{"id":9061,"date":"2025-05-07T09:38:11","date_gmt":"2025-05-07T09:38:11","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9061"},"modified":"2025-06-03T13:49:05","modified_gmt":"2025-06-03T13:49:05","slug":"o-tamanho-da-ingratidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/05\/07\/o-tamanho-da-ingratidao\/","title":{"rendered":"O tamanho da ingratid\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Segundo a edi\u00e7\u00e3o de 22 de abril do di\u00e1rio alem\u00e3o Berliner Zeitung, o Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros alem\u00e3o \u201crecomendou aos distritos e munic\u00edpios que n\u00e3o fa\u00e7am convites a diplomatas russos ou bielorrussos e, se necess\u00e1rio, mandem embora convidados indesejados\u201d das cerim\u00f3nias de comemora\u00e7\u00e3o dos 80 anos do Dia da Liberta\u00e7\u00e3o, a derrota do nazismo, na II Guerra Mundial, invocando o que designam de \u201c\u2019previs\u00edvel\u2019 instrumentaliza\u00e7\u00e3o da comemora\u00e7\u00e3o por parte dos representantes oficiais da embaixada russa ou bielorrussa\u201d, alertando o MNE alem\u00e3o para a \u201ca propaganda, desinforma\u00e7\u00e3o e falsifica\u00e7\u00e3o revisionista da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo o Berliner Zeitung, a Funda\u00e7\u00e3o Memorial de Brandemburgo, \u00e0 qual pertencem os antigos campos de concentra\u00e7\u00e3o de Sachsenhausen e Ravensbr\u00fcck, teria, por carta, sugerido \u00e0s respetivas embaixadas para escolherem \u201coutro dia para realizar um culto memorial silencioso, como um pequeno grupo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Uni\u00e3o Europeia, atrav\u00e9s da sua comiss\u00e1ria para os Neg\u00f3cios Estrangeiros, Pol\u00edtica de Seguran\u00e7a e vice-presidente, Kaja Kallas, foi mais longe e intimou os Chefes de Estado dos 27 pa\u00edses da UE: \u201cDeix\u00e1mos bem claro que n\u00e3o queremos que nenhum pa\u00eds candidato participe nestes eventos de 9 de maio em Moscovo\u201d, afirmou Kallas, apelando aos Estados-membros para que enviem os seus representantes \u00e0 capital, Kiev.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta grosseira inger\u00eancia da comiss\u00e1ria mereceu uma resposta imediata do primeiro-ministro eslovaco, Roberto Fico que, em comunicado, lembrou Kallas que \u201cestamos em 2025 e n\u00e3o em 1939\u201d e, acrescentou: \u201cGostaria de a informar que sou o primeiro-ministro leg\u00edtimo da Eslov\u00e1quia, um pa\u00eds soberano (\u2026) Ningu\u00e9m me pode dar ordens para ir ou n\u00e3o ir (\u2026) Irei a Moscovo a 9 de maio\u201d, concluiu. No mesmo sentido foi a posi\u00e7\u00e3o da S\u00e9rvia, que ir\u00e1 estar presente nas comemora\u00e7\u00f5es em Moscovo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora a prop\u00f3sito de mem\u00f3ria e de falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, talvez convenha lembrar o soci\u00f3logo franc\u00eas Maurice Halbwachs, morto pela Gestapo no campo de Concentra\u00e7\u00e3o de Buchenwald: \u201c[a mem\u00f3ria hist\u00f3rica] deve ser a deposit\u00e1ria fiel, a produtora correta do passado, fundamentada em dados que advenham de m\u00e9todos control\u00e1veis intersubjetivamente\u201d. Diz ainda o soci\u00f3logo que a \u201cmem\u00f3ria n\u00e3o faz corte ou ruptura entre passado e presente porque ret\u00e9m do passado somente aquilo que ainda est\u00e1 vivo ou capaz de viver na consci\u00eancia do grupo que a mant\u00e9m\u201d. E se, como refere o historiador Pierre Nora, a mem\u00f3ria est\u00e1 \u201cem permanente evolu\u00e7\u00e3o, aberta \u00e0 dial\u00e9tica da lembran\u00e7a e do esquecimento, vulner\u00e1vel a todos os usos e manipula\u00e7\u00f5es\u201d, ela pode ser, nesse sentido, um campo minado, at\u00e9 pela contra-mem\u00f3ria que, neste caso, sem legitimidade, se quer transformar em discurso dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a \u201cNecessidade da mem\u00f3ria \u00e9 uma necessidade da hist\u00f3ria\u201d, centremo-nos no que a hist\u00f3ria nos faculta revisitando, ent\u00e3o, os n\u00fameros frios da chacina Nazi na opera\u00e7\u00e3o Barbarossa, iniciada a 22 de junho de 1941, que ceifou mais de 26,6 milh\u00f5es de sovi\u00e9ticos, 13,6 milh\u00f5es dos quais civis, 40% de todas as mortes provocadas pela Segunda Guerra Mundial, opera\u00e7\u00e3o que tinha como pressuposto, como os documentos o comprovam, a destrui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que ocupava o territ\u00f3rio da ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, dando carta branca aos militares da Wermacht, isentando-os de quaisquer processos-crime contra civis e prisioneiros de guerra sovi\u00e9ticos, o que carateriza a opera\u00e7\u00e3o como um ato de genoc\u00eddio, muito semelhante, n\u00e3o na dimens\u00e3o, ao que h\u00e1 muito vem sendo desenhado em Gaza, com uma europa amn\u00e9sica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os rastos dessa opera\u00e7\u00e3o deixaram 1700 cidades destru\u00eddas total ou parcialmente, e 70 mil aldeias, em todo o territ\u00f3rio ent\u00e3o designado URSS. Mais de 13 milh\u00f5es de cidad\u00e3os da ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foram mortos, na Bielorr\u00fassia, por exemplo, mais de 620 aldeias e as respetivas popula\u00e7\u00f5es foram queimadas.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 durante o cerco de Leninegrado pelas tropas alem\u00e3s e finlandesas, que durou 872 dias (de 8 de setembro de 1941 a 27 de janeiro de 1944), morreram mais de um milh\u00e3o de habitantes, mais de metade (mais de 632 mil) \u00e0 fome, impedidos de abandonar a cidade pelas tropas alem\u00e3s, um n\u00famero de v\u00edtimas superior \u00e0 totalidade de mortes, neste conflito, de EUA e Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n\n\n\n<p>No processo de derrota da Alemanha Nazi, o primeiro grande passo \u00e9 dado na batalha de Moscovo, onde morreram mais de 500 mil soldados alem\u00e3es e cerca de 937 mil mortos entre as tropas e popula\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. A esta batalha, que travou o avan\u00e7o das tropas alem\u00e3s, fazendo-as recuar, juntam-se v\u00edtimas das batalhas de Kiev, Leninegrado, Sebastopol, Smolensk e Odessa, mas a que marcou o ponto de viragem ocorreu em Stalingrado. Nesta batalha as tropas nazis perderam 1,5 milh\u00f5es de soldados e as tropas do Ex\u00e9rcito Vermelho perderam 1 milh\u00e3o e 130 mil pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 na frente oriental, no confronto de Kursk, que envolveu mais de 4 milh\u00f5es de mortes, contabilizando as v\u00edtimas dos dois lados, que a derrota da Wermacht se come\u00e7ou a desenhar. Implicou a perda de 500 mil militares das tropas nazis, e a derrota cria as condi\u00e7\u00f5es para o desembarque das tropas americanas e brit\u00e2nicas em It\u00e1lia, com a consequente corte da alian\u00e7a Mussolini\/Hitler.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na Frente Ocidental, a opera\u00e7\u00e3o Bagration constituiu a maior derrota da Alemanha nazi, decorreu no ver\u00e3o de 1944 e foi decisiva para o fim do III Reich. Nesta opera\u00e7\u00e3o participaram do lado sovi\u00e9tico, mais de 1,1 milh\u00f5es de partisanos, morreram mais de 1 milh\u00e3o de soldados das tropas nazis, e mais de 7 milh\u00f5es de soldados do Ex\u00e9rcito Vermelho libertaram 7 pa\u00edses europeus do ex\u00e9rcito alem\u00e3o, desde logo a pr\u00f3pria Alemanha, Austria, Bulg\u00e1ria, Checoslov\u00e1quia, Hungria, Jugosl\u00e1via, Noruega, Pol\u00f3nia e Rom\u00e9nia. A chegada a Berlim foi a 8 de maio de 1945 e a assinatura da capitula\u00e7\u00e3o nazi decorreu na madrugada do dia 9 de maio de 1945.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa caminhada, a 27 de Janeiro de 1945, o Ex\u00e9rcito Vermelho entrou no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Aushwitz. As imagens descritas, o ambiente recordado pelo ent\u00e3o tenente Ivan Martynushkin, relatado 60 anos mais tarde numa entrevista \u00e0 Euronews, \u00e9 uma mem\u00f3ria viva. A neve que ca\u00eda, pintava de branco um ch\u00e3o negro de cinzas. O cheiro nauseabundo dos milhares de corpos amontoados e queimados j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 nos fornos, mas no ch\u00e3o, davam a entender que os fornos j\u00e1 eram escassos para o n\u00famero de corpos que os nazis pretendiam queimar, e recorda: \u201cAproxim\u00e1mo-nos de um grupo de prisioneiros, fic\u00e1mos frente a frente. Os rostos escurecidos. Alguns agasalhados com os cobertores. Vimos ent\u00e3o os seus olhos (\u2026) algo de muito profundo naqueles olhos nos dizia que sentiam uma esp\u00e9cie de felicidade.\u201d Este cen\u00e1rio de gente de olhos secos de l\u00e1grimas, sem express\u00e3o nem for\u00e7a para sorrir, nada coincidente com os filmes encenados alguns tempos depois, para glorificar o momento, ter-se-\u00e1 repetido em Sachsenhausen e Ravensbrueck.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 por isso que, a Europa de Kallas, Ursulla von der Leyen e Ant\u00f3nio Costa, ao discriminar e impedir as autoridades russas de estarem presentes nas comemora\u00e7\u00f5es do Dia da Liberta\u00e7\u00e3o, procura reescrever a hist\u00f3ria, deixando de fora 26,6 milh\u00f5es de v\u00edtimas, 13,6 milh\u00f5es dos quais civis, esquece os 34,4 milh\u00f5es de soldados do Ex\u00e9rcito Vermelho, decisivos na derrota da Alemanha Nazi, desconsidera todo um povo que perdeu milh\u00f5es de familiares resistindo, mas ignora tamb\u00e9m essa esp\u00e9cie de felicidade que brilhava nos olhos dos presos libertados em Aushwitz, em Sachsenhausen e Ravensbrueck; uma enorme ingratid\u00e3o que tem a mesma dimens\u00e3o da Europa que hoje ignora o genoc\u00eddio em Gaza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 80 anos, a Alemanha nazi rendia-se depois da tomada de Berlim pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Hoje, tenta-se falsificar a hist\u00f3ria e esconder que 80% dos soldados alem\u00e3es ca\u00edram em combate contra as for\u00e7as do Ex\u00e9rcito Vermelho.<\/p>\n","protected":false},"author":88,"featured_media":9072,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[184],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9061"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/88"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9061"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9061\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9165,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9061\/revisions\/9165"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9072"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9061"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}