{"id":9322,"date":"2025-08-06T10:06:30","date_gmt":"2025-08-06T10:06:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9322"},"modified":"2025-08-06T10:06:31","modified_gmt":"2025-08-06T10:06:31","slug":"reparations-baby-quando-o-humor-aborda-de-forma-inteligente-a-discriminacao-racial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/08\/06\/reparations-baby-quando-o-humor-aborda-de-forma-inteligente-a-discriminacao-racial\/","title":{"rendered":"\u201cReparations Baby!\u201d: quando o humor aborda de forma inteligente a discrimina\u00e7\u00e3o racial\u00a0\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u201cReparations Baby!\u201d<\/em> arranca com todo o fulgor. Estamos num concurso do canal TV QI em que os concorrentes s\u00e3o todos de ra\u00e7a negra. \u00c9 uma das prerrogativas deste espect\u00e1culo que est\u00e1 a ir para o ar pela primeira vez. Na verdade, estamos no Teatro Variedades, Parque Mayer, em Lisboa, a assistir \u00e0 \u00faltima encena\u00e7\u00e3o de Marco Mendon\u00e7a com um texto dramat\u00fargico tamb\u00e9m da sua autoria.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O mote para esta pe\u00e7a de humor que aborda quest\u00f5es fracturantes latentes na Europa e, em particular, na sociedade portuguesa, \u00e9 claro: em 2025, nos 50 anos da independ\u00eancia de quatro dos cincos pa\u00edses africanos colonizados por Portugal (Angola, Cabo Verde, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e Mo\u00e7ambique), ser\u00e1 que as desigualdades que aconteceram no passado se perpetuam no presente? Referimo-nos ao tratamento que possuem as pessoas destas na\u00e7\u00f5es ou com outra ascend\u00eancia africana que vivem no nosso pa\u00eds, bem como as consequ\u00eancias das guerras e genoc\u00eddios que ocorreram um pouco por todo o continente. \u00c9 esse o centro de <em>\u201cReparations Baby\u201d<\/em>, uma cria\u00e7\u00e3o que traz para o palco o dispositivo televisivo, um formato que, por si, estabelece de imediato a tonalidade da pe\u00e7a. \u00c9 uma forma de dar a ver aquilo que \u00e9 a realidade geral do entretenimento e de uma suposta <em>cultura<\/em> que privilegia as identidades das antigas metr\u00f3poles como Portugal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Marta Jong, activa e faladora, est\u00e1 apenas a cumprir a sua fun\u00e7\u00e3o como apresentadora do primeiro programa deste concurso que visa uma suposta toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas de ra\u00e7a negra. Pedro, o produtor, s\u00f3 est\u00e1 interessado no <em>share<\/em> que vai tendo ao longo da emiss\u00e3o; Rita, a realizadora, perdida em toda a confus\u00e3o, est\u00e1 ali porque n\u00e3o consegue que os seus filmes tenham visibilidade. As perguntas aos concorrentes de ascend\u00eancia africana sucedem-se. S\u00e3o sobre explora\u00e7\u00e3o de colonizadores aos povos outrora colonizados, sobre massacres que, ao longo da Hist\u00f3ria recente de \u00c1frica aconteceram e para os quais toda a comunidade internacional foi permissiva, mas tamb\u00e9m sobre a cultura espec\u00edfica destas etnias e povos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O jogo de \u201c(in)tolerar\u201d as diferen\u00e7as<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 um jogo ir\u00f3nico que inverte a l\u00f3gica que nos habitu\u00e1mos a ver: as perguntas e as tem\u00e1ticas deste tipo de entretenimento n\u00e3o costumam interessar-se por aqueles que continuam \u00e0 margem da sociedade, e cujo acesso a suportes culturais, a educa\u00e7\u00e3o superior, a empregabilidade qualificada, no fundo, a iguais condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f3micas, continua aqu\u00e9m de certas classes e camadas da popula\u00e7\u00e3o. A concep\u00e7\u00e3o criativa de <em>\u201cReparations Baby!\u201d<\/em> parte de um lugar de liberdade, considerando a pergunta: Como levar a cena atrav\u00e9s do humor um tema <em>pesado<\/em>, frequentemente camuflado pela sociedade?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas concorrentes sabem as respostas aos desafios colocados pela apresentadora. Tudo vai avan\u00e7ando, mesmo com as din\u00e2micas de poder dentro da hierarquia televisiva. Por\u00e9m, a certa altura, uma chamada que \u00e9 feita para algu\u00e9m em casa provoca desconforto. O programa, que \u00e9 em directo, n\u00e3o \u00e9 cortado. O que esse an\u00f3nimo veicula \u00e9 um discurso de intoler\u00e2ncia e \u00f3dio. Logo depois, a r\u00e9gie do programa \u00e9 invadida por um grupo, tamb\u00e9m desconhecido, que reverte todo o esquema de <em>\u201cReparations Baby\u201d<\/em>. Come\u00e7a a ser reparado o que est\u00e1 a ser camuflado no concurso. O cen\u00e1rio cai, o est\u00fadio escurece: e Marta \u00e9 obrigada a fazer perguntas a todos os intervenientes, ou seja, aos tr\u00eas concorrentes negros e a produtor e realizadora. S\u00e3o perguntas sobre desigualdade e discrimina\u00e7\u00e3o racial j\u00e1 vivenciadas, ou indirectamente infligidas por cada um deles. S\u00e3o quest\u00f5es acutilantes, regra geral silenciadas: se j\u00e1 tiveram uma empregada negra, se alguma vez tiveram um professor negro, se alguma vez foram confundidos numa loja pelo empregado por causa da cor da pele&#8230; A verdade vem ao de cima com a luz sombria sobre o palco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de c\u00e1 da plateia, cada um dos espectadores reflecte sobre aquilo que est\u00e1 a ser inquirido em cena. Por seu turno, no palco, equipa t\u00e9cnica, concorrentes e apresentadora, num sil\u00eancio constrangedor, parecem igualmente concluir que h\u00e1 ainda um longo caminho a fazer na luta pela igualdade entre todos os cidad\u00e3os &#8211; seja de que ra\u00e7a, nacionalidade ou ascend\u00eancia forem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>50 anos passados sobre a independ\u00eancia dos referidos pa\u00edses que foram col\u00f3nias portuguesas, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no continente africano que sentimos as assimetrias relativamente \u00e0 Europa. Elas est\u00e3o \u00e0 nossa porta, quando olhamos o outro como diferente, o menorizamos; quando as institui\u00e7\u00f5es e os governantes se preocupam com n\u00fameros e n\u00e3o com pessoas e com quest\u00f5es estruturais de \u00edndole social: como acabar com a marginaliza\u00e7\u00e3o de certas comunidades, n\u00e3o permitindo que o fosso entre classes, ra\u00e7as, etnias e descend\u00eancias se continue a perpetuar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cReparations Baby\u201d<\/em> procura que cada um repare, esteja atento, observe o que o rodeia -os seus actos e a sociedade. Para individual e colectivamente lutarmos pela toler\u00e2ncia e liberdade de cada cidad\u00e3o, seja ele portugu\u00eas, africano. Somos todos cidad\u00e3os do mundo. Como refere o encenador na entrevista disponibilizada na folha de sala da pe\u00e7a: <em>\u201c\u00c9 uma quest\u00e3o de termos consci\u00eancia de que pode mesmo haver lugar para toda a gente, e pode mesmo haver uma distribui\u00e7\u00e3o de recursos igualit\u00e1ria, seja em que plano da sociedade for. (&#8230;) \u00c9 preciso que as pessoas queiram essa harmonia, esse lugar ut\u00f3pico, que na verdade n\u00e3o tinha nada de ser ut\u00f3pico, seria muito f\u00e1cil tonar realidade. Basta querer.\u201d<\/em> Atrav\u00e9s do humor, <em>\u201cReparations Baby\u201d<\/em>, os seus sete actores, o dramaturgo e encenador Marco Mendon\u00e7a e restante equipa t\u00e9cnica convocam-nos e provocam uma profunda reflex\u00e3o sobre as din\u00e2micas complexas da sociedade actual, e de como \u00e9 poss\u00edvel, com um tom de leveza numa pe\u00e7a de teatro, p\u00f4r em marcha as mudan\u00e7as urgentes a fazer num mundo desigual e relutante \u00e0 liberdade de sermos todos iguais no acesso \u00e0s oportunidades de vida.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mote para esta pe\u00e7a de humor aborda quest\u00f5es fracturantes latentes na Europa e, em particular, na sociedade portuguesa.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":9323,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9322"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9322"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9322\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9325,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9322\/revisions\/9325"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9322"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}