{"id":9080,"date":"2025-05-13T10:13:17","date_gmt":"2025-05-13T10:13:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9080"},"modified":"2025-05-13T10:13:20","modified_gmt":"2025-05-13T10:13:20","slug":"a-revolucao-de-2024-e-a-crise-politica-no-bangladesh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/05\/13\/a-revolucao-de-2024-e-a-crise-politica-no-bangladesh\/","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o de 2024 e a crise pol\u00edtica no Bangladesh"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre janeiro e fevereiro de 2025, visitei o&nbsp;Bangladesh, um pa\u00eds frequentemente associado no Ocidente \u00e0 sua di\u00e1spora. Recentemente, essa mesma di\u00e1spora esteve nas manchetes em Portugal devido a mais um caso de racismo policial. Mas foi um outro acontecimento que trouxe o&nbsp;Bangladesh&nbsp;para o panorama pol\u00edtico global: a revolu\u00e7\u00e3o de agosto de 2024, liderada por estudantes, que derrubou Sheikh Hasina e o Partido Awami.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender o pouco que se conhece desta revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial analisar o contexto hist\u00f3rico que a precede.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;Bangladesh&nbsp;tornou-se independente em 1971, ap\u00f3s um conflito sangrento contra o Paquist\u00e3o. A raiz dessa independ\u00eancia foi a primazia da cultura e da l\u00edngua bengali sobre a religi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o dom\u00ednio brit\u00e2nico e, posteriormente, sob o Paquist\u00e3o, o territ\u00f3rio do atual&nbsp;Bangladesh&nbsp;foi constantemente marginalizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta come\u00e7ou nos anos 1940, quando o&nbsp;Movimento da L\u00edngua Bengali&nbsp;se op\u00f4s \u00e0 tentativa de imposi\u00e7\u00e3o do urdu como \u00fanica l\u00edngua oficial do Paquist\u00e3o. Grande parte desse movimento era composta por estudantes da Universidade de Dhaka, um dos poucos espa\u00e7os que viam chegar novas ideias a uma complicada e conservadora zona do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O fundador do Paquist\u00e3o, Muhammad Ali Jinnah, insistiu no urdu como l\u00edngua nacional, o que gerou resist\u00eancia em Bengala Oriental. Apesar da vit\u00f3ria do Movimento da L\u00edngua Bengali, o Paquist\u00e3o Oriental permaneceu subjugado pelo governo central. A fa\u00edsca necess\u00e1ria para incendiar o movimento da independ\u00eancia bengali foi a recusa do presidente Yahya Khan em permitir que Sheikh Mujibur Rahman, vencedor das elei\u00e7\u00f5es de 1970, assumisse o governo. A guerra que se seguiu culminou na independ\u00eancia do&nbsp;Bangladesh.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros anos do novo pa\u00eds foram marcados pela instabilidade. Como solu\u00e7\u00e3o, Mujib tentou consolidar o seu inst\u00e1vel poder atrav\u00e9s de um sistema pr\u00f3ximo do socialismo. Sistema este que a hist\u00f3ria ocidental reescreve como uma \u201cafronta \u00e0 democracia\u201d \u2013 a verdade da insatisfa\u00e7\u00e3o est\u00e1, no entanto, longe de ser simples. E pouco tempo depois, o seu governo \u00e9 derrubado e Mujib, assassinado. A partir de 1975, uma s\u00e9rie de golpes militares mergulhou o&nbsp;Bangladesh&nbsp;num ciclo de instabilidade que durou at\u00e9 1991.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A Altern\u00e2ncia entre Hasina e Zia<\/h3>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1991 trouxe ao poder duas mulheres com vis\u00f5es antag\u00f3nicas: Sheikh Hasina, da Liga Awami, e Khaleda Zia, do Partido Nacionalista do&nbsp;Bangladesh&nbsp;(BNP). Zia vence as elei\u00e7\u00f5es, tornando-se a primeira mulher a liderar o pa\u00eds. Algo que dificilmente seria poss\u00edvel n\u00e3o fosse o&nbsp;Bangladesh&nbsp;forjado pelo secularismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Zia trouxe investimentos estrangeiros e restaurou a democracia conforme os ditames ocidentais, mas as desigualdades sociais e a corrup\u00e7\u00e3o atingiam, mais uma vez, n\u00edveis incapazes de garantir a dignidade de um povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Zia foi reeleita com o apoio do Jamaat-e-Islami, um partido isl\u00e2mico radical, mais tarde condenado por crimes de guerra e liga\u00e7\u00f5es a grupos terroristas. Essa alian\u00e7a representou uma amea\u00e7a ao secularismo que havia sido a base da independ\u00eancia bengali e a raz\u00e3o pela qual uma mulher poderia governar aquele pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos seguintes, Hasina sobe ao poder, promovendo crescimento econ\u00f3mico e redu\u00e7\u00e3o da pobreza. No entanto, o seu governo foi acusado de autoritarismo, repress\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o do sistema eleitoral. Acusa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o end\u00e9micas ao governo de Hasina, mas ao cen\u00e1rio pol\u00edtico bengali desde o nascimento do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A Revolu\u00e7\u00e3o de 2024<\/h3>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de junho de 2024, uma revolu\u00e7\u00e3o estudantil eclodiu, resultando na queda do governo de Hasina. O movimento foi impulsionado pela aprova\u00e7\u00e3o de uma lei em concreto \u2014 o sistema de aprova\u00e7\u00e3o de cotas para o servi\u00e7o p\u00fablico, lei esta que visava que mais de metade das cotas para o servi\u00e7o p\u00fablico fossem exclusivas a descendentes dos que fizeram parte da luta de liberta\u00e7\u00e3o do&nbsp;Bangladesh&nbsp;\u2014 lei esta que vai mais al\u00e9m do que aquela introduzida por Sheikh Mujib em 1972, onde 30% das cotas eram exclusivas para descendentes dos libertadores do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s mais de dois meses de conflitos e v\u00e1rios estudantes mortos, Hasina declara luto nacional e reduz a percentagem de cotas para descendentes das for\u00e7as de liberta\u00e7\u00e3o para 7%. O movimento havia, portanto, triunfado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 no p\u00f3s-capitula\u00e7\u00e3o que surgem as grandes quest\u00f5es sobre a origem deste movimento. O sistema de cotas passa a ser de import\u00e2ncia menor, e repentinamente o que se exige \u00e9 a queda do governo Awami. Os protestos continuam com a mesma intensidade at\u00e9 \u00e0 queda do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>As reivindica\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o assumidas por alguma for\u00e7a pol\u00edtica; tudo o que se conhece deste movimento \u00e9 que \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o estudantil que se insurge contra a lei de cotas e, de repente, torna-se numa afiada ponta de lan\u00e7a que exige violentamente a queda do governo de Hasina.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os estudantes com quem tive a oportunidade de falar expressam um vazio ideol\u00f3gico sobre os acontecimentos e um estranho orgulho daquilo que conseguiram (uso a palavra \u201cestranho\u201d porque fica no ar a sensa\u00e7\u00e3o de que nem eles sabem o que est\u00e3o a fazer).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O Bangladesh P\u00f3s-Hasina<\/h3>\n\n\n\n<p>Atualmente, o&nbsp;Bangladesh&nbsp;enfrenta uma aus\u00eancia de poder no sentido negativo. Pequenos protestos paralisam Dhaka, a pol\u00edcia limita-se a lidar com crimes menores, e a rivalidade pol\u00edtica transformou-se numa guerra entre fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome de Sheikh Mujib, outrora venerado como pai da na\u00e7\u00e3o, \u00e9 agora associado ao termo &#8220;fascista&#8221;, enquanto Hasina se tornou o principal alvo do movimento estudantil. Curiosamente, o descontentamento tamb\u00e9m foi apropriado por grupos ultraconservadores que, entre outras coisas, pro\u00edbem jogos de futebol feminino ou ofendem mulheres que se vestem como entendem. Mais uma vez, devo referir que o&nbsp;Bangladesh, apesar de ser um pa\u00eds isl\u00e2mico, sempre demonstrou uma grande abertura e flexibilidade perante os direitos das mulheres. Algo que hoje parece querer ser enterrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Conv\u00e9m refor\u00e7ar que esta vontade de islamizar o pa\u00eds \u00e9 acompanhada pelo maior n\u00famero de viola\u00e7\u00f5es que o pa\u00eds j\u00e1 viu. Uma amiga diz-me que, pela primeira vez, tem medo de sair \u00e0 rua quando a luz do sol se desvanece.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo bengali est\u00e1 hoje nas m\u00e3os do Pr\u00e9mio Nobel da Paz Muhammad Yunus, fundador da&nbsp;Grameen Foundation, que garante empr\u00e9stimos atrav\u00e9s de microcr\u00e9ditos para que cidad\u00e3os do&nbsp;Bangladesh&nbsp;possam sair do estado de pobreza extrema e come\u00e7ar os seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p>Curioso que este nomeado conselheiro de Estado, apesar de assumir um car\u00e1cter tempor\u00e1rio, seja algu\u00e9m que venha do mundo empresarial e n\u00e3o pol\u00edtico. Curioso tamb\u00e9m que Yunus foque toda a sua cr\u00edtica \u00e0s mortes que ocorreram pelas m\u00e3os do governo de Hasina, ao mesmo tempo que permite que o partido fundamentalista Jamaat-e-Islami volte ao cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, no&nbsp;Bangladesh, a origem revolucion\u00e1ria do pa\u00eds parece esquecida nos escombros de uma revolu\u00e7\u00e3o que t\u00e3o pouco sabemos de onde veio ou o que realmente significa.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a maioria odeia a \u00cdndia pelo ex\u00edlio de Hasina, e a hist\u00f3ria reescreve-se, tentando colocar o&nbsp;Bangladesh&nbsp;mais pr\u00f3ximo do Paquist\u00e3o. O pa\u00eds que massacrou o&nbsp;Bangladesh&nbsp;e for\u00e7a-se o esquecimento do papel da \u00cdndia e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como catalisadores da independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Reescreve-se a hist\u00f3ria para esquecer o passado secular do&nbsp;Bangladesh&nbsp;e normalizar a islamiza\u00e7\u00e3o de um povo. Estas s\u00e3o as \u00fanicas consequ\u00eancias vis\u00edveis de mais uma aclamada \u201cprimaveril revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Bangladesh tornou-se independente em 1971, ap\u00f3s um conflito sangrento contra o Paquist\u00e3o. A raiz dessa independ\u00eancia foi a primazia da cultura e da l\u00edngua bengali sobre a religi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":150,"featured_media":9084,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[247],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9080"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/150"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9080"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9080\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9083,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9080\/revisions\/9083"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9080"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9080"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9080"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9080"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}