{"id":9151,"date":"2025-06-03T13:40:52","date_gmt":"2025-06-03T13:40:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9151"},"modified":"2025-07-02T21:26:33","modified_gmt":"2025-07-02T21:26:33","slug":"a-pergunta-que-ninguem-faz-e-voce-condena-o-genocidio-em-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/06\/03\/a-pergunta-que-ninguem-faz-e-voce-condena-o-genocidio-em-gaza\/","title":{"rendered":"A pergunta que ningu\u00e9m faz: \u201cE voc\u00ea, condena o genoc\u00eddio em Gaza?\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c0 hora a que escrevo estas linhas, domingo, dia 1 de Junho, as not\u00edcias d\u00e3o conta de que em dois lugares da faixa de Gaza, em Rafah e em Nuseirat, o ex\u00e9rcito israelita disparou contra a multid\u00e3o que se aglomerava nos centros de distribui\u00e7\u00e3o alimentar instalados e geridos pelos EUA. Fala-se numa trintena de mortos e de cerca de duas centenas de feridos. As imagens mostram pessoas correndo por um recinto vedado, disputando caixas de comida que ali se encontram amontoadas, sob o olhar galhofeiro dos mercen\u00e1rios norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim o quotidiano em Gaza, dia ap\u00f3s dia, minuto a minuto. No dia 30 de Maio \u00faltimo, Jens Laerke, o porta-voz do Gabinete das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Coordena\u00e7\u00e3o dos Assuntos Humanit\u00e1rios dizia que \u201cGaza \u00e9 o lugar na Terra com mais fome\u201d e explicava: \u201c\u00e9 a \u00fanica \u00e1rea delimitada \u2013 um pa\u00eds ou um territ\u00f3rio definido dentro de um pa\u00eds \u2013 onde toda a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 em risco de fome. Cem por cento da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 em risco de fome\u201d. Enquanto isso, Israel destr\u00f3i os centros de distribui\u00e7\u00e3o de ajuda alimentar das organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias, incluindo da UNRWA, a ag\u00eancia das ONU para os refugiados palestinos e bombardeia as cozinhas comunit\u00e1rias. Gaza est\u00e1 sob um bloqueio total vai para tr\u00eas meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Maio de 2024, o Tribunal Internacional de Justi\u00e7a considerava existirem ind\u00edcios fundados sobre a pr\u00e1tica por Israel do crime de genoc\u00eddio e, de forma reiterada, determinou a aplica\u00e7\u00e3o de medidas provis\u00f3rias que Israel se recusa a cumprir. Depois disso, a Amnistia Internacional reuniu bastas evid\u00eancias que tornou p\u00fablicas num relat\u00f3rio divulgado em Dezembro de 2024 e onde defende existirem bases suficientes para afirmar que Israel \u201ccometeu e est\u00e1 a cometer genoc\u00eddio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se est\u00e1 a viver em Gaza n\u00e3o \u00e9 uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria determinada por um acidente natural, um sismo, uma inunda\u00e7\u00e3o, ou um inc\u00eandio. Em Gaza \u2013 e j\u00e1 agora tamb\u00e9m na Margem Ocidental do rio Jord\u00e3o, incluindo em Jerusal\u00e9m Oriental \u2013 est\u00e1 a ocorrer um crime de propor\u00e7\u00f5es apocal\u00edpticas cujas ondas de choque reverberar\u00e3o por muito tempo adiante. Um crime que tem respons\u00e1veis, mandantes e executantes, financiadores, defensores, que ser\u00e3o um dia julgados, pela hist\u00f3ria sen\u00e3o pelos tribunais. Que aconte\u00e7a, ininterruptamente, desde h\u00e1 mais de 600 dias, diz tudo sobre o estado do mundo em que vivemos. Que em Portugal, as institui\u00e7\u00f5es, desde logo o governo, tenham atravessado estes vinte meses sem um sobressalto, uma iniciativa diplom\u00e1tica, um gesto, para al\u00e9m de declara\u00e7\u00f5es de circunst\u00e2ncia, vazias de consequ\u00eancia, diz muito sobre o pa\u00eds que somos hoje, cinquenta e um anos depois do 25 de Abril. Cerca de 60 mil mortos depois \u2013 ou talvez perto de cem mil segundo Francesco Checchi, um epidemiologista italiano da London School of Hygiene and Tropical Medicine, co-autor de artigos publicados na revista cient\u00edfica Lancet sobre o saldo de v\u00edtimas em Gaza \u2013 nenhum primeiro-ministro ou membro do governo, nenhum deputado, nenhum dirigente pol\u00edtico, foi at\u00e9 hoje confrontado com a pergunta singela: \u201ccondena o genoc\u00eddio em Gaza\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se trata das vidas palestinas, dir-se-ia que nada nunca \u00e9 suficientemente grave que justifique a interpela\u00e7\u00e3o. E, pelo contr\u00e1rio, tudo \u00e9 permitido. N\u00e3o por acaso, comentadores com lugar cativo nas televis\u00f5es, sempre prontos a justificar a brutalidade de Israel, escolheram Gaza e a Palestina para fazer chala\u00e7as nas redes sociais sobre os resultados das elei\u00e7\u00f5es legislativas. Helena Ferro Gouveia ironizou com o \u201cc\u00edrculo eleitoral de Gaza\u201d; Nuno Rogeiro brincou com o s\u00edmbolo de um partido e escreveu \u201csozinho em Gaza\u201d. Estas e outras alarvidades s\u00e3o parte do mesmo caldo de cultura de onde medra a extrema-direita, o racismo e o militarismo. Haver\u00e1 que coloc\u00e1-los na equa\u00e7\u00e3o na hora de explicar o momento pol\u00edtico que vivemos. Por isso, tamb\u00e9m, Gaza est\u00e1 nas nossas vidas, porque por ali passa tamb\u00e9m a defesa da liberdade e do regime democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma semanas, Jo\u00e3o Taborda da Gama, o rec\u00e9m-nomeado pelo governo Coordenador Nacional da Estrat\u00e9gia Europeia para Combater o Anti-semitismo e Promover a Vida Judaica veio censurar um cartoon de Cristina Sampaio publicado no jornal P\u00fablico, classificando-o como \u201cexemplo de anti-semitismo\u201d por estabelecer uma equival\u00eancia entre a campanha genocida do governo de Israel e o nazismo e, assim, \u201ctrivializar o holocausto\u201d. Nessa imagem, recorde-se, Netanyahu aparece abra\u00e7ado a Hitler, sem que nenhum s\u00edmbolo que possa ser associado \u00e0 cultura judaica seja exibido. \u00c9 caso para perguntar onde estava Taborda de Gama de todas as vezes \u2013 e s\u00e3o tantas! \u2013 em que for\u00e7as da resist\u00eancia palestina foram associadas a nazis ou quando os acontecimentos do 7 de Outubro foram tratados em equival\u00eancia com o exterm\u00ednio de judeus europeus nos campos de concentra\u00e7\u00e3o da Alemanha nazi. P\u00e9 ante p\u00e9, como em v\u00e1rios pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia \u2013 sempre ciosa dos seus \u201cvalores\u201d \u2013 e nos EUA, tamb\u00e9m em Portugal a tentativa de criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade com a causa palestina vai fazendo o seu caminho. Preparemo-nos.<\/p>\n\n\n\n<p>A terminar estas linhas, chega a not\u00edcia da morte de Hamdi Al-Najjar, m\u00e9dico do hospital Nasser, em Khan Younis, marido de Alaa Al-Najjar, m\u00e9dica tamb\u00e9m ela no mesmo hospital, em consequ\u00eancia dos ferimentos sofridos no bombardeamento que atingiu a sua casa e no qual pereceram nove dos seus dez filhos. Hoje, \u00e9 dia 1 de Junho e assinala-se o Dia Mundial da Crian\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada dia que passa a barb\u00e1rie entra-nos em directo nas televis\u00f5es pela casa adentro. Em Portugal, apesar de dezenas de milhares de crian\u00e7as mortas, os respons\u00e1veis do governo limitam-se a declara\u00e7\u00f5es de circunst\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":9152,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[174],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9151"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9151"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9151\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9255,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9151\/revisions\/9255"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9152"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9151"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}