{"id":9349,"date":"2025-09-01T14:51:20","date_gmt":"2025-09-01T14:51:20","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9349"},"modified":"2025-10-14T17:50:41","modified_gmt":"2025-10-14T17:50:41","slug":"o-trabalho-invisivel-do-educador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/09\/01\/o-trabalho-invisivel-do-educador\/","title":{"rendered":"O trabalho invis\u00edvel do educador"},"content":{"rendered":"\n<p>Para ficar claro: quando falo de educador e educadora falo de toda pessoa adulta a trabalhar com as crian\u00e7as e a cuidar do seu projeto de aprendizagem. S\u00e3o os t\u00e9cnicos e t\u00e9cnicas da a\u00e7\u00e3o educativa, os e as educadores\/as de inf\u00e2ncia, os e as professores\/as, o pessoal especializado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos seus artigos, para contextualizar alguns aspectos do projeto educativo d\u2019A Voz, diretores pedag\u00f3gicos colocam, mais do que uma vez, o acento no Conselho de A\u00e7\u00e3o Cooperativa. N\u00e3o \u00e9 por acaso. \u00c9 onde a a\u00e7\u00e3o se prepara, se acompanha e se avalia. Por quem participou no processo todo, adultos e crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Conv\u00e9m lembrar que a maior parte do trabalho do educador \u00e9 invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>De fora, somos habituados a ver s\u00f3 alguns aspetos da escola. Vemos as coisas feias da escola de instru\u00e7\u00e3o: a sele\u00e7\u00e3o, o catalogar de crian\u00e7as, os desvios dos exames quando n\u00e3o se valoriza o que sabem, mas s\u00f3 se mede quanto um ser complexo, como uma crian\u00e7a humana, se desvia da norma e daquilo que lhe foi instru\u00eddo, como se fosse&nbsp;um treino profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos as coisas bonitas da escola do entretenimento e da apresenta\u00e7\u00e3o: as festas, a alegria das crian\u00e7as e dos adultos nas dan\u00e7as, nas exibi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certamente mais importante do que ver as coisas feias.<\/p>\n\n\n\n<p>De fora, raramente vemos conscientemente o dia a dia da escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Raramente vemos \u201ccom olhos de ver\u201d a escolha que todo o educador e toda a educadora faz.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito de forma simples, um adulto a trabalhar com crian\u00e7as tem duas possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguir consciente ou inconscientemente o&nbsp;<em>canon<\/em>&nbsp;da escola da instru\u00e7\u00e3o, a escola&nbsp;<em>sentar-e-ouvir,<\/em>&nbsp;como dizia Edward Peeters em 1904, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 escolher conscientemente a escola do di\u00e1logo e da intera\u00e7\u00e3o para guiar cada uma das crian\u00e7as no seu projeto de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um&nbsp;<em>continuum<\/em>&nbsp;no qual qualquer educador(a) adulto(a) num pa\u00eds com a escolariza\u00e7\u00e3o institu\u00edda se inscreve. E mesmo quando opta conscientemente pela escola do di\u00e1logo, h\u00e1 armadilhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos equ\u00edvocos subtis \u00e9 quando cientistas da educa\u00e7\u00e3o baralham colabora\u00e7\u00e3o com coopera\u00e7\u00e3o. Alguns v\u00e3o ainda mais longe e colocam os dois conceitos numa linha evolutiva, bem em concord\u00e2ncia com o mundo empresarial. Da primitiva coopera\u00e7\u00e3o, evolui-se para a culturalmente evolu\u00edda colabora\u00e7\u00e3o, dizem alguns.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se, por\u00e9m, de duas formas de estar completamente diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo Freire refere-se \u00e0 diferen\u00e7a como trabalhar&nbsp;<strong><em>com<\/em><\/strong>, ou trabalhar&nbsp;<strong><em>para<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil definir para si pr\u00f3prio se quer cooperar ou colaborar se n\u00e3o se definir para si o que significa ter autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p>A autoridade decorre para uns da autoria, para outros do autoritarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um educador ou uma educadora com autoria, autor de algo, tamb\u00e9m do Saber que se construiu, sabe por experi\u00eancia pr\u00f3pria que precisa da coopera\u00e7\u00e3o para avan\u00e7ar. A sua autoridade adv\u00e9m daquilo que aprendeu. Um(a) educador(a) \u00e9 antes de tudo um ser aprendente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem s\u00f3 ensina, decreta e n\u00e3o aprende, det\u00e9m certamente autoritarismo, mas n\u00e3o necessariamente autoridade de autor. Imp\u00f5e coercivamente o que lhe foi ensinado no modelo da escola da instru\u00e7\u00e3o. Um(a) educador(a) autorit\u00e1rio(a) n\u00e3o precisa dialogar. Na melhor das hip\u00f3teses organiza um falso di\u00e1logo em que reduz as perguntas de quem quer aprender para os assuntos sobre a qual tem uma resposta constru\u00edda. Um dogma.<\/p>\n\n\n\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o, trabalhar&nbsp;<strong><em>com<\/em><\/strong>&nbsp;o outro, \u00e9 certamente dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhar&nbsp;<strong><em>com<\/em><\/strong>&nbsp;\u00e9 criar obra em conjunto, \u00e9 construir em conjunto e numa rela\u00e7\u00e3o horizontal, entre autores que t\u00eam diferentes tipo de autoria. \u00c9 dialogar entre todos e todas para oferecer aquilo sobre a qual tem autoridade. Formula-se, em conjunto, um projecto de aprendizagem a partir de uma pergunta inicial de uma pessoa ou um grupo de pessoas. Por norma, a pessoa adulta educadora tem mais para oferecer do que a pessoa crian\u00e7a educadora, porque teve mais tempo para desenvolver a sua autoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta pessoa educadora acompanha dia ap\u00f3s dia profissionalmente as crian\u00e7as, colocando a si pr\u00f3prio e aos interlocutores as perguntas para melhor entender como guiar a crian\u00e7a da escola b\u00e1sica, atrav\u00e9s da sua enorme vontade de aprender coisas. Sabe que aprender custa, do\u00ed muitas vezes, \u00e9 desgastante. A arte de aprender, a mat\u00e9tica, \u00e9 uma arte que tamb\u00e9m s\u00f3 se aprende em coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o, trabalhar&nbsp;<strong><em>para<\/em><\/strong>&nbsp;o outro pode at\u00e9 travar o crescimento da outra pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhar&nbsp;<strong><em>para<\/em><\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>decorre de uma rela\u00e7\u00e3o vertical. Eu trabalho para ti, pode significar que estou a ti sujeito, o aluno para o professor, o empregado para o empres\u00e1rio, o servo para o seu mestre. E h\u00e1 quem inverta. Eu trabalho para ti significa, ent\u00e3o, eu represento-te. Eu fa\u00e7o para ti o que tu n\u00e3o \u00e9s capaz de fazer. Chego ao ponto de pensar por ti, porque tu n\u00e3o \u00e9s capaz de o fazer. E digo que te desvias da norma porque n\u00e3o fazes o que te imponho fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Um projeto de aprendizagem n\u00e3o \u00e9 um projeto empresarial. Um projeto de aprendizagem \u00e9 um salto para o desconhecido, \u00e9 um inquirir de coisas que queremos saber. E os \u2018porqu\u00eas\u2019 de que tanto gostam as crian\u00e7as lideram bem melhor este projeto do que os \u2018comos\u2019 dos adultos. Da\u00ed a tenta\u00e7\u00e3o da pessoa adulta transmissiva de transformar porqu\u00eas em \u2018comos\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidir proporcionar um meio onde s\u00f3 \u00e9 permitido a colabora\u00e7\u00e3o ou construir um onde se opta por cooperar para criticamente desenvolver projetos de aprendizagem \u00e9 uma escolha pol\u00edtica. A escola nunca \u00e9 neutra, ela \u00e9 sempre uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Paulo Freire respondia a um governador: a sua escola \u00e9 t\u00e3o pol\u00edtica como a minha, s\u00f3 que em sentido inverso.<\/p>\n\n\n\n<p>A escola da instru\u00e7\u00e3o \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o do aprender a obedecer e seguir, em que uns utilizam o saber para limitar os outros ao dogma que prop\u00f5em.<\/p>\n\n\n\n<p>A escola do di\u00e1logo \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico em que todos utilizam o saber para procurar solu\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias e para formular novas hip\u00f3teses.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre n\u00f3s procuramos aprender a instituir a coopera\u00e7\u00e3o. Frequentemente de forma invis\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um novo ano escolar inicia. \u00c9 um bom momento para uma pequena reflex\u00e3o sobre o que significa a escola para crian\u00e7as e adultos, e entre os adultos, os educadores.<\/p>\n","protected":false},"author":72,"featured_media":9350,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[168],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9349"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/72"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9349"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9349\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9500,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9349\/revisions\/9500"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9349"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}