{"id":9064,"date":"2025-05-07T09:40:48","date_gmt":"2025-05-07T09:40:48","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9064"},"modified":"2025-05-08T12:40:21","modified_gmt":"2025-05-08T12:40:21","slug":"o-colectivo-vence-a-traicao-e-a-exploracao-em-o-lugar-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/05\/07\/o-colectivo-vence-a-traicao-e-a-exploracao-em-o-lugar-do-trabalho\/","title":{"rendered":"O colectivo vence a trai\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o em \u201cO lugar do trabalho\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Estamos em 1997. Caterino Lamanna vive numa zona rural afastada do centro da cidade italiana de Taranto. Trabalha na maior empresa sider\u00fargica da Europa, a ILVA. \u00c9 um trabalho duro e perigoso, prejudicial para a sua sa\u00fade e bem-estar. Caterino, homem um pouco rude e individualista, n\u00e3o hesita quando o gerente, Basile, lhe prop\u00f5e espiar colegas em troca de um posto de trabalho mais favor\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Lugar do Trabalho\u201d (o t\u00edtulo original \u00e9 \u201cPalazzina Laf\u201d), de 2023, do actor estreante na realiza\u00e7\u00e3o Michele Riondino, que passou por Lisboa na 18\u00aa Festa do Cinema Italiano, \u00e9 uma obra realista e mordaz. O filme tra\u00e7a o percurso de um oper\u00e1rio que, para melhorar as suas condi\u00e7\u00f5es laborais, aceita trair a sua classe a favor dos seus superiores. Caterino \u00e9 promovido a capataz, e Basile cede-lhe um humilde carro em segunda m\u00e3o da empresa. Para o protagonista, esta \u00e9 uma boa recompensa, uma vez que s\u00f3 precisa de estar alerta aos movimentos sindicais dos restantes oper\u00e1rios. A explora\u00e7\u00e3o capitalista fez com que a reivindica\u00e7\u00e3o se intensificasse na ILVA. Um oper\u00e1rio sofreu um acidente mortal depois de ter trabalhado 32 horas em dois dias. A estrat\u00e9gia da administra\u00e7\u00e3o \u00e9 controlar a classe trabalhadora por dentro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A ilus\u00e3o de poder do trabalhador espi\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Basile aumenta a parada. Quer que Caterino passe a controlar o edif\u00edcio LAF, lugar afastado dentro da ILVA, onde est\u00e3o 79 trabalhadores que a empresa decidiu arremessar e isolar. O gerente percebe que pode abusar de Caterino, presa f\u00e1cil na engrenagem laboral. Caterino fica impressionado na primeira visita que faz \u00e0quele lugar, que parece assemelhar-se a um manic\u00f3mio. Os trabalhadores, confinados durante o per\u00edodo laboral, n\u00e3o t\u00eam para fazer, e isso tem consequ\u00eancias sobretudo psicol\u00f3gicas. Alguns est\u00e3o bastantes perturbados; outros tentam manter o equil\u00edbrio e a sanidade cozinhando, fazendo caf\u00e9 ou jogando ping pong. H\u00e1 ainda quem os que se dedicam, absurdamente, a saltar sobre caixas de cart\u00e3o vazias; e um grupo deles re\u00fane-se num pequeno culto religioso. Um dos oper\u00e1rios, num gesto de revolta, depois de almo\u00e7ar, arrota para o telefone que comunica com o gerente (telefone que s\u00f3 recebe chamadas). Estes s\u00e3o trabalhadores especializados e altamente qualificados, que, por algum motivo, foram castigados pela entidade patronal. No fundo, vivem uma tortura: \u00e9 pior estar fechado num edif\u00edcio sem nada para fazer do que estar a trabalhar naquilo para que foram contratados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Caterino integra-se facilmente no grupo. Anota numa agenda todos os movimentos dos colegas, e at\u00e9 compreende a situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel a que foram votados. No entanto, o desejo de agradar ao patronato \u00e9 maior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este anti-her\u00f3i dos tempos modernos tem alguns problemas de consci\u00eancia, mas n\u00e3o recusa continuar a trair os seus iguais perante aquela forma de explora\u00e7\u00e3o e chantagem psicol\u00f3gica. Caterino \u00e9 um pobre homem, com um fraco car\u00e1cter. Estar acima dos outros trabalhadores e do lado do gerente d\u00e1-lhe um pequeno e ilus\u00f3rio poder, que o leva a denunciar qualquer gesto que o sindicalista Morro e os colegas confinados fa\u00e7am, no sentido de acabar com aquela situa\u00e7\u00e3o atroz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um momento no filme em que o grupo se re\u00fane para escrever uma carta ao bispo, que vai dar uma miss\u00e3o na sider\u00fargica. O homem que aparentava ser o mais perturbado, sempre escondido a um canto a arfar, \u00e9 quem, afinal, esteve durante a reuni\u00e3o a ponderar sobre o que deve ser escrito, ditando de forma cristalina cada palavra \u00e0 antiga secret\u00e1ria de Basile, tamb\u00e9m ela castigada por causa de um contrato. \u00c9 o massacre a que est\u00e3o sujeitas estas pessoas que est\u00e1 a deixar em risco a sua sa\u00fade mental. Durante a missa, uma das trabalhadoras \u00e9 dissuadida pelos seguran\u00e7as. Caterino informou os superiores das inten\u00e7\u00f5es do colectivo. A secret\u00e1ria tenta tamb\u00e9m entreg\u00e1-la, e \u00e9 parada pelo gerente. Esta \u00e9 a cena onde a opress\u00e3o contra a classe oper\u00e1ria se estabelece com a maior arg\u00facia e mesquinhez. O sil\u00eancio, os olhares e a passividade dos confinados revelam frustra\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A luta continua e a uni\u00e3o vence<\/h2>\n\n\n\n<p>Como a luta continua e a uni\u00e3o faz mesmo a for\u00e7a, apesar de um advogado que os ia ajudar a desistir do caso, os trabalhadores conseguem que a ep\u00edstola que n\u00e3o foi entregue ao bispo chegue ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, que abre um inqu\u00e9rito. Em tribunal, Caterino confessa que sabia bem o que estava a fazer. Tal confiss\u00e3o tem tanto de assustador como de verdadeiro: num mundo de injusti\u00e7as sociais e econ\u00f3micas, existem trabalhadores explorados dispostos a tudo, em termos \u00e9ticos e humanos, para melhorar as suas condi\u00e7\u00f5es laborais. N\u00e3o existindo limites, \u00e9 a for\u00e7a do colectivo que consegue acabar com as torturas do edif\u00edcio LAF, derrotando os intentos do patronato. Caterino \u00e9 um homem sem esp\u00edrito, tamb\u00e9m ele v\u00edtima da explora\u00e7\u00e3o capitalista selvagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Lugar do Trabalho\u201d: n\u00e3o podia existir t\u00edtulo mais realista e ir\u00f3nico para esta l\u00facida obra cinematogr\u00e1fica. Se h\u00e1 lugar onde as pessoas trabalham arduamente \u00e9 naquele complexo industrial. Quando, ao mesmo tempo, reivindicam os seus direitos, s\u00e3o castigadas e escondidas, para quase enlouquecerem. Quando exigem voltar ao trabalho, s\u00e3o-lhes propostos lugares e tarefas desapropriados, como forma humilhar ainda mais estas mulheres e estes homens, que apenas querem trabalhar e receber condignamente o seu sal\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u00e9 baseado num caso ver\u00eddico ocorrido em It\u00e1lia, na cidade de onde \u00e9 natural o realizador. No final, vemos o edif\u00edcio vazio e escutamos testemunhos reais dos trabalhadores que viveram esta horr\u00edvel experi\u00eancia, sendo que \u00e9 referido que as situa\u00e7\u00f5es de confinamento nos locais de trabalho continuam a ser praticadas e camufladas, em It\u00e1lia. \u201cO Lugar do Trabalho\u201d \u00e9 um espelho intemporal dos (des)limites da explora\u00e7\u00e3o laboral silenciosa, e de como a luta e uni\u00e3o dos trabalhadores pode demover tais injusti\u00e7as. Existem sempre aqueles que, mesmo sendo denunciadores, s\u00e3o as maiores v\u00edtimas de um sistema perverso. \u00c9 o caso de Caterino, que acaba isolado.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO Lugar do Trabalho\u201d (o t\u00edtulo original \u00e9 \u201cPalazzina Laf\u201d), de 2023, do actor estreante na realiza\u00e7\u00e3o Michele Riondino, que passou por Lisboa na 18\u00aa Festa do Cinema Italiano, \u00e9 uma obra realista e mordaz.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":9065,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9064"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9064"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9064\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9078,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9064\/revisions\/9078"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9064"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}