{"id":9239,"date":"2025-07-02T21:19:00","date_gmt":"2025-07-02T21:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9239"},"modified":"2025-07-02T21:19:02","modified_gmt":"2025-07-02T21:19:02","slug":"killer-joe-ou-o-desespero-de-uma-familia-alienada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/07\/02\/killer-joe-ou-o-desespero-de-uma-familia-alienada\/","title":{"rendered":"\u201cKiller Joe\u201d, ou o desespero\u00a0de uma fam\u00edlia alienada"},"content":{"rendered":"\n<p>O cen\u00e1rio de \u201cKiller Joe\u201d \u00e9 ca\u00f3tico, reflexo de quem o habita. Estamos na autocaravana dos Smith, no Texas, in\u00edcio dos anos 90 do s\u00e9culo passado. A pe\u00e7a que esteve em exibi\u00e7\u00e3o no Teatro S\u00e3o Luiz, em Lisboa, pela m\u00e3o do colectivo Urso Pardo, encenada por Miguel Gra\u00e7a. Escrita em 1991 pelo dramaturgo e actor norte-americano Tracy Letts, reflecte o vazio de pessoas que lutam desesperadamente por qualquer coisa na vida, mesmo que nada \u00e0 sua volta pare\u00e7a fazer sentido. O caminho mais f\u00e1cil \u00e9 o do dinheiro, reflexo de uma sociedade desumana e materialista. Trata-se de um texto cruel, com momentos de humor, que teve em 2011 uma adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica pelas m\u00e3os de William Friedkin (realizador de \u201cO Exorcista\u201d, em 1973).<\/p>\n\n\n\n<p>Chris (David Esteves), o filho mais velho, tem um plano. Soube da exist\u00eancia do seguro de vida da m\u00e3e. A m\u00e3e sempre teve uma rela\u00e7\u00e3o conflituosa com ele; por que n\u00e3o mat\u00e1-la? \u00c9 isso que prop\u00f5e a Ansel (Pedro Caeiro), o pai. Fala-lhe de Joe (Dinarte Branco), o xerife assassino. Esta passa a ser a investida de ambos, envolvendo a filha, Dottie (Madalena Almeida), e a madrasta e nova mulher de Ansel, Sharla (In\u00eas Pereira). Estas pessoas n\u00e3o t\u00eam nada a perder, perante um mundo que as oblitera. S\u00e3o uma fam\u00edlia disfuncional, a viol\u00eancia e a agressividade imperam entre eles, como se fosse a sua forma de amar.<\/p>\n\n\n\n<p>Joe aparenta serenidade e frieza. Far\u00e1 o que tem a fazer, e n\u00e3o dar\u00e1 muitos detalhes aos Smiths, mas quer uma cau\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que estes est\u00e3o a contar com o valor p\u00f3stumo do seguro: Dottie, que ficou traumatizada desde que a m\u00e3e, em crian\u00e7a, a tentou matar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00e3o apenas \u201cfeios, porcos e maus\u201d os Smith. S\u00e3o fr\u00e1geis, e sobrevivem anestesiados com certos programas de televis\u00e3o \u2013 numa clara antecipa\u00e7\u00e3o da dorm\u00eancia das redes sociais que dominam o primeiro quarto do s\u00e9culo XXI. Ansel \u00e9 mec\u00e2nico; Sharla trabalha num restaurante; Chris tentou ser caseiro numa quinta, e tudo o que lhe resta \u00e9 ser um pequeno traficante; Dottie raramente sai de casa e tem vinte anos. Este quarteto n\u00e3o almeja outros horizontes, talvez por sentir que s\u00f3 outra condi\u00e7\u00e3o social e financeira o permite.<\/p>\n\n\n\n<p>O inevit\u00e1vel sucede: Joe revela a sua pervers\u00e3o. Adia o homic\u00eddio, aproveitando-se da virgindade de Dottie, que, entre a aliena\u00e7\u00e3o o sonambulismo nocturno, se sente apaixonada por aquele homem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A brutalidade que diz a verdade (tamb\u00e9m sobre Portugal)<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Mais do que contar a hist\u00f3ria brutal deste per\u00edodo tr\u00e1gico dos Smiths, o texto e a dramaturgia da pe\u00e7a alertam para uma humanidade sem esperan\u00e7a, que, como refere na folha de sala, o encenador Miguel Gra\u00e7a, se encontra tamb\u00e9m no mapeamento do que \u00e9 hoje o nosso pa\u00eds, a alguns quil\u00f3metros de uma Lisboa cosmopolita, provando que a capital n\u00e3o \u00e9, de todo, a \u00fanica realidade econ\u00f3mica e social de Portugal. Estas fam\u00edlias e estas personagens (pessoas) existem nas suas casas sem condi\u00e7\u00f5es, onde vivem muitas vezes abaixo do limiar de sobreviv\u00eancia, com um forte desejo de mudan\u00e7a, cansadas dessa exist\u00eancia com rasteiros objectivos. Sem as situa\u00e7\u00f5es em que impera uma tonalidade c\u00f3mica, \u201cKiller Joe\u201d seria de uma dureza implac\u00e1vel. Consta que na estreia, em 1993, muitas foram as pessoas que n\u00e3o aguentaram a pesada carga emocional deste&nbsp;<em>teatro<\/em>&nbsp;sobre a decad\u00eancia humana. A pe\u00e7a de Tracy Letts foi \u201csalva\u201d pelos elogios de um famoso cr\u00edtico do jornal Chicago Tribune, voltou a ser representada no Festival de Teatro de Edimburgo, e seguiu para Londres, nesses idos anos 90.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 exemplar o trabalho do quinteto de actores nesta apresenta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a na pequena sala-est\u00fadio M\u00e1rio Viegas. A din\u00e2mica do seu discurso e a forma tensional como que se movimentam no cen\u00e1rio \u00fanico da autocaravana, n\u00e3o descurando o fora de cena (o quarto, onde se esconde Dottie; o alpendre, onde lixo e objectos perdidos se acumulam; o ladrar do c\u00e3o que traz o compasso sonoro), fazem com que a progress\u00e3o dram\u00e1tica se ajuste \u00e0 pot\u00eancia daquilo que poder\u00edamos aproximar do \u201crealismo sujo\u201d ou da cultura&nbsp;<em>pulp<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ensaiar, conceber cenicamente e interpretar \u201cKiller Joe\u201d num Portugal que est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o, onde a intoler\u00e2ncia surge muitas vezes como grito injusto contra a liberdade e o olhar justo para com o outro \u00e9 uma forma maior &#8211; corajosa &#8211; de resist\u00eancia do teatro, da arte e da cultura em geral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cen\u00e1rio de \u201cKiller Joe\u201d \u00e9 ca\u00f3tico, reflexo de quem o habita. 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