{"id":9145,"date":"2025-06-03T13:38:41","date_gmt":"2025-06-03T13:38:41","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9145"},"modified":"2025-06-03T13:41:27","modified_gmt":"2025-06-03T13:41:27","slug":"a-reacao-sera-televisionada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/06\/03\/a-reacao-sera-televisionada\/","title":{"rendered":"A rea\u00e7\u00e3o ser\u00e1 televisionada"},"content":{"rendered":"\n<p>A tentativa de essencializar o eleitor do CHEGA, reduzindo-o a um \u00fanico fen\u00f3meno singular e independente das condi\u00e7\u00f5es materiais que o rodeiam serve tamb\u00e9m para eludir responsabilidades e a presta\u00e7\u00e3o de contas que alguns agentes sociais devem dar no que \u00e0 ascens\u00e3o do partido de Andr\u00e9 Ventura diz respeito. Ironia do destino, s\u00e3o precisamente aqueles que mobilizam o discurso que aqui critiquei que vou culpar pelo refor\u00e7o do populismo reacion\u00e1rio: os&nbsp;<em>media<\/em>&nbsp;televisivos. Tomando como minhas as recentes palavras de David Dinis, diretor adjunto do jornal Expresso, embora toda a comunica\u00e7\u00e3o social desfrute de uma quota parte da responsabilidade pela populariza\u00e7\u00e3o do CHEGA, \u00f3rg\u00e3os como a SIC, TVI e CNN, que atingem parcelas vultosas do p\u00fablico portugu\u00eas, s\u00e3o especialmente imput\u00e1veis. Espero \u00e9 que ningu\u00e9m interrompa este artigo para noticiar o estado do refluxo g\u00e1strico de um qualquer l\u00edder partid\u00e1rio, tal como ocorreu ao pobre David. Esse fiasco da hist\u00f3ria pol\u00edtica nacional \u00e9 assaz representativo da aten\u00e7\u00e3o excessiva que as televis\u00f5es d\u00e3o \u00e0 direita bafienta, em nome de uma l\u00f3gica de prossecu\u00e7\u00e3o do lucro que as reduziu \u00e0 mera fun\u00e7\u00e3o de altifalantes com or\u00e7amentos milion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Informe-nos a teoria. Em 2008, Gianpietro Mazzoleni, produziu um cap\u00edtulo para uma colet\u00e2nea editada pela&nbsp;<em>Palgrave Macmillan<\/em>, com o t\u00edtulo&nbsp;<em>Twenty First Century Populism,<\/em>&nbsp;ou&nbsp;<em>Populismo do S\u00e9culo XXI<\/em>. Intitulado de&nbsp;<em>Populismo e os Media<\/em>, o texto expunha a f\u00f3rmula de crescimento dos populistas reacion\u00e1rios no espa\u00e7o medi\u00e1tico. Ainda que inicialmente ignoradas pela comunica\u00e7\u00e3o social&nbsp;<em>mainstream<\/em>, devido a um misto de irrelev\u00e2ncia no quadro pol\u00edtico e um certo nojo das linhas editoriais, estas figuras eventualmente davam o salto para a opini\u00e3o p\u00fablica massificada, fosse por declara\u00e7\u00f5es incandescentes ou pr\u00e1ticas premeditadas que visavam granjear aten\u00e7\u00e3o. Assim que se lograva o furo da bolha, a busca incessante por audi\u00eancias ocupava-se do resto. Os cong\u00e9neres e antecessores de Andr\u00e9 Ventura passavam a figurar na rotina di\u00e1ria e, simultaneamente, na dieta medi\u00e1tica dos espectadores. \u00c9 certo que muitas das pe\u00e7as noticiosas veiculadas assumiam uma postura cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao objeto reportado. N\u00e3o \u00e9 menos verdade que muitos comentadores pol\u00edticos manifestavam publicamente o seu rep\u00fadio aos precursores do CHEGA, mas tal n\u00e3o causava mossa. Os momentos televisivos que simplesmente davam conta das declara\u00e7\u00f5es proferidas por membros desses partidos amplificavam-nas, fazendo-as chegar ao grande p\u00fablico; j\u00e1 as cr\u00edticas justificavam o teatro de vitimiza\u00e7\u00e3o dos reacion\u00e1rios: era o sistema, as elites que tudo faziam para descredibilizar o \u00fanico representante leg\u00edtimo dos anseios populares.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o leitor considera que o CHEGA seguiu este gui\u00e3o na perfei\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o saiba que est\u00e1 certo. Tal como reporta a&nbsp;<em>Marktest,&nbsp;<\/em>Andr\u00e9 Ventura j\u00e1 \u00e9 um protagonista medi\u00e1tico desde a \u00e9poca em que era o \u00fanico representante da sua for\u00e7a pol\u00edtica na Assembleia da Rep\u00fablica. A presen\u00e7a constante do espectro no jornalismo e no comentariado emulou uma dimens\u00e3o de preval\u00eancia e relev\u00e2ncia no debate p\u00fablico que contribuiu para a sua normaliza\u00e7\u00e3o e impress\u00e3o nas subjetividades dos espectadores. O povo levou a torto e a direito com Ventura e, ap\u00f3s ferida e calo, habituou-se a ele. Habituou-se tanto que j\u00e1 ansiava saber qual seria o coment\u00e1rio da estrela emergente em rela\u00e7\u00e3o a qualquer tema pol\u00edtico sonante. E se o p\u00fablico reagia positivamente \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o da jovem promessa, premiando os canais com audi\u00eancias, estes expandiam-na, matizavam-na, conferiam-lhe novos contornos.<\/p>\n\n\n\n<p>A express\u00e3o do apogeu desta deriva ultraconservadora n\u00e3o se verificou apenas na cobertura da hospitaliza\u00e7\u00e3o de Ventura, que encostou epis\u00f3dios semelhantes, como o de Montenegro, a um canto. Tamb\u00e9m se evidenciou no facto de o l\u00edder do CHEGA ter sido o primeiro l\u00edder entrevistado pela CNN ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es. E o tom do entrevistador pouco interessa: se for pouco combativo, o entrevistado brilha; se for cr\u00edtico, o entrevistado vitimiza-se, brilhando os seus apoiantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste enquadramento, afigura-se insuport\u00e1vel ver os meios de comunica\u00e7\u00e3o a desenvolver modelos te\u00f3ricos assombrosamente infantis para descrever o eleitorado do CHEGA. Neste curto ensaio poderia enfrent\u00e1-los com informa\u00e7\u00f5es contextuais, como a degenera\u00e7\u00e3o da democracia na esteira do projeto neoliberal, as expectativas frustradas de uma juventude que j\u00e1 n\u00e3o cr\u00ea que viver\u00e1 melhor, a dissolu\u00e7\u00e3o do substrato da classe trabalhadora a que se convencionou chamar \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, mas antes de tudo isso prefiro principiar por assinalar a tremenda hipocrisia de buscar no eleitorado que ajudamos a construir uma explica\u00e7\u00e3o m\u00edstica e alienada para o surgimento e estabiliza\u00e7\u00e3o do populismo reacion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem reinvente a roda, num esfor\u00e7o de se escapulir do ju\u00edzo da hist\u00f3ria, mas meio palmo de consci\u00eancia c\u00edvica \u00e9 o bastante para dizer e reiterar que aqueles que hoje expelem l\u00e1grimas do Nilo pelo avan\u00e7o da direita desbocada constituem simultaneamente um dos setores menos inimput\u00e1veis no quadro dos desenvolvimentos mais recentes. S\u00e3o todos culpados, do&nbsp;<em>mainstream<\/em>&nbsp;ao tabl\u00f3ide. Este \u00faltimo por noticiar 150 vezes o mesmo crime, tornando o cidad\u00e3o mais perme\u00e1vel a sensa\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a e ret\u00f3ricas securit\u00e1rias. O primeiro por se submeter \u00e0 supremacia da audi\u00eancia e trair o prop\u00f3sito jornal\u00edstico. Quando os liberais argumentarem que a prossecu\u00e7\u00e3o do lucro privado conduz \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do bem comum, dir-lhes-ei sempre que foi em nome do lucro que adoeceu a comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rescaldo eleitoral, momento de debates pueris e pouco f\u00e9rteis em rela\u00e7\u00e3o a circunst\u00e2ncias que, pese embora a preval\u00eancia da historieta Spinumviva \u2013 que, consuma-se, s\u00f3 beneficiou o Partido Social-Democrata \u2013, n\u00e3o s\u00e3o radicalmente diferentes das do ano passado. O material e o artif\u00edcio s\u00e3o deveras semelhantes, at\u00e9 nos t\u00f3picos profundamente desinteressantes aos quais fomos habituados. Um deles reside na t\u00e3o reverberada express\u00e3o do \u201cum milh\u00e3o de fascistas\u201d. A cacofonia televisiva em torno da moraliza\u00e7\u00e3o de um eleitorado que n\u00e3o \u00e9, de todo, homog\u00e9neo, j\u00e1 cansa. Por\u00e9m, fadiga medi\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico efeito perverso da repeti\u00e7\u00e3o exaustiva da mesma narrativa.<\/p>\n","protected":false},"author":151,"featured_media":9148,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[248],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9145"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/151"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9145"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9145\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9149,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9145\/revisions\/9149"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9145"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9145"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9145"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9145"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}