{"id":9380,"date":"2025-09-01T15:53:02","date_gmt":"2025-09-01T15:53:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9380"},"modified":"2025-10-14T17:49:55","modified_gmt":"2025-10-14T17:49:55","slug":"contra-o-genocidio-resistir-e-condicao-para-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/09\/01\/contra-o-genocidio-resistir-e-condicao-para-existir\/","title":{"rendered":"Contra o genoc\u00eddio, resistir \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para existir"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma menina palestina aponta no quadro da escola a realidade que conhece: um avi\u00e3oque lan\u00e7a uma bomba; tendas de um acampamento e pessoas a fugir desesperadas.A imagem lembra de forma arrepiante os crimes que Israel tem cometido sobre Gazanestes \u00faltimos quase dois anos. Contudo, a imagem n\u00e3o parece atual. O escrito num cantodo quadro tira as d\u00favidas: trata-se da li\u00e7\u00e3o de 15 de Janeiro de 1980 da turma do 2.\u00ba ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina, se for ainda viva, ter\u00e1 hoje 52, 53 anos. Provavelmente foi m\u00e3e, quem sabe, talvez seja j\u00e1 av\u00f3. Os seus antepassados diretos viveram a Nakba \u2013 a primeira grande campanha de chacina e expuls\u00e3o dos palestinos das suas terras, em 1948 \u2013 e a Naksa de 1967 \u2013 a segunda destas grandes opera\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s da qual Israel se apoderou de territ\u00f3rios destinados pelo pr\u00f3prio ato da sua funda\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Estado da Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas estas gera\u00e7\u00f5es de palestinos e em qualquer circunst\u00e2ncia territorial que se encontrem \u2013 os que vivem dentro das fronteiras de 1949 do Estado de Israel, os que vivem nos territ\u00f3rios ocupados em 1967 (Cisjord\u00e2nia, Gaza, Jerusal\u00e9m Oriental) ou na di\u00e1spora, nos pa\u00edses lim\u00edtrofes ou espalhados pelo mundo \u2013 viveram as humilha\u00e7\u00f5es, os horrores e a viol\u00eancia que t\u00eam sido os instrumentos atrav\u00e9s dos quais o projeto sionista se tem imposto, dentro e fora da Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo excluindo Gaza, a lista de crimes perpetrados por Israel contra o povo palestino \u00e9 infind\u00e1vel, tenebrosa, indecente. Nos dias que correm, contudo, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o falar sobre Gaza. Aconte\u00e7a o que acontecer, os crimes cometidos por Israel em Gaza ficar\u00e3o para sempre como uma das p\u00e1ginas mais tristes e vergonhosas da Hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Este pequeno territ\u00f3rio de 365&nbsp;km<sup>2<\/sup>&nbsp;(pouco mais que o concelho de Sintra) que contava em 2022 cerca de 2&nbsp;400&nbsp;000 habitantes, n\u00e3o teria mais de 100&nbsp;000 em 1948. Como se explica esta espantosa evolu\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica? Com a limpeza \u00e9tnica que Israel come\u00e7ou em 1948, grande parte da popula\u00e7\u00e3o expulsa das suas terras noutras zonas da Palestina hist\u00f3rica refugiou-se aqui. Todas as injusti\u00e7as que se seguiram t\u00eam, portanto, como pano de fundo esta injusti\u00e7a inicial: a espolia\u00e7\u00e3o de um povo e a expuls\u00e3o das suas terras.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros grandes massacres israelitas no territ\u00f3rio ao qual se tem chamado Faixa de Gaza (ent\u00e3o sob administra\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia) d\u00e3o-se em 1956, em Khan Younis e Rafah. Em 1967, Israel ocupa militarmente o territ\u00f3rio e come\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o de colonatos. Os abusos, viol\u00eancia e humilha\u00e7\u00f5es tornam-se di\u00e1rios. De notar que nem um metro quadrado do territ\u00f3rio de Gaza foi atribu\u00eddo a Israel no ato de funda\u00e7\u00e3o ou em qualquer negocia\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a ocupa\u00e7\u00e3o cresce tamb\u00e9m a resist\u00eancia. Em 1987 d\u00e1-se a Primeira Intifada \u2013 que eclode justamente em Gaza, no campo de refugiados de Jabalia \u2013 e, no ano 2000, a Segunda Intifada. A resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o e \u00e0s injusti\u00e7as foi sempre particularmente forte e determinada em Gaza, o que levou a que Israel retirasse os seus colonos do territ\u00f3rio em 2005. Pareceria at\u00e9 que a \u201cvingan\u00e7a\u201d, a a\u00e7\u00e3o de castigo coletivo que desde ent\u00e3o Israel leva a cabo contra Gaza, radica nas derrotas sucessivas dos seus intentos de roubar esta pequena faixa de terra aos seus habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a retirada de 2005, Israel come\u00e7a uma nova estrat\u00e9gia para derrotar, submeter e, em \u00faltima an\u00e1lise, eliminar, o povo palestino de Gaza: o bloqueio.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2005, o bloqueio de Gaza tem consistido no controlo total dos bens e pessoas que entram e saem de Gaza. Uma muralha, come\u00e7ada a construir nos anos 70 e desde ent\u00e3o aumentada e \u201caperfei\u00e7oada\u201d, rodeia todo o territ\u00f3rio de Gaza. O aeroporto foi destru\u00eddo por bombardeamentos e buld\u00f3zeres israelitas em 2002. O mar \u00e9 constantemente patrulhado por barcos e aeronaves israelitas, que nunca hesitaram em disparar a matar sobre os palestinos que se atrevam a sair para pescar ou sobre ativistas internacionais que tentem chegar a Gaza (como aconteceu contra a&nbsp;<em>Gaza Freedom Flotilla<\/em>&nbsp;em 2010).<\/p>\n\n\n\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o das possibilidades de vida \u2013 a restri\u00e7\u00e3o da entrada de alimentos, o desmantelamento do com\u00e9rcio e da economia, a obstru\u00e7\u00e3o ao abastecimento de \u00e1gua e de todos os bens essenciais, a interdi\u00e7\u00e3o da entrada a jornalistas internacionais, organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias ou de quem quer que pretenda entrar \u2013 que Israel imp\u00f5e sobre Gaza n\u00e3o \u00e9 uma realidade recente, mas uma pol\u00edtica com d\u00e9cadas que hoje atinge o n\u00edvel mais extremo.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2008, Israel tem ainda movido guerras e bombardeamentos massivos contra Gaza, al\u00e9m de in\u00fameros bombardeamentos seletivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018 e 2019, a juventude de Gaza levou a cabo uma a\u00e7\u00e3o com um nome altamente simb\u00f3lico e descritivo: a Grande Marcha de Retorno \u2013 queriam voltar \u00e0s terras dos seus pais e dos seus av\u00f3s, direito que \u00e9 negado a todos os palestinos. Israel respondeu como sempre: a tiro e \u00e0 bomba. E a dita comunidade internacional tamb\u00e9m como sempre: com indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s justas reclama\u00e7\u00f5es dos palestinos e com objetivo apoio a Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Posto isto, e isto \u00e9 apenas um \u00ednfimo resumo da realidade vivida por Gaza e pelo povo palestino desde 1948, como \u00e9 poss\u00edvel sequer usar os acontecimentos de 7 de Outubro de 2023 para explicar os crimes que Israel pratica contra o povo palestino?<\/p>\n\n\n\n<p>No meio de tantas injusti\u00e7as, viol\u00eancia e humilha\u00e7\u00f5es que tudo pretendem roubar ao povo palestino \u2013 a terra, a cultura, a hist\u00f3ria \u2013 querem tamb\u00e9m roubar-lhe o direito a resistir. E essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual tantos pretendem apresentar o \u201c7 de Outubro\u201d como o pecado original.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o povo palestino, e enquanto n\u00e3o vir garantidos os seus direitos nacionais, resistir \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para existir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo excluindo Gaza, a lista de crimes perpetrados por Israel contra o povo palestino \u00e9 infind\u00e1vel, tenebrosa, indecente. Nos dias que correm, contudo, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o falar sobre Gaza. Aconte\u00e7a o que acontecer, os crimes cometidos por Israel em Gaza ficar\u00e3o para sempre como uma das p\u00e1ginas mais tristes e vergonhosas da Hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"author":152,"featured_media":9381,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[249],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9380"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/152"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9380"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9380\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9498,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9380\/revisions\/9498"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9381"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9380"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}