{"id":9311,"date":"2025-08-06T08:42:18","date_gmt":"2025-08-06T08:42:18","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9311"},"modified":"2025-09-01T16:58:41","modified_gmt":"2025-09-01T16:58:41","slug":"silenciosamente-o-imaginario-morre-aos-berros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/08\/06\/silenciosamente-o-imaginario-morre-aos-berros\/","title":{"rendered":"Silenciosamente, o imagin\u00e1rio morre aos berros"},"content":{"rendered":"\n<p>Sei bem que h\u00e1 quem considere que, para marxista, debru\u00e7o-me muito sobre ideias. N\u00e3o h\u00e1, todavia, qualquer contradi\u00e7\u00e3o que se me aponte. Tal como apreciou recordar Friedrich Engels a Joseph Bloch, as ideias de um tempo dialogam com as condi\u00e7\u00f5es materiais que as enformam. Integrando a superestrutura que legitima as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de uma \u00e9poca, mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com elas. Concretizando num exemplo, um habitante de um feudo na idade m\u00e9dia, embora atravessasse agruras que o poderiam motivar a questionar a servid\u00e3o, dificilmente o faria porque o conjunto de mundivis\u00f5es que compunham a ideologia dominante do tempo o induzia a considerar a sua posi\u00e7\u00e3o na estratifica\u00e7\u00e3o social algo herdado da pr\u00f3pria ordem natural das coisas. De modo semelhante, o trabalhador contempor\u00e2neo tamb\u00e9m compreende a exist\u00eancia de um ordenamento proveniente deste ente difuso que apelidamos de \u201cnatureza\u201d, mas atrav\u00e9s de artif\u00edcios que se querem mais \u2018benignos\u2019. A sua fun\u00e7\u00e3o na divis\u00e3o do trabalho \u00e9, de acordo com uma perspetiva otimista, quest\u00e3o de tempo \u2013 pois a meritocracia ditar\u00e1 a sua ascens\u00e3o \u2013 ou, de acordo com um fatalismo buc\u00f3lico, defeito de f\u00e1brica, uma vez que n\u00e3o disp\u00f5e das mesmas aptid\u00f5es que os plutocratas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eloquentemente sentenciou o velho Marx, na sua&nbsp;<em>Ideologia Alem\u00e3<\/em>, que as ideias dominantes de uma \u00e9poca s\u00e3o as ideias da classe dominante. Afinal, esta casta atribui diferentes utilidades ao seu capital. Uma delas \u00e9 a coopta\u00e7\u00e3o de um conjunto de aparelhos ideol\u00f3gicos que veiculam as ideias necess\u00e1rias \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do estado atual de coisas. Se Jeff Bezos aperta cada vez mais o cerco \u00e0 linha editorial do&nbsp;<em>Washington Post<\/em>, di\u00e1rio do qual \u00e9 propriet\u00e1rio, por mera veleidade n\u00e3o ser\u00e1. Se os irm\u00e3os Koch financiam&nbsp;<em>think tanks&nbsp;<\/em>de direita e extrema-direita (e.g.&nbsp;<em>Cato Institute<\/em>), n\u00e3o h\u00e1 devo\u00e7\u00e3o ao conhecimento que justifique tanto milh\u00e3o. \u00c9 evidente: pretende-se a constru\u00e7\u00e3o de um ide\u00e1rio hegem\u00f3nico. E conseguiu-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito isto, at\u00e9 agora nada do que afirmei \u00e9 original. E ainda que esta frase tenha despertado expectativas ao leitor quanto \u00e0 pr\u00f3xima sec\u00e7\u00e3o do ensaio, um aviso de percurso: comprometo-me a ser mero int\u00e9rprete do que j\u00e1 se concebeu antes de eu pr\u00f3prio ter sido concebido. Seguindo o nexo de continuidade, evoco agora Mark Fisher, que, em&nbsp;<em>Realismo Capitalista<\/em>, se apropria do infame lema de Fredric Jameson e Slavoj \u017di\u017eek, eternizando-o: \u00e9 bem mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Tal miopia nas subjetividades defenestra-nos com um desesperante axioma: as ideias de um tempo delimitam o imagin\u00e1rio desse tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a itera\u00e7\u00e3o neoliberal do capitalismo n\u00e3o se contenta em fustigar todas as idea\u00e7\u00f5es alternativas ao modo de produ\u00e7\u00e3o, criando sujeitos pol\u00edticos acabrunhados e an\u00e9micos. A sua sanha estende-se \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do mesmo modelo de gest\u00e3o do capitalismo, repleto de austeridades e abstin\u00eancias fiscais. Quando Margaret Thatcher afirmou n\u00e3o existir alternativa, n\u00e3o direcionava o seu ultimato apenas para o socialismo real, mas para o pr\u00f3prio capitalismo compat\u00edvel com um estado social. N\u00e3o, \u00e9 estado m\u00ednimo na provis\u00e3o do bem estar-social e m\u00e1ximo na repress\u00e3o de greves e manifesta\u00e7\u00f5es, ou nada. Gra\u00e7as a anos de propaganda de guerra fria e medo vermelho, convencer o p\u00fablico de que qualquer interven\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do estado era socialismo n\u00e3o se afigurou o des\u00edgnio mais custoso. Compreendo que Rui Rocha e Mariana Leit\u00e3o nos provoquem gargalhadas com os paroxismos do \u201csocialismo de direita\u201d, mas n\u00e3o caiamos na tenta\u00e7\u00e3o de culpar o desconhecimento. Se efetivamente h\u00e1 falta de saber hist\u00f3rico, foi projetado.<\/p>\n\n\n\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o do futuro deve, essencialmente, ater-se \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o do presente \u2013 ou o seu agravamento. E se se esvai a f\u00e9 na pol\u00edtica enquanto mecanismo de constru\u00e7\u00e3o de destinos, n\u00e3o falta quem prometa recuper\u00e1-la. Sequiosos de poder, os novos reacion\u00e1rios assumem n\u00e3o descansar at\u00e9 recuperar a soberania popular perdida, at\u00e9 que o povo retome as r\u00e9deas do seu fado. Convenientemente, os burgueses que os financiam tamb\u00e9m manifestam muito zelo por esta mudan\u00e7a. E as massas, desejosas de voltar a sentir que caminham num passadi\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o a terrenos verdejantes, e n\u00e3o numa prancha em dire\u00e7\u00e3o ao mar, acedem a um salto de f\u00e9. Contudo, \u00e9 um salto c\u00ednico, uma corrida desconfiada. N\u00e3o esperam solu\u00e7\u00e3o, esperam que \u201cse abane isto tudo\u201d, seja l\u00e1 o que isso for. Este vazio conceptual, fruto de uma esperan\u00e7a desapegada, cria o ambiente perfeito para a fertiliza\u00e7\u00e3o de movimentos neofascistas que pens\u00e1vamos moribundos. O sistema precisa de um \u201cterramoto\u201d. Como ningu\u00e9m sabe bem qual a magnitude ideal do sismo, quem sabe se os grupelhos violentos que at\u00e9 golpes de estado planeiam n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 patriotas? Quem sabe se os agressores de Ad\u00e9rito n\u00e3o agiam em leg\u00edtima defesa da vontade da na\u00e7\u00e3o. Aquele que n\u00e3o acredita em bonan\u00e7as s\u00f3 sabe pedir tempestades.<\/p>\n\n\n\n<p>Do futuro j\u00e1 nos haviam furtado. Agora at\u00e9 expropriam a sua silhueta. N\u00e3o entoarei \u201cn\u00e3o passar\u00e3o\u201d, porque j\u00e1 passaram. Mas o port\u00e3o por onde se entra \u00e9 tamb\u00e9m o port\u00e3o por onde se sai, nem que seja ao solavanco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A miopia nas subjetividades defenestra-nos com um desesperante axioma: as ideias de um tempo delimitam o imagin\u00e1rio desse tempo. 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