revelam um aumento acentuado dos inc\u00eandios florestais entre 5 e 19 de Agosto, um per\u00edodo que coincidiu com uma onda de calor <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/16\/azul\/noticia\/ondas-calor-80-dias-podem-passar-comuns-norte-centro-pais-2144035\" target=\"_blank\"><\/a>de 16 dias na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas est\u00e3o a agravar os inc\u00eandios florestais<\/h2>\n\n\n\n<p>Existe um consenso cient\u00edfico na rela\u00e7\u00e3o existente entre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e o aumento da probabilidade de inc\u00eandios florestais extremos em todo o mundo. Segundo a revista Nature, o ritmo de crescimento dessa probabilidade tem sido de&nbsp;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41612-025-01021-z\" rel=\"noreferrer noopener\">5,2% por d\u00e9cada,<\/a>&nbsp;entre 2002 e 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, por exemplo, entre 2001 e 2021 os inc\u00eandios florestais espalharam-se de uma forma muito mais acelerada, entre 2% e 8,3% mais r\u00e1pida, do que no per\u00edodo pr\u00e9-industrial. Tamb\u00e9m podemos concluir, atrav\u00e9s de&nbsp;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-025-61608-1\" rel=\"noreferrer noopener\">estudos recentes<\/a>, que este tipo de inc\u00eandios extremos s\u00e3o entre 88% e 152% mais prov\u00e1veis em zonas florestais com o clima atual.<\/p>\n\n\n\n<p>A acelera\u00e7\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e o subsequente aumento dos inc\u00eandios, que&nbsp;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.elsaltodiario.com\/cambio-climatico\/el-ipcc-subestimando-aceleracion-crisis-climatica-una-eminencia-cientifica-dice\" rel=\"noreferrer noopener\">segundo James Hansen<\/a>&nbsp;&#8211; considerado o \u201cpai do aquecimento global\u201d &#8211; pode ser bem pior do que o calculado pela maioria dos modelos clim\u00e1ticos, \u00e9 uma realidade ineg\u00e1vel que tudo indica estar apenas no in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O monocultivo de eucaliptos em Portugal<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 sabido que o cultivo de eucaliptos, como crescem rapidamente, reduzem drasticamente a disponibilidade de \u00e1gua no solo para outras plantas e animais. Al\u00e9m disso, s\u00e3o altamente inflam\u00e1veis e aumentam o risco de inc\u00eandios florestais.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal \u00e9 o pa\u00eds com maior \u00e1rea plantada de eucalipto na europa em termos absolutos (sim, em termos absolutos, n\u00e3o em \u00e1rea relativa) e com a maior \u00e1rea relativa de eucaliptal do mundo &#8211; 10% da superf\u00edcie do territ\u00f3rio, ou seja, perto de 900 mil hectares. Essa realidade coincide com o facto de Portugal ser o pa\u00eds com a menor \u00e1rea p\u00fablica florestal da Europa e um dos pa\u00edses com maior \u00e1rea do seu territ\u00f3rio abandonada pelos propriet\u00e1rios e herdeiros. Todos estes fatores ajudam a explicar o enorme problema que o nosso pa\u00eds tem com os inc\u00eandios todos os anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 novo, mas tem culpados. Os sucessivos governos nas \u00faltimas d\u00e9cadas incentivaram a mercantiliza\u00e7\u00e3o da floresta Portuguesa e o abandono do mundo rural. A cultura intensiva de eucaliptos tem vindo a crescer exponencialmente, ajudada por pol\u00edticas governamentais, como \u00e9 o caso da chamada lei dos Eucaliptos. Esta lei, aprovada pelo Governo de coliga\u00e7\u00e3o PSD-CDS em 2013, fez com que&nbsp;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/nacional\/liberalizacao-dos-eucaliptos-de-cristas-faz-cinco-anos\" rel=\"noreferrer noopener\">81%<\/a>&nbsp;das a\u00e7\u00f5es de arboriza\u00e7\u00e3o ou rearboriza\u00e7\u00e3o em Portugal tenham sido de eucaliptos entre 2013 e 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o deste tipo de leis s\u00e3o fruto da forte influ\u00eancia que a ind\u00fastria da celulose exerce sobre o poder pol\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 por acaso que vemos Francisco Gomes da Silva, o secret\u00e1rio de Estado que aprovou a Lei dos Eucaliptos, tornar-se diretor-geral da Associa\u00e7\u00e3o da Ind\u00fastria Papeleira. Esta promiscuidade entre o Estado e a ind\u00fastria da celulose n\u00e3o \u00e9 nova. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, podemos identificar, entre ministros e secret\u00e1rios de Estado, pelo menos&nbsp;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2021-04-11-O-secretario-de-Estado-que-aprovou-a-Lei-dos-Eucaliptos-tornou-se-diretor-geral-das-celuloses-e4ff16ab\" rel=\"noreferrer noopener\">14 personalidades<\/a>&nbsp;do CDS, PSD e PS que tenham tido cargos nas celuloses depois de terem exercido os seus cargos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Actual governo cortou 44% das verbas destinadas para as florestas &#8211; o equivalente a 114 milh\u00f5es de euros<\/h2>\n\n\n\n<p>Esta redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de apoios p\u00fablicos p\u00f4s em causa a gest\u00e3o florestal e a preven\u00e7\u00e3o de fogos rurais. Ou seja, apenas 5% dos territ\u00f3rios vulner\u00e1veis a inc\u00eandios foram apoiados por investimento p\u00fablico. Para termos uma ideia, Portugal \u00e9 o terceiro pa\u00eds que menos investe na protec\u00e7\u00e3o contra inc\u00eandios, o equivalente a apenas 0,3% da despesa governamental. O resultado est\u00e1 \u00e0 vista.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes inc\u00eandios n\u00e3o s\u00e3o fen\u00f3menos isolados nem \u201cnaturais\u201d. S\u00e3o express\u00f5es de um sistema que destr\u00f3i o pa\u00eds e o planeta, acelerado pelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas induzidas pela nossa ordem socioecon\u00f3mica e agravado por pol\u00edticas de ordenamento do territ\u00f3rio que est\u00e3o directamente ligadas \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o, ao lucro e ao crescimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Europa nunca tinha ardido tanto. Os inc\u00eandios deste ver\u00e3o exp\u00f5em a forma como as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, a neglig\u00eancia com a terra e o capitalismo transformam as florestas em combust\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"author":99,"featured_media":9413,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[196],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9412"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/99"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9412"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9412\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9425,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9412\/revisions\/9425"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9413"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9412"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}