{"id":9211,"date":"2025-07-02T12:10:04","date_gmt":"2025-07-02T12:10:04","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9211"},"modified":"2025-07-02T12:11:32","modified_gmt":"2025-07-02T12:11:32","slug":"o-que-a-escuridao-revelou-sobre-o-nosso-sistema-energetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/07\/02\/o-que-a-escuridao-revelou-sobre-o-nosso-sistema-energetico\/","title":{"rendered":"O que a escurid\u00e3o revelou sobre o nosso sistema energ\u00e9tico"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A<\/strong>o final da manh\u00e3 de 28 de abril, a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica mergulhou numa escurid\u00e3o s\u00fabita. O colapso total do sistema el\u00e9trico deixou milh\u00f5es de pessoas sem luz, transportes, comunica\u00e7\u00f5es ou acesso a servi\u00e7os b\u00e1sicos durante horas. Mais de dois meses depois, n\u00e3o existe uma explica\u00e7\u00e3o p\u00fablica clara, nenhuma entidade assume responsabilidades e nenhuma indemniza\u00e7\u00e3o foi paga \u00e0s fam\u00edlias e empresas afetadas. O que come\u00e7ou por ser tratado como uma falha t\u00e9cnica isolada revelou-se, afinal, um sintoma de uma crise mais profunda: a da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica conduzida por interesses privados, despolitizada e desprovida de controlo democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es oficiais permitiram identificar a origem do colapso: a mega central solar da Iberdrola, em Badajoz, ter\u00e1 iniciado o ciclo de instabilidade ao produzir oscila\u00e7\u00f5es an\u00f3malas. N\u00e3o obstante, o incidente n\u00e3o se cingiu a este centro electroprodutor renov\u00e1vel. Diversas centrais a g\u00e1s e nucleares, que deveriam garantir a estabilidade do sistema em situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, falharam nas suas fun\u00e7\u00f5es. A Rede El\u00e9ctrica de Espanha (REE) acusa os operadores privados de incumprirem protocolos de seguran\u00e7a; estes devolvem a acusa\u00e7\u00e3o, responsabilizando o regulador e o governo por m\u00e1 gest\u00e3o. A guerra de acusa\u00e7\u00f5es m\u00fatuas prossegue, mas um dado \u00e9 evidente: nenhuma das entidades envolvidas \u2013 p\u00fablica ou privada \u2013 assume responsabilidade pelas falhas, nem pelos preju\u00edzos causados a milh\u00f5es de pessoas. A complexidade t\u00e9cnica serve, uma vez mais, de escudo para a desresponsabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A opacidade institucional agrava a incerteza. A identidade das centrais envolvidas foi omitida nos relat\u00f3rios oficiais, \u201ca pedido das empresas\u201d. A Iberdrola, a Endesa, a Naturgy e a EDP \u2013 que controlam mais de 700 mil quil\u00f3metros de rede e a esmagadora maioria da produ\u00e7\u00e3o termoel\u00e9trica em Espanha \u2013 recusaram partilhar a totalidade dos dados exigidos pelas autoridades. A sua resist\u00eancia em colaborar, apesar das obriga\u00e7\u00f5es legais, exp\u00f5e a assimetria de poder entre as grandes empresas privadas e os governos nacionais, num setor estrat\u00e9gico como o da energia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pese embora os impactos igualmente nocivos do apag\u00e3o no territ\u00f3rio nacional, o governo portugu\u00eas remeteu-se ao sil\u00eancio. N\u00e3o h\u00e1 qualquer presta\u00e7\u00e3o de contas, balan\u00e7o oficial dos preju\u00edzos ou exig\u00eancia de responsabilidades a Madrid. O Estado, completamente diminu\u00eddo nas suas capacidades de planeamento e interven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cumpre sequer o m\u00ednimo: defender o interesse p\u00fablico. A popula\u00e7\u00e3o paga duplamente \u2013 na fatura da energia e nas falhas do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Este apag\u00e3o, embora iniciado numa central solar, n\u00e3o deve ser instrumentalizado para atacar as energias renov\u00e1veis, como procura fazer a extrema-direita. O problema n\u00e3o reside na descarboniza\u00e7\u00e3o em si, mas na forma como est\u00e1 a ser conduzida: atrav\u00e9s de megaprojetos centralizados, financiados por fundos p\u00fablicos, mas operados por grandes empresas privadas, sem transpar\u00eancia nem mecanismos de escrut\u00ednio democr\u00e1tico. O colapso da rede revelou um modelo estruturalmente vulner\u00e1vel, centrado nos lucros de curto-prazo e incapaz de responder a eventos extremos cada vez mais frequentes num contexto de crise clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o apag\u00e3o demonstrou, com clareza perturbadora, foi a fal\u00eancia de uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica sem soberania. Um sistema que depende da boa vontade de gigantes empresariais e onde os governos se limitam a repetir vers\u00f5es t\u00e9cnicas, sem lideran\u00e7a pol\u00edtica. Um sistema em que os lucros s\u00e3o privatizados, os preju\u00edzos socializados e a energia continua ausente do debate democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante este cen\u00e1rio, \u00e9 urgente recentrar a energia no debate pol\u00edtico. A energia n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria, \u00e9 um bem comum e um direito universal. O que caiu no dia 28 de abril n\u00e3o foi apenas a rede el\u00e9trica, foi a ilus\u00e3o de que se pode fazer uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa e democr\u00e1tica sem planeamento e controlo p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao final da manh\u00e3 de 28 de abril, a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica mergulhou numa escurid\u00e3o s\u00fabita. 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