{"id":9227,"date":"2025-07-02T13:35:35","date_gmt":"2025-07-02T13:35:35","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9227"},"modified":"2025-07-02T13:35:37","modified_gmt":"2025-07-02T13:35:37","slug":"florbela-florbela-de-filomena-oliveira-e-miguel-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/07\/02\/florbela-florbela-de-filomena-oliveira-e-miguel-real\/","title":{"rendered":"Florbela, Florbela &#8211; de Filomena Oliveira e Miguel Real"},"content":{"rendered":"\n<p>Florbela Espanca foi uma das nossas mais importantes poetisas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX (1894-1930), e a que teve coragem, em tempos conturbados e na sociedade patriarcal e conservadora que o Pa\u00eds era (mesmo durante o per\u00edodo da 1\u00aa. Rep\u00fablica), assumir o direito a usar o seu corpo e a sentir o prazer da sua usan\u00e7a, sem tibiezas nem m\u00e1scaras, num per\u00edodo em que essa postura emancipadora n\u00e3o era f\u00e1cil nem toler\u00e1vel pela maioria dos seus contempor\u00e2neos. Como n\u00e3o era aceit\u00e1vel transcrever, em sonetos exemplares e cl\u00e1ssicos da nossa literatura, esses desejos e convic\u00e7\u00f5es, assumir liberdade po\u00e9tica individual, na sua condi\u00e7\u00e3o de mulher, que as regras vigentes impediam de modo v\u00e1rio, e que se tornariam ainda mais gravosas durante os magist\u00e9rios de Salazar e Caetano, desde a vigil\u00e2ncia familiar, \u00e0s pr\u00e9dicas cat\u00f3licas, passando pelas repressivas normas gerais do Estado fascista do acr\u00f3nimo\u00a0<em>Deus, P\u00e1tria, Fam\u00edlia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Florbela Espanca resistiu, contornou os limites da sua condi\u00e7\u00e3o, e imp\u00f4s a sua voz como des\u00edgnio libert\u00e1rio, mesmo que esse desejo implique a sua nega\u00e7\u00e3o,&nbsp;<em>Eu quero amar, amar perdidamente! \/Amar s\u00f3 por amar: Aqui\u2026 al\u00e9m\u2026 \/Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente\u2026 \/Amar! Amar! E n\u00e3o amar ningu\u00e9m!, ou at\u00e9 quando<\/em>&nbsp;o des\u00e2nimo, a doen\u00e7a e a ang\u00fastia existencial percorriam a sua po\u00e9tica:&nbsp;<em>A minha Dor \u00e9 um convento ideal\/Cheio de claustros, sombras, arcarias,\/Aonde a pedra em convuls\u00f5es sombrias\/Tem linhas dum requinte escultural.&nbsp;<\/em>Mesmo na Dor, a poesia de Florbela n\u00e3o perde o fulgor est\u00e9tico, esse simb\u00f3lico arca\u00edsmo que encontramos em Ant\u00f3nio Nobre, Pascoaes e Ces\u00e1rio Verde.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Neorrom\u00e2ntica vitalista,&nbsp;<\/em>grupo em que Rui Guedes a incluiu, Florbela foi, sobretudo, uma mulher que se queria livre, percorrendo as suas paix\u00f5es, seus arrebatamentos, sem limites nem submiss\u00f5es esp\u00farias. Ter\u00e1 esse sido esse seu desejo de emancipa\u00e7\u00e3o, consequ\u00eancia da sua singular vida familiar? Filomena Oliveira e Miguel Real, no magn\u00edfico estudo sobre a vida e obra da autora de&nbsp;<em>Ser Poeta,<\/em>&nbsp;inclu\u00eddo neste livro, d\u00e1-nos algumas pistas: \u00abDificilmente haver\u00e1 acordo em torno da poesia da menina Florbela de Alma Concei\u00e7\u00e3o, nascida em Vila Vi\u00e7osa, estudante de liceu em \u00c9vora, e \u201cfilha\u201d de tr\u00eas \u201cm\u00e3es\u201d, produto de um acordo entre o pai e Mariana, sua mulher, que n\u00e3o podia ter filhos, mas queria educar filhos ileg\u00edtimos do marido, e Ant\u00f3nia, criada com algum atraso mental, que hoje seria designada \u201cbarriga de aluguer\u201d, e a nova esposa do pai ap\u00f3s a morte da primeira, Henriqueta.\u00bb (p.9)<\/p>\n\n\n\n<p>Para os dramaturgos, Florbela Espanca, a sua vida e obra, apresentava-se com todas as caracter\u00edsticas de uma hero\u00edna tr\u00e1gica, uma personagem fascinante e oper\u00e1tica, a merecer, pela sua singular dimens\u00e3o humana e como escritora, digna de uma vers\u00e3o teatral, em que a palavra, a voz e o corpo das actrizes se tornasse resson\u00e2ncia dessa viv\u00eancia, desse raro modo de se expor atrav\u00e9s da poesia e de enfrentar o conservadorismo e o cinzentismo de um pa\u00eds bo\u00e7al, iletrado, onde o medo campeava e o&nbsp;<em>juizinho<\/em>&nbsp;era ataviada regra.<\/p>\n\n\n\n<p>A pe\u00e7a&nbsp;<em>Florbela, Florbela,&nbsp;<\/em>de Filomena Oliveira e Miguel Real, foi escrita&nbsp;<em><\/em>para as celebra\u00e7\u00f5es dos 50 anos do 25 de Abril e dos 130 anos do nascimento da autora de Vila Vi\u00e7osa e, ainda, dos 90 anos da publica\u00e7\u00e3o daquele que \u00e9 considerado o seu mais importante livro,&nbsp;<em>Charneca em Flor.&nbsp;<\/em>Teve estreia a 10 de Outubro de 2024, no Teatro Garcia de Resende, em \u00c9vora, com encena\u00e7\u00e3o de Filomena Oliveira e interpreta\u00e7\u00f5es de Carla Chambel (Florbela), Maria Marrafa (Florbela, na actualidade teatral) e Ros\u00e1rio Gonzaga (autora e encenadora).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta pe\u00e7a de Filomena Oliveira e Miguel Real, n\u00e3o \u00e9 apenas a vida e obra de um nome cimeiro das nossas letras, a protagonista, ela \u00e9, conjuntamente, uma homenagem \u00e0 mulher portuguesa, \u00e0s mulheres que conseguiram, num mundo padronizado, mesquinho, violento e submisso, emancipar-se, terem voz aut\u00f3noma e dizerem, como um grito de combate,&nbsp;<em>N\u00e3o vou por a\u00ed!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Florbela, Florbela, de Filomena Oliveira e Miguel Real \u2013 edi\u00e7\u00e3o Nova Vega\/2024<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Florbela Espanca foi uma das nossas mais importantes poetisas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX (1894-1930), e a que teve coragem, em tempos conturbados e na sociedade patriarcal e conservadora que o Pa\u00eds era (mesmo durante o per\u00edodo da 1\u00aa. 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