{"id":9121,"date":"2025-06-03T09:29:27","date_gmt":"2025-06-03T09:29:27","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9121"},"modified":"2025-07-02T21:23:22","modified_gmt":"2025-07-02T21:23:22","slug":"lisboa-de-moedas-e-campea-das-desigualdades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/06\/03\/lisboa-de-moedas-e-campea-das-desigualdades\/","title":{"rendered":"Lisboa de Moedas \u00e9 campe\u00e3 das desigualdades"},"content":{"rendered":"\n<p>A 26 de setembro de 2021, os lisboetas foram chamados a votar nas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas e o PS, em coliga\u00e7\u00e3o com o Livre, perdeu cerca de 7% dos votos, apenas alcan\u00e7ando os 30,8%. Na verdade, das for\u00e7as pol\u00edticas que conseguiram eleger vereadores, a CDU foi a \u00fanica que subiu. Surpreendentemente, mesmo coligados, o PSD e o CDS-PP tiveram um pior resultado que a soma dos votos, quatro anos antes, quando haviam concorrido em separado. Apesar da ligeira quebra eleitoral, Carlos Moedas tornou-se presidente da c\u00e2mara municipal de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Com Fernando Medina, o processo de financeiriza\u00e7\u00e3o e turistifica\u00e7\u00e3o da cidade acelerou e o ex-autarca do PS recebeu duras cr\u00edticas. Hoje, Carlos Moedas \u00e9 acusado de ter aprofundado ainda mais esse processo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Moedas escolheu sempre a mercantiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O arquiteto e urbanista Tiago Mota Saraiva, que d\u00e1 aulas na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa e vive na cidade, aponta a habita\u00e7\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o e a acessibilidade pedonal como algumas das \u00e1reas mais cr\u00edticas. Explicando que o problema da habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusivamente uma responsabilidade aut\u00e1rquica, \u201ca c\u00e2mara podia fazer muito mais do que est\u00e1 a fazer\u201d. Para Tiago Mota Saraiva, \u201ccada vez mais, os im\u00f3veis na cidade de Lisboa n\u00e3o s\u00e3o casas, s\u00e3o ativos imobili\u00e1rios\u201d. Como consequ\u00eancia, a maioria das pessoas n\u00e3o consegue manter-se na cidade. \u201cLisboa tem 47 mil casas vazias, em zonas centrais da cidade, onde o munic\u00edpio n\u00e3o opera. E nada fez sobre a sua disponibiliza\u00e7\u00e3o, nem avan\u00e7ou grande coisa\u201d, sublinha. Os efeitos sociais s\u00e3o \u201cdevastadores\u201d com casais separados for\u00e7ados e com filhos a viver juntos ou com jovens que n\u00e3o se conseguem emancipar de casa dos pais. Para o futuro da cidade, o arquiteto considera que esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cdram\u00e1tica\u201d, uma vez que Lisboa fica cada vez mais desertificada de jovens que aqui se formam.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, Carlos Moedas teve \u201cmuita influ\u00eancia\u201d com a manuten\u00e7\u00e3o dos \u201cest\u00edmulos e ced\u00eancias\u201d para transformar a habita\u00e7\u00e3o em alojamento local, \u201ccombatendo sempre todas as regras onde se pretendia regular de alguma forma o mercado do alojamento local\u201d. Carlos Moedas \u201cescolheu sempre o lado da mercantiliza\u00e7\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outra parte, Tiago Mota Saraiva considera que este mandato ficou caracterizado pela falta de cultura de participa\u00e7\u00e3o e considera o Conselho de Cidad\u00e3os um \u201cfalhan\u00e7o total\u201d e explica que \u201ca participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por esta ou outra pessoa poder mandar um e-mail \u00e0 c\u00e2mara a dizer que acha que \u00e9 mais isto ou mais aquilo, a participa\u00e7\u00e3o faz-se a partir da discuss\u00e3o coletiva e faz-se a partir da constitui\u00e7\u00e3o de momentos de participa\u00e7\u00e3o\u201d. O momento que considera ilustrar bem o \u201cfalhan\u00e7o\u201d do Conselho de Cidad\u00e3os foi quando um mun\u00edcipe prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o do Provedor do Cidad\u00e3o. \u201cCarlos Moedas levanta-se e diz: \u2018N\u00e3o, n\u00e3o, o Provedor do Cidad\u00e3o sou eu\u2019. Como se o facto de ter sido eleito presidente da c\u00e2mara lhe desse um estatuto de juiz magn\u00e2nimo. Talvez o Papa lhe tenha dito isso\u201d, ironiza.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 acessibilidade pedonal, no \u00e2mbito das quest\u00f5es de mobilidade, entende que piorou significativamente, recordando que Carlos Moedas subscreveu a ideia de que a Pol\u00edcia Municipal devia multar menos e n\u00e3o incomodar tanto os cidad\u00e3os. \u201cA estrutura de investimento p\u00fablico naquilo que \u00e9 a acessibilidade pedonal est\u00e1 completamente desfasada daquilo que est\u00e1 a acontecer nas outras capitais europeias, completamente desfasada. Lisboa est\u00e1 a andar para tr\u00e1s nesse sentido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201c\u00caxodo\u201d de trabalhadores exp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es pouco atrativas<\/h2>\n\n\n\n<p>Nuno Almeida \u00e9 coordenador do Sindicato dos Trabalhadores do Munic\u00edpio de Lisboa (STML) e considera que continua a haver car\u00eancias a n\u00edvel de pessoal e da forma\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da autarquia. Ao longo dos \u00faltimos quatro anos, foram v\u00e1rias as lutas por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e entende que quando h\u00e1 avan\u00e7os em mat\u00e9ria laboral \u00e9 gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o sindical. \u201cA verdade \u00e9 que, ou por constrangimentos financeiros ou at\u00e9 por in\u00e9rcia da pr\u00f3pria C\u00e2mara, as coisas andam muito mais devagar do que aquilo que a gente gostaria. Onde as coisas \u00e0s vezes avan\u00e7am \u00e9 porque h\u00e1 a luta dos trabalhadores que obriga \u00e0 tomada de decis\u00f5es pol\u00edticas no sentido de melhorar essas condi\u00e7\u00f5es\u201d, explica, exemplificando com a greve de dezembro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>A transfer\u00eancia de compet\u00eancias para as juntas de freguesia em 2014 veio dificultar o servi\u00e7o p\u00fablico na cidade e Nuno Almeida d\u00e1 o exemplo da higiene urbana, uma das falhas mais apontadas \u00e0 gest\u00e3o de Carlos Moedas, \u201conde h\u00e1 muita confus\u00e3o entre quem faz o qu\u00ea e o que \u00e9 que cabe a cada um\u201d. Isto, explica, num quadro em que \u201caliada ao desinvestimento nos servi\u00e7os p\u00fablicos, aumenta a procura na iniciativa privada para tentar colmatar as defici\u00eancias e as car\u00eancias que existem na cidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Naturalmente, a batalha por melhores condi\u00e7\u00f5es para os trabalhadores \u00e9 uma prioridade do STML e, nesse sentido, fizeram algumas propostas que j\u00e1 foram apresentadas \u00e0 autarquia como a equipara\u00e7\u00e3o da recompensa do trabalho em dia de feriado ao trabalho em dia de descanso obrigat\u00f3rio. Tamb\u00e9m a atribui\u00e7\u00e3o do passe metropolitano a todos os trabalhadores, que Nuno Almeida entende ser uma medida de al\u00edvio da despesa em transportes e, simultaneamente, retiraria mais viaturas ao tr\u00e2nsito na cidade. Outra realidade preocupante \u00e9 o \u201c\u00eaxodo\u201d de trabalhadores que abandonam a autarquia \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es no privado ou no estrangeiro. \u201cAs vagas n\u00e3o preenchidas em concursos s\u00e3o a prova de que n\u00e3o \u00e9 atrativo trabalhar no munic\u00edpio\u201d, descreve o sindicalista. \u201cIsto p\u00f5e em causa os servi\u00e7os p\u00fablicos na cidade\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aritm\u00e9tica pol\u00edtica no executivo aponta tamb\u00e9m o dedo ao PS que tem viabilizado muitas das decis\u00f5es do PSD\/CDS-PP, apesar de Carlos Moedas n\u00e3o ter maioria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Lisboa desigual<\/h2>\n\n\n\n<p>Para Ant\u00f3nio Brito Guterres, assistente social com especializa\u00e7\u00e3o em estudos urbanos e com um conhecimento profundo sobre os bairros municipais de Lisboa, a realidade habitacional na cidade piorou muito. Se havia 800 casas ocupadas quando Carlos Moedas tomou posse, agora ser\u00e3o mais, explica. Isto deve-se, em parte, ao facto de o processo de realojamento ter demorado tanto que j\u00e1 foi em \u201csobrelota\u00e7\u00e3o\u201d com duas ou tr\u00eas fam\u00edlias no mesmo apartamento.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Brito Guterres, as pessoas n\u00e3o conseguiram progredir, apesar da prosperidade propalada de um \u201cPortugal europeu de pleno emprego e qualifica\u00e7\u00f5es\u201d. Lisboa \u00e9, hoje, a cidade mais rica em termos de Produto Interno Bruto e, simultaneamente, o concelho mais desigual do pa\u00eds, de acordo com o coeficiente de Gini. Outro dado sublinhado pelo tamb\u00e9m investigador no Din\u00e2mia-Cet ISCTE \u2013 IUL \u00e9 o n\u00famero de licenciados em Lisboa, o mais alto do pa\u00eds, mas com uma distribui\u00e7\u00e3o desproporcional nas diferentes \u00e1reas da cidade. \u201cH\u00e1 zonas onde h\u00e1 muitos licenciados e zonas onde s\u00e3o praticamente inexistentes, que \u00e9 o caso dos bairros sociais. Portanto, os bairros sociais, enquanto espa\u00e7o que teve pol\u00edtica p\u00fablica para combater exatamente os des\u00edgnios de cada um na sua nascen\u00e7a, est\u00e3o ao n\u00edvel da sua constru\u00e7\u00e3o e na sua l\u00f3gica de habita\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m na l\u00f3gica do seu habitat, completamente entregues a reproduzir a pobreza das pessoas\u201d, afirma. \u201cPor exemplo, no s\u00edtio onde trabalho, j\u00e1 depois das obras financiadas pelo PRR, s\u00f3 funciona um elevador em sete. Temos o caso de uma senhora de idade que morreu em Marvila quando teve de subir at\u00e9 ao oitavo andar a p\u00e9\u201d. O caso aconteceu em janeiro deste ano quando Lurdes Valente, de 83 anos, n\u00e3o resistiu ao esfor\u00e7o e morreu depois de uma paragem cardiorrespirat\u00f3ria. Na altura, ao canal Now, Alexandre Teixeira, membro da comiss\u00e3o de moradores em Marvila, afirmou que o desfecho era j\u00e1 expect\u00e1vel, revelando que havia quem vivesse em \u201cpris\u00e3o domicili\u00e1ria\u201d, idosos ou moradores com mobilidade reduzida sem capacidade de sair das suas casas.<\/p>\n\n\n\n<p>Brito Guterres denuncia ainda o facto de a autarquia se dedicar a embelezar as fachadas dos edif\u00edcios municipais sem se preocupar com o seu interior. \u201cNo bairro do Boavista nem caixas de correio tinham. Portanto, \u00e0 dist\u00e2ncia at\u00e9 parece bom mas por dentro, nas zonas comuns, n\u00e3o h\u00e1 nada. H\u00e1 caixas de deriva\u00e7\u00e3o \u00e0 mostra com crian\u00e7as ali perto\u201d. Outro dos pontos em que toca \u00e9 o da linha orientadora da Gebalis, a empresa municipal de gest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que n\u00e3o resolve os problemas do desenvolvimento local e da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a pol\u00e9mica inten\u00e7\u00e3o de Carlos Moedas de dar mais poder \u00e0 pol\u00edcia municipal, Brito Guterres recorda que a inseguran\u00e7a baixou em Lisboa, segundo dados oficiais, e que \u00e9 bizarro que o presidente da autarquia, que tanto aposta no turismo, queira projetar uma imagem de uma cidade violenta para o exterior. \u201cA principal inseguran\u00e7a da cidade de Lisboa \u00e9 a sua desigualdade\u201d, garante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A poucos meses das elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas, tr\u00eas pessoas que conhecem bem a cidade de Lisboa fazem um balan\u00e7o da governa\u00e7\u00e3o de Carlos Moedas. 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