{"id":9362,"date":"2025-09-01T15:38:51","date_gmt":"2025-09-01T15:38:51","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9362"},"modified":"2025-10-14T17:47:03","modified_gmt":"2025-10-14T17:47:03","slug":"voltaria-a-atirar-os-sapatos-contra-george-bush","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/09\/01\/voltaria-a-atirar-os-sapatos-contra-george-bush\/","title":{"rendered":"Muntadhar al-Zaidi: \u201cVoltaria a atirar os sapatos contra George Bush\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Como foi crescer durante a lideran\u00e7a de Saddam Hussein?<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa vida era feita de medo, desfiles militares, imagens de guerra na televis\u00e3o. Quando era ainda crian\u00e7a costumava ver imagens do conflito com o Ir\u00e3o. Depois da invas\u00e3o do Kuwait, em 1990, fomos atacados por 33 pa\u00edses atrav\u00e9s da opera\u00e7\u00e3o Tempestade no Deserto [opera\u00e7\u00e3o militar liderada pelos Estados Unidos contra o Iraque]. Habitu\u00e1mo-nos a ver m\u00edsseis a cair sobre Bagdade. Nasci em 1979, no ano em que Ruhollah Khomeini chegou ao poder no Ir\u00e3o. As minhas primeiras mem\u00f3rias s\u00e3o das imagens de soldados mortos na guerra entre o Iraque e o Ir\u00e3o. Pod\u00edamos ver os corpos dos iranianos todos os dias na televis\u00e3o de manh\u00e3 \u00e0 noite. Eram imagens que ficavam na cabe\u00e7a. Isso foi a minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O que achava de Saddam Hussein?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o gostava dele. Saddam amedrontava o nosso povo. Entretanto, por culpa dos Estados Unidos sofremos com as san\u00e7\u00f5es e pass\u00e1mos muito mal. Eles viviam luxuosamente e n\u00f3s na mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O que sentiu quando os Estados Unidos invadiram o Iraque?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o queria acreditar na queda de Saddam. N\u00f3s pens\u00e1vamos que ele ia durar para sempre no poder. Era algo inacredit\u00e1vel. Mas ao mesmo tempo estavam a ocupar o nosso pa\u00eds. Os norte-americanos andavam nas nossas ruas com metralhadoras e tanques. Est\u00e1vamos outra vez em guerra e, simultaneamente, pergunt\u00e1vamo-nos onde estavam os milhares de soldados de Saddam e todas as armas. Desapareceram. Eu trabalhava no jornal da Uni\u00e3o de Estudantes, onde me tornei editor-chefe, e depois comecei a trabalhar na televis\u00e3o. Usei a minha voz como arma contra a ocupa\u00e7\u00e3o. Naturalmente, acabei por apoiar a resist\u00eancia, embora n\u00e3o fizesse parte dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Teve problemas com o ex\u00e9rcito norte-americano?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, fui detido duas vezes e fui interrogado. Tamb\u00e9m fui raptado em 2007 por desconhecidos que me espancaram at\u00e9 perder a consci\u00eancia. Fui libertado dois dias depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E como \u00e9 que lhe ocorreu atacar o presidente George W. Bush?<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, depois de 2003, ap\u00f3s a invas\u00e3o, comecei a pensar numa maneira de fazer algo contra a ocupa\u00e7\u00e3o. Em 2004 ou 2005, fiz um testamento gravado porque tinha receio de morrer e, simultaneamente, tinha tamb\u00e9m receio de que alguma organiza\u00e7\u00e3o xiita, alguma for\u00e7a como a al-Qaeda ou o partido Baath reclamassem essa a\u00e7\u00e3o como sendo da sua autoria e eu como seu combatente. Nessa mensagem gravada expliquei que era independente, um filho desta terra, e que n\u00e3o seguia nenhum partido ou mil\u00edcia. Apenas um cidad\u00e3o iraquiano contra a ocupa\u00e7\u00e3o. \u201cEu sou Muftaz al-Zaid, sou jornalista iraquiano e vou atacar o m\u00e1ximo respons\u00e1vel pela ocupa\u00e7\u00e3o. Nada tenho contra o povo norte-americano. N\u00e3o estou contra voc\u00eas. Estou contra o homem em quem votaram\u201d. Depois, escondi a cassete e avisei o meu irm\u00e3o de que se eu morresse de forma inusual que publicasse o v\u00eddeo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Mas isso foi muito antes do incidente em 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu tentei apanh\u00e1-lo antes. No Egito, na Jord\u00e2nia, chegou a vir ao deserto do Iraque, em Al Anbar, mas nunca foi poss\u00edvel. At\u00e9 esse dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">At\u00e9 ao dia em que finalmente o apanhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Surgiu a situa\u00e7\u00e3o perfeita mas sem que estivesse \u00e0 espera. Eu n\u00e3o sabia que Bush vinha ao Iraque. Eu era correspondente chefe e nessa tarde estava na reda\u00e7\u00e3o a dar algumas indica\u00e7\u00f5es aos jornalistas antes de ir para casa. Nessa noite, tinha um rep\u00f3rter de imagem de turno. Ent\u00e3o, recebemos a informa\u00e7\u00e3o de que havia uma confer\u00eancia de imprensa no edif\u00edcio do primeiro-ministro na Zona Verde e que precisavam de dois operadores de c\u00e2mara. Eu respondi que n\u00e3o era poss\u00edvel e \u00e9 ent\u00e3o que me dizem que vai estar o presidente George Bush na confer\u00eancia. Imagine a minha surpresa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Imagino.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidi ir a casa na mesma. Mudei de sapatos, porque os que levava cal\u00e7ados eram novos [risos] e os que calcei eram usados e confort\u00e1veis. Quando fui para a Zona Verde, decidi ir sozinho para proteger a minha equipa de jornalistas. Fui o primeiro a chegar. Na sala, estava a bandeira iraquiana e a bandeira norte-americana. Ia mesmo acontecer. O meu cora\u00e7\u00e3o queria sair do peito. Depois, tivemos de sair para sermos revistados pela seguran\u00e7a norte-americana. N\u00e3o descobriram nada, claro. A minha \u201carma\u201d eram os sapatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Achou que podia ser morto?<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente. Imagine, tirar os sapatos e atir\u00e1-los. S\u00e3o v\u00e1rios movimentos, s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e tratava-se do presidente dos Estados Unidos. Podiam ter disparado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Na altura falou-se muito do simbolismo dos sapatos no mundo \u00e1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s devemos estar de frente para o nosso inimigo quando o atacamos. \u00c9 uma quest\u00e3o de honra. Em rela\u00e7\u00e3o aos sapatos, na nossa cultura, \u00e9 uma forma muito m\u00e1 de receber algu\u00e9m de quem n\u00e3o gostamos. Pior do que dar um estalo ou um murro. Naquele momento, eu queria mandar uma mensagem. E foi melhor n\u00e3o o ter atingido porque sen\u00e3o talvez houvesse algu\u00e9m a v\u00ea-lo como uma v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Na \u00e9poca, voc\u00ea foi visto como um her\u00f3i no mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda agora, muita gente vem ter comigo e diz-me que me v\u00ea assim. At\u00e9 nos Estados Unidos. Muitos agradecem-me pelo que fiz. Eu n\u00e3o sei porqu\u00ea, mas ningu\u00e9m esquece aquele epis\u00f3dio. Entretanto, depois de atirar os sapatos ao presidente norte-americano, acabei na pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Estive preso durante nove meses e desses tr\u00eas foram em solit\u00e1ria. Fecharam-me numa cela muito pequena sem acesso a qualquer luz solar, n\u00e3o podia ir ao p\u00e1tio e s\u00f3 tinha direito a ir \u00e0 casa de banho tr\u00eas vezes ao dia. Eu estava numa pris\u00e3o iraquiana controlada pelos norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Sofreu algum tipo de tortura?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, claro, durante tr\u00eas dias. Fui espancado e torturaram-me com eletrochoques. Perguntavam-me quem \u00e9 que estava por detr\u00e1s do que fiz, perguntavam-me por pa\u00edses, ag\u00eancias de intelig\u00eancia, mil\u00edcias. Os guardas do primeiro-ministro, muitos deles da fam\u00edlia do primeiro-ministro, tentavam que eu confessasse alguma coisa. Bateram-me muito. Disse-lhes que podiam ir a minha casa, abrir o arm\u00e1rio e procurar a cassete em que explico tudo. Ent\u00e3o, um dos guardas p\u00f4s uma arma contra a minha cabe\u00e7a, tirou o seguro e preparou-se para disparar. Outro gritou-lhe que n\u00e3o me podiam matar porque o mundo inteiro sabia quem eu era.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">N\u00e3o se arrepende? Voltaria a faz\u00ea-lo?<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que voltaria a faz\u00ea-lo. Provavelmente, George W. Bush achava que seria recebido com flores em Bagdade. Esta a\u00e7\u00e3o ficou na mem\u00f3ria de gente do mundo inteiro e do povo iraquiano como prova de que rejeit\u00e1vamos a ocupa\u00e7\u00e3o das for\u00e7as norte-americanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E o que pensa da situa\u00e7\u00e3o agora no M\u00e9dio Oriente?<\/p>\n\n\n\n<p>Gaza \u00e9, neste momento, uma vergonha para o mundo, uma vergonha para as Na\u00e7\u00f5es Unidas, para a Uni\u00e3o Europeia, para os Estados Unidos e tamb\u00e9m uma vergonha para os l\u00edderes \u00e1rabes. Porque eles v\u00eaem um pa\u00eds que faz coisas terr\u00edveis, um pa\u00eds que invade, que rouba terras e extermina pessoas, e ningu\u00e9m faz nada. Todos n\u00f3s temos de fazer alguma coisa para n\u00e3o fazer parte da responsabilidade da ocupa\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o em Gaza est\u00e1 a morrer de fome. Se abrissem uma pequena entrada na Faixa de Gaza, os iraquianos dariam toda a comida que necessitam os palestinianos. O povo iraquiano, n\u00e3o o governo. Os governos do Egito e da Jord\u00e2nia tampouco ajudam os palestinianos. Os pa\u00edses do Golfo P\u00e9rsico ajudam Israel com a ocupa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma loucura. Precisamos de os ajudar. E n\u00e3o por serem \u00e1rabes ou por serem mu\u00e7ulmanos. Mas porque a nossa humanidade vai morrer com o assassinato em massa desta popula\u00e7\u00e3o. No futuro, o que dir\u00e3o de n\u00f3s? O que dir\u00e1 a hist\u00f3ria do que fizemos no presente?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEste \u00e9 um beijo de despedida do povo iraquiano, seu c\u00e3o\u201d. Foi isto que Muntadhar al-Zaidi gritou ao ent\u00e3o presidente norte-americano George W. Bush, em 2008, quando lhe atirou os dois sapatos a meio de uma confer\u00eancia de imprensa em Bagdade. Em plena ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque pelos Estados Unidos, as imagens correram o mundo e o jornalista iraquiano acabou torturado numa cela e preso durante nove meses. Her\u00f3i no mundo \u00e1rabe conta \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio como foi crescer durante o regime de Saddam Hussein, as raz\u00f5es do seu protesto e como olha para o que est\u00e1 a acontecer na Palestina.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9367,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9362"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9362"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9362\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9492,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9362\/revisions\/9492"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9367"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9362"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}